A Espera (Keum Suk Gendry-Kim): Capítulo 10 – Vídeo Carta da Mamãe

O décimo e último capítulo, intitulado “Vídeo Carta da Mamãe”, é um dos mais emocionantes do livro. Aqui, é Jina, e não sua mãe, quem assume o protagonismo da narrativa. Depois de acompanharmos durante boa parte da obra as lembranças de Gwija, passamos a observar essa história a partir da perspectiva da filha, conhecendo sua infância, sua relação com a mãe e a maneira como o passado familiar continuou influenciando sua vida ao longo dos anos.

Existe uma mudança bastante significativa nesse movimento. Até então, conhecíamos Gwija principalmente por meio de suas próprias lembranças e da espera interminável pelo filho desaparecido durante a Guerra da Coreia. Agora, somos convidados a compreender como essa mesma história foi vivida por alguém que cresceu ao lado dela. Jina também é uma personagem marcada por uma ausência, embora sua experiência seja diferente daquela da mãe. Ela não perdeu diretamente um irmão durante a guerra, mas cresceu em uma família cuja organização afetiva parecia sempre gravitar em torno dessa perda.

O capítulo funciona, em certa medida, como uma investigação da biografia de Gwija. Jina procura compreender as atitudes da mãe, revisita acontecimentos da infância e tenta encontrar significados para comportamentos que, durante muito tempo, foram motivo de ressentimento. É um exercício de empatia que não depende de idealizar a figura materna ou apagar os conflitos existentes entre as duas. Pelo contrário, a compreensão surge justamente quando Jina começa a reconhecer que sua mãe também era uma pessoa atravessada por experiências que ela própria não conseguia compreender plenamente.

Um dos exemplos mais significativos diz respeito à maneira como Gwija demonstrava mais cuidado e atenção com o filho do segundo casamento do que com Jina. Durante a infância, essa diferença era percebida como uma preferência injusta e provocava ressentimento. Com o passar do tempo, esse sentimento se transformou em raiva e incompreensão. Afinal, como aceitar que a própria mãe parecesse dedicar mais atenção a outra criança?

Aos poucos, porém, Jina consegue enxergar essa atitude sob outra perspectiva. Gwija continuava vivendo emocionalmente ligada ao filho que havia perdido durante a guerra. Seu cuidado com o menino mais novo também carregava algo daquela ausência. Era como se, ao proteger e amar intensamente o filho que estava ao seu lado, ela tentasse preservar uma relação que havia sido brutalmente interrompida. Talvez existisse ali uma tentativa inconsciente de oferecer a outra criança o cuidado que seu filho desaparecido nunca mais pôde receber. E, de alguma maneira, também de imaginar que alguma outra mulher pudesse cuidar dele com a mesma dedicação.

Essa descoberta não apaga o sentimento de abandono que Jina experimentou durante a infância, mas permite que ela compreenda melhor a origem daquele comportamento. É uma distinção importante. Compreender alguém não significa declarar que todas as suas atitudes foram corretas, tampouco invalidar a dor que elas provocaram. Significa reconhecer que as pessoas não são definidas apenas pelos efeitos que produzem sobre nós. Elas também carregam histórias, perdas, medos e necessidades que nem sempre conseguimos enxergar.

Acho que essa é uma das reflexões mais bonitas do capítulo e, talvez, de toda a obra. Existe uma tendência bastante comum de interpretar as pessoas a partir da nossa própria experiência, como se aquilo que conseguimos observar fosse suficiente para explicar suas motivações. Uma mãe parece injusta, um pai parece distante, um irmão parece indiferente, um amigo parece egoísta. Mas cada pessoa possui uma história que não conhecemos por inteiro. Por trás de uma atitude aparentemente simples pode existir uma sucessão de acontecimentos, traumas e relações que deram origem a uma maneira particular de enxergar o mundo.

Cada indivíduo é, nesse sentido, um universo próprio. Não apenas por suas lembranças e experiências pessoais, mas também pela rede de relações que o constitui. Somos formados por pessoas que conhecemos, por aquelas que perdemos, pelos afetos que recebemos e pelos que não conseguimos receber. Existem acontecimentos que nos acompanham durante décadas, influenciando nossas escolhas e nossos comportamentos sem que as pessoas ao nosso redor tenham necessariamente consciência disso. Às vezes, nem nós mesmos conseguimos compreender inteiramente o que nos move.

É justamente por isso que a empatia exige um esforço de imaginação. Precisamos tentar enxergar o mundo a partir de uma perspectiva que não é a nossa, reconhecendo que aquilo que parece incompreensível quando observado de fora pode adquirir outro significado quando conhecemos a história de quem está envolvido. Isso não significa concordar com tudo ou abandonar nossos próprios sentimentos, mas aceitar que a experiência humana é muito mais complexa do que nossas primeiras impressões permitem perceber.

O passado de Gwija também ganha outra dimensão por meio do vídeo que ela grava para um programa de reencontro de famílias separadas. Nele, a mãe de Jina deixa uma mensagem destinada ao filho que desapareceu durante a guerra. É uma tentativa de alcançar alguém com quem não conseguiu manter contato por quase toda a vida. O vídeo funciona como uma espécie de carta enviada ao futuro, uma mensagem que talvez nunca chegue ao destinatário, mas que preserva a esperança de que ele ainda esteja vivo e possa um dia assistir à gravação.

Existe algo particularmente comovente nessa escolha. Depois de tantos anos, Gwija já não tem como reconstruir a vida que perdeu, recuperar os momentos da infância do filho ou participar da pessoa que ele se tornou. Tudo o que pode oferecer é o próprio testemunho, sua voz, seu rosto e as lembranças que conseguiu preservar. O vídeo registra uma tentativa de manter vivo um vínculo que a distância e o tempo não conseguiram apagar.

Ao mesmo tempo, essa mensagem também acaba funcionando como um legado para Jina. A filha passa a compreender que a espera da mãe não era apenas uma obsessão inexplicável, mas uma parte fundamental de sua identidade. A ausência do irmão não ocupava somente um espaço na memória de Gwija. Ela influenciava a maneira como a mãe se relacionava com os filhos, organizava seus afetos e interpretava o próprio passado. Aquilo que Jina havia experimentado como uma forma de rejeição estava ligado a uma dor muito anterior ao seu nascimento.

Gosto especialmente da maneira como o capítulo encerra essa trajetória sem oferecer uma solução fácil para as feridas familiares. A compreensão não devolve o tempo perdido, não apaga os ressentimentos e tampouco garante que o reencontro desejado finalmente aconteça. Mas ela permite que Jina estabeleça outra relação com a própria história. Em vez de enxergar a mãe apenas pelas atitudes que a magoaram, consegue reconhecê-la como uma pessoa inteira, com uma biografia própria, uma vida afetiva complexa e uma dor que atravessou gerações.

Talvez exista aí uma das maiores riquezas da experiência humana: a possibilidade de descobrir, mesmo depois de muitos anos, que as pessoas ao nosso redor são muito maiores do que a imagem que construímos delas. Cada uma carrega um universo de relações, lembranças, contradições e acontecimentos que jamais poderemos conhecer completamente. E, ainda assim, podemos tentar nos aproximar desse universo, escutar, perguntar, rever nossas interpretações e compreender um pouco melhor aquilo que antes nos parecia inexplicável.

É uma reflexão que também permite reconhecer a potência da própria vida. Mesmo depois de experiências devastadoras, as pessoas continuam estabelecendo vínculos, criando filhos, construindo novas relações, trabalhando, lembrando e encontrando motivos para seguir adiante. Isso não significa que o sofrimento seja superado ou que todas as feridas encontrem uma resolução. Algumas perdas permanecem para sempre. Mas a vida não se resume a elas. Mesmo em condições extremamente adversas, existe uma capacidade impressionante de produzir novos afetos, descobrir outros sentidos e continuar participando do mundo.

Em A Espera, essa força aparece de maneira muito particular. Gwija passa décadas aguardando o retorno de um filho, enquanto Jina precisa aprender a compreender uma mãe cuja vida foi profundamente determinada por essa ausência. São duas gerações atravessadas pela mesma tragédia, mas que a experimentam de maneiras diferentes. Uma espera pelo passado que talvez possa retornar; a outra tenta compreender o passado para conseguir olhar de outra maneira para o presente.

Acho muito bonito que Keum Suk Gendry-Kim encerre o livro justamente com esse deslocamento de perspectiva. Depois de apresentar as consequências de uma guerra que separou famílias, destruiu comunidades e condenou pessoas a décadas de espera, a autora nos conduz a uma reflexão sobre a necessidade de compreender aqueles que estão próximos de nós. Porque, mesmo quando compartilhamos uma história familiar, nunca experimentamos exatamente a mesma vida. Cada pessoa é atravessada por acontecimentos particulares e constrói, a partir deles, uma maneira única de amar, sofrer e se relacionar.

No fim, A Espera não fala apenas sobre pessoas separadas por uma fronteira política. Fala também das distâncias que podem existir dentro de uma mesma família, entre pessoas que vivem juntas, mas nem sempre conseguem compreender umas às outras. E talvez a maior possibilidade de aproximação esteja justamente nesse esforço de reconhecer a humanidade que existe por trás de cada história. A vida é frágil, contraditória e frequentemente injusta, mas também possui uma capacidade extraordinária de continuar florescendo, criando relações e produzindo significado mesmo depois das maiores adversidades.


Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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