A Espera (Keum Suk Gendry-Kim): Capítulo 9 – Passeio ao Mar

No nono capítulo, intitulado “Passeio ao Mar”, acompanhamos uma narrativa mais detalhada da experiência dos refugiados, contada a partir das lembranças de Gwija. Ela descreve a viagem entre o porto de Hungnam, na província de Hamgyong do Sul, e o porto de Busan, no extremo sudeste da península coreana. É um relato que nos permite observar outra etapa da tragédia: depois de abandonar suas casas e atravessar estradas tomadas pelo caos, essas pessoas precisam enfrentar uma nova realidade, agora na condição de refugiados que dependem da estrutura militar e da assistência humanitária para continuar vivendo.

A viagem acontece em um contexto histórico bastante específico. Em dezembro de 1950, após a intervenção chinesa na Guerra da Coreia e o avanço de suas tropas sobre as posições das forças da ONU no Norte, tornou-se necessário retirar os contingentes militares que estavam concentrados na região de Hungnam. A operação, conhecida como Evacuação de Hungnam, mobilizou uma enorme estrutura naval e logística. Entre os dias 9 e 24 de dezembro, navios transportaram mais de 100 mil militares, além de veículos, equipamentos e suprimentos. Também foram evacuados aproximadamente 91 mil civis norte-coreanos que tentavam escapar do avanço das forças comunistas.

Navios no porto de Hungnam em 14 de dezembro de 1950, durante a evacuação.
Navios no porto de Hungnam em 14 de dezembro de 1950, durante a evacuação. Foto: autor desconhecido. Public domain, via Wikimedia Commons.

A dimensão da operação impressiona, mas o número de pessoas que precisavam fugir era ainda maior. Milhares de refugiados se concentraram no porto, esperando conseguir um lugar nos navios. As embarcações eram utilizadas prioritariamente para retirar tropas e equipamentos militares, mas acabaram sendo adaptadas para transportar o maior número possível de civis. Em alguns casos, milhares de pessoas eram acomodadas em um único navio, em condições extremamente precárias. Não havia espaço suficiente, privacidade ou conforto. As pessoas viajavam amontoadas, muitas vezes sem saber exatamente quanto tempo duraria a travessia ou o que encontrariam quando chegassem ao destino.

É interessante observar como Keum Suk apresenta essa experiência a partir de pequenos detalhes da viagem. A autora não transforma a evacuação em uma narrativa heroica sobre a eficiência de uma operação militar. O que interessa são os corpos amontoados, a falta de espaço, o desconforto e a incerteza de pessoas que já haviam passado por situações extremas antes mesmo de embarcar. Para os militares, tratava-se de uma operação de retirada. Para os refugiados, era mais uma etapa de uma fuga que parecia não ter fim.

A chegada a Busan também não representava exatamente o encerramento dessa jornada. A cidade havia se transformado em um dos principais destinos de pessoas que fugiam dos combates, e sua população cresceu rapidamente durante a guerra. O porto recebia militares, mercadorias, equipamentos e suprimentos internacionais, mas também milhares de civis deslocados. A infraestrutura urbana não estava preparada para absorver tamanha quantidade de pessoas. Muitos refugiados precisavam improvisar moradias em encostas, terrenos vazios, construções abandonadas e outros espaços inadequados. A sobrevivência continuava dependendo da capacidade de encontrar abrigo, alimento e alguma oportunidade de trabalho.

O capítulo também mostra a participação do Exército americano e das forças das Nações Unidas na organização desse deslocamento e na assistência aos refugiados. Havia uma estrutura para receber as pessoas, encaminhá-las a abrigos improvisados e distribuir alimentos e outros suprimentos. Entretanto, a existência dessa logística não eliminava os problemas cotidianos. A ajuda precisava ser transportada, armazenada e distribuída, e nem sempre chegava a quem mais precisava. Em uma situação de escassez generalizada, os próprios recursos destinados à assistência podiam acabar envolvidos em esquemas de comércio e exploração.

Um detalhe particularmente interessante é a maneira como alguns desses suprimentos eram comercializados, inclusive chegando às mãos de prisioneiros. Essa passagem revela como a economia informal se desenvolve em situações de colapso social. Quando o acesso a alimentos, roupas e outros produtos depende de uma distribuição irregular, esses objetos deixam de ser apenas recursos de sobrevivência e passam a adquirir valor de troca. Mesmo em meio a uma crise humanitária, surgem intermediários, oportunidades de lucro e relações econômicas que nem sempre respeitam a finalidade original da ajuda.

Essa dimensão também ajuda a compreender a transformação de Busan durante a guerra. A cidade não era apenas um destino para quem fugia do Norte, mas um espaço em que diferentes grupos precisavam disputar recursos e encontrar maneiras de sobreviver. O porto concentrava a entrada de mercadorias e suprimentos militares, enquanto os mercados informais se tornavam importantes pontos de circulação desses produtos. Para muitos refugiados, trabalhar no descarregamento de navios, vender objetos ou negociar mercadorias era uma das poucas alternativas disponíveis para conseguir algum dinheiro. A linha entre assistência, comércio e exploração podia se tornar bastante tênue.

Outra passagem dolorosa do capítulo diz respeito às mulheres que, diante da pobreza extrema e da ausência de alternativas, acabam recorrendo à prostituição. Keum Suk também chama a atenção para a maneira como essas mulheres eram hostilizadas pelos próprios refugiados. É uma contradição cruel: pessoas que compartilham a mesma condição de vulnerabilidade, que foram expulsas de suas casas e perderam praticamente tudo, ainda encontram maneiras de reproduzir julgamentos morais e hierarquias sociais entre si.

A situação dessas mulheres precisa ser compreendida dentro das condições materiais em que estavam inseridas. Muitas haviam perdido suas casas, seus familiares e qualquer possibilidade de sustento. Sem emprego, sem patrimônio e frequentemente responsáveis por alimentar os filhos, precisavam encontrar alguma maneira de sobreviver. A prostituição podia aparecer como uma das poucas alternativas disponíveis, embora isso não signifique que essas escolhas fossem feitas em condições de liberdade ou segurança. A pobreza, a dependência econômica e a vulnerabilidade diante de homens que detinham algum poder ou dinheiro tornavam essas relações profundamente desiguais.

O preconceito dirigido a essas mulheres revela como a guerra não elimina automaticamente os valores e as convenções sociais anteriores ao conflito. Mesmo quando todos estão submetidos à mesma precariedade, continuam existindo distinções entre aqueles considerados respeitáveis e aqueles que passam a ser tratados como moralmente inferiores. É especialmente triste perceber que mulheres que também foram vítimas da guerra acabam sendo julgadas justamente por estratégias de sobrevivência às quais foram empurradas pelas circunstâncias.

Esse episódio também permite pensar na maneira como a experiência da guerra é atravessada por diferenças de gênero. Homens e mulheres enfrentam a fome, o deslocamento e a perda de suas referências, mas nem sempre dispõem das mesmas possibilidades de trabalho ou proteção. Enquanto muitos homens conseguem encontrar ocupações braçais nos portos, nas estradas e na construção de abrigos, as mulheres frequentemente precisam recorrer ao comércio informal, ao trabalho doméstico ou a atividades que as deixam expostas à exploração sexual. A guerra atinge a todos, mas suas consequências não são distribuídas de maneira uniforme.

O que mais me chama a atenção nesse capítulo é justamente essa variedade de experiências. A narrativa passa pela travessia marítima, pela organização dos abrigos, pela distribuição de alimentos, pelo comércio de suprimentos e pela situação das mulheres que tentam sobreviver em condições extremas. São histórias diferentes, mas todas revelam como uma população inteira precisa reorganizar sua existência depois de perder as estruturas que antes davam alguma estabilidade à vida.

Também é importante observar que a condição de refugiado não termina quando alguém chega a um lugar considerado seguro. A pessoa pode ter escapado dos bombardeios e dos confrontos, mas ainda precisa lidar com a fome, a falta de moradia, o desemprego, a exploração e a perda dos vínculos familiares. A fuga resolve apenas uma parte do problema. O restante é uma luta prolongada para encontrar um lugar no mundo depois que tudo aquilo que constituía uma vida foi deixado para trás.

Keum Suk consegue mostrar essa realidade sem idealizar a solidariedade entre os refugiados e sem transformar todos eles em vítimas moralmente exemplares. Há pessoas tentando ajudar, outras tentando tirar proveito da situação e muitas simplesmente fazendo o que conseguem para sobreviver. A guerra não produz apenas sofrimento físico. Ela também coloca indivíduos em situações nas quais seus interesses entram em conflito, suas relações se deterioram e antigos preconceitos encontram novas formas de se manifestar.

“Passeio ao Mar” é, portanto, um capítulo sobre adaptação, mas não no sentido otimista de uma superação rápida das dificuldades. É sobre a necessidade de continuar vivendo quando as condições para uma vida digna desapareceram. A viagem de Gwija até Busan representa uma fuga bem-sucedida da zona de combate, mas não significa que ela tenha encontrado segurança ou tranquilidade. O perigo imediato ficou para trás; a luta pela sobrevivência, não.


Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)

← Capítulo anterior: Obrigada por Estar Viva | Próximo capítulo: Vídeo Carta da Mamãe →

Comente aqui

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter Semanal

Categorias

Asssuntos

Posts

Último Episódio

Quem faz

O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

Os equívocos sobre a Odisséia
A Odisseia, diferentemente da Ilíada, é uma obra em que...
O Profeta Isaías e a Política
A figura de Isaías é bastante valorizada, tanto no judaísmo...
“Terra Morta”, de Ryūnosuke Akutagawa: a vigília da morte e o desnudamento da natureza humana
Um ensaio sobre o leito de morte de Bashō, no...
Espelhos Partidos: a política como reação e reflexo
Quando o “ser” cede lugar ao “não ser o outro”,...
Rolar para cima