No terceiro capítulo, Gwija relembra sua difícil infância na província de Hamgyong do Sul, atualmente território da Coreia do Norte. Ela vivia com os pais, os irmãos e o cachorro em uma pequena comunidade situada em uma região montanhosa, de clima frio, recursos escassos e distante dos principais pontos de abastecimento. O trabalho diário no cultivo de grãos era essencial para a sobrevivência da família.
Dois aspectos dessa organização comunitária chamam a atenção. O primeiro é a solidariedade entre os vizinhos. Sempre que alguém retornava de uma pescaria bem-sucedida no lago, trazendo dois ou três peixes, a comida era compartilhada com toda a comunidade. Segundo Gwija, isso estava associado a uma crença de que não dividir o alimento poderia atrair má sorte. Ninguém ousava contrariar essa tradição. É interessante observar como uma superstição acabava produzindo uma espécie de mecanismo espontâneo de distribuição de recursos, no qual o bem-estar individual estava condicionado ao bem-estar coletivo.
Essa passagem também permite uma reflexão sobre as raízes culturais de uma sociedade organizada em torno da cooperação. Muito antes da implantação do socialismo na Coreia do Norte, já existiam práticas comunitárias baseadas na partilha, na reciprocidade e na responsabilidade coletiva. Não se tratava necessariamente de uma sociedade igualitária no sentido moderno, mas de uma organização em que a sobrevivência dependia de uma rede de obrigações mútuas.
O segundo aspecto diz respeito à divisão bastante rígida dos papéis entre homens e mulheres. Os homens, fisicamente mais fortes e responsáveis pelos trabalhos mais pesados, ocupavam uma posição de maior prestígio na comunidade. Essa hierarquia também se refletia na alimentação: o arroz era destinado aos homens, enquanto as mulheres ficavam com o milhete. Gwija relata essa organização como parte natural da vida cotidiana, justificando a diferença pela necessidade de fornecer aos homens mais energia para o trabalho. É um detalhe interessante porque revela uma sociedade que, embora baseada na cooperação e na distribuição de recursos, também preservava, por um bom motivo, hierarquias tradicionais bastante definidas.
O momento mais melancólico do capítulo, entretanto, é aquele em que Gwija recorda a perda de seu cachorro. A lembrança desse episódio parece ter deixado uma marca profunda em sua personalidade, acompanhando-a até a velhice. É uma passagem aparentemente pequena, mas que diz muito sobre a maneira como a autora trabalha a memória: acontecimentos que poderiam parecer insignificantes para outras pessoas podem adquirir proporções enormes na vida de quem os experimenta. No fim, a dimensão de uma perda não é determinada apenas pelo acontecimento em si, mas pelo significado afetivo que ele assume para quem a vivencia.
Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)
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- Capítulo 1 – Saindo da Cidade
- Capítulo 2 – Duas Amigas
- Capítulo 3 – Minha Terra ao Norte
- Capítulo 4 – Tempos de Caos
- Capítulo 5 – Momentos Felizes, Apesar de Tudo
- Capítulo 6 – 1950: Guerra
- Capítulo 7 – Rumo ao Sul
- Capítulo 8 – Obrigada por Estar Viva
- Capítulo 9 – Passeio ao Mar
- Capítulo 10 – Vídeo Carta da Mamãe

