No sexto capítulo, intitulado “1950 – Guerra”, acompanhamos Gwija durante sua fuga como refugiada, em meio ao deslocamento de milhares de pessoas que tentam escapar dos efeitos da guerra. É uma situação que não distingue combatentes de civis, partidários de uma ideologia ou pessoas que simplesmente desejam continuar vivendo suas vidas. Todos acabam submetidos à mesma violência e à necessidade de abandonar suas casas em busca de algum lugar seguro.
Keum Suk Gendry-Kim utiliza uma linguagem visual particularmente expressiva para representar esse período. Os quadros são preenchidos por figuras retorcidas pela tristeza, pelo medo e pelo esgotamento físico. Os rostos parecem carregar não apenas o sofrimento imediato, mas também o peso de acontecimentos que começam a se acumular na memória. Em determinado momento, quando o pai de Jina e seu irmão desaparecem em meio à multidão, depois que sua mãe se afasta do grupo para amamentá-la, as figuras dos dois se transformam em silhuetas vazias. É uma solução visual muito bonita e dolorosa, pois representa o desaparecimento não apenas como um acontecimento físico, mas como uma ruptura na própria memória afetiva.
A Espera não é simplesmente uma reconstituição dos acontecimentos da Guerra da Coreia. É também uma representação de como esses acontecimentos são assimilados, deformados e preservados pela memória de quem os viveu. A autora não está interessada apenas em mostrar o que aconteceu, mas em transmitir como era estar ali, caminhar entre milhares de desconhecidos, perder pessoas pelo caminho e nunca saber exatamente o que aconteceria no dia seguinte.
Uma das passagens mais perturbadoras do capítulo diz respeito à maneira como os refugiados passam a lidar com a morte. No início da jornada, quando encontram cadáveres abandonados pelo caminho, ainda conseguem sentir tristeza, indignação e horror. Entretanto, à medida que essas situações se tornam frequentes, a percepção começa a mudar. Os corpos passam a ser encarados de maneira pragmática: algumas pessoas verificam se os mortos possuem objetos de valor ou se seus sapatos estão em melhores condições do que os seus próprios. Aquilo que inicialmente provocava repulsa acaba incorporado à rotina da sobrevivência.
É uma transformação terrível, mas compreensível dentro das circunstâncias apresentadas. Depois de caminhar por dias, enfrentar a fome, o frio e o esgotamento, um par de sapatos em boas condições pode representar uma diferença concreta na possibilidade de continuar andando. A morte de outra pessoa, por mais trágica que seja, passa a ser percebida também pelas necessidades de quem ainda está vivo. Keum Suk mostra como a guerra pode reduzir a existência humana a preocupações imediatas, nas quais até mesmo a dignidade dos mortos acaba subordinada à necessidade de sobreviver.
Outro momento particularmente forte acontece quando o grupo encontra crianças e bebês abandonados pelo caminho. Existe um impulso natural de ajudá-los, mas os refugiados precisam reconhecer que não possuem recursos suficientes sequer para garantir a própria sobrevivência. A decisão de continuar caminhando, deixando aquelas crianças para trás, é devastadora justamente porque não parece existir uma alternativa moralmente satisfatória. A compaixão permanece, mas já não encontra condições materiais para se transformar em ação.
Essa é uma das dimensões mais cruéis da experiência dos refugiados. A guerra não destrói apenas as condições de vida, mas também as estruturas materiais que permitem às pessoas cuidar umas das outras. Em circunstâncias normais, uma criança abandonada seria motivo para interromper a caminhada e tentar encontrar ajuda. Em uma fuga coletiva, entretanto, parar pode significar colocar em risco a própria vida e a de todos aqueles que dependem de você. A sobrevivência passa a exigir decisões que, em qualquer outra circunstância, seriam impensáveis.
Também chama a atenção a própria condição dos refugiados como uma multidão anônima. São pessoas que, até pouco tempo antes, tinham casas, vizinhos, profissões, plantações e rotinas particulares. Agora, caminham juntas por estradas, sem saber exatamente para onde estão indo ou quando poderão voltar. A individualidade parece desaparecer diante da necessidade de se deslocar, encontrar alimento e evitar os perigos que surgem pelo caminho. Ainda assim, cada pessoa carrega uma história particular, uma família que pode ter ficado para trás e lembranças de uma vida que talvez nunca mais consiga recuperar.
A força deste capítulo está justamente em mostrar que a guerra não termina nas batalhas travadas pelos exércitos. Existe uma outra guerra, muito menos gloriosa e frequentemente esquecida pelos relatos históricos, que acontece nas estradas, nos abrigos improvisados e na memória daqueles que precisam fugir. É uma guerra vivida por pessoas que não escolheram participar dela, mas que precisam lidar com suas consequências mais brutais.
Keum Suk consegue transmitir tudo isso sem transformar os refugiados em figuras abstratas de sofrimento. Ela apresenta situações concretas, pequenos episódios e reações humanas que revelam a dimensão da tragédia. O desaparecimento de um familiar, a troca de um par de sapatos, a visão de uma criança abandonada: são acontecimentos aparentemente distintos, mas que convergem para a mesma constatação. Quando a sobrevivência se torna a única preocupação possível, até mesmo aquilo que consideramos essencial à nossa humanidade fica ameaçado.
Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)
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- Capítulo 1 – Saindo da Cidade
- Capítulo 2 – Duas Amigas
- Capítulo 3 – Minha Terra ao Norte
- Capítulo 4 – Tempos de Caos
- Capítulo 5 – Momentos Felizes, Apesar de Tudo
- Capítulo 6 – 1950: Guerra
- Capítulo 7 – Rumo ao Sul
- Capítulo 8 – Obrigada por Estar Viva
- Capítulo 9 – Passeio ao Mar
- Capítulo 10 – Vídeo Carta da Mamãe