O deus assassinado e a criação

Em uma das partes mais interessantes de seu pequeno, mas interessantíssimo, livro Mito e Realidade, Mircea Eliade se dedica a uma figura particularmente curiosa das mitologias: a do “deus assassinado”.

A discussão aparece logo depois de Eliade tratar de outro tipo de divindade, o chamado “deus ocioso”. Apesar de aparentemente ocuparem posições bastante diferentes, as duas figuras possuem algo fundamental em comum: ambas são deuses criadores.

A diferença está, sobretudo, na maneira como participam da criação.

O deus ocioso é, de certa maneira, uma espécie de soberano indiferente. Ele cria o cosmos, estabelece sua estrutura fundamental e, depois, afasta-se. Sua obra está concluída. O mundo passa a existir independentemente de sua presença, e o deus deixa de desempenhar um papel decisivo na manutenção da realidade.

O deus assassinado, por outro lado, participa da criação de uma maneira muito mais material.

Podemos dizer, simplificando bastante, que o deus ocioso cria a forma, enquanto o deus assassinado fornece o conteúdo.

Em muitos desses mitos, o deus assassinado é uma criação do próprio deus ocioso. Sua função é produzir aquilo que o primeiro deus não produz diretamente: a matéria concreta do cosmos.

É de seu corpo que surgem as montanhas, os rios, as florestas, os animais e, frequentemente, os próprios seres humanos.

O procedimento é quase sempre brutal. A divindade é imolada, despedaçada ou desmembrada, e cada parte de seu corpo dá origem a uma parcela da realidade.

Em algumas tradições, sequer encontramos uma divindade propriamente dita. A figura pode aparecer como um gigante ou como um ser primordial de dimensões extraordinárias. Mas a lógica permanece essencialmente a mesma: o mundo é constituído a partir do corpo de um ser primordial sacrificado.

Isso produz uma consequência bastante interessante.

Se todas as coisas existentes são feitas a partir do corpo dessa criatura, então todas elas compartilham, em alguma medida, de sua substância.

A montanha é o deus. O rio é o deus. A árvore é o deus. O animal é o deus. O próprio homem é, de alguma maneira, o deus.

A criação deixa de ser, portanto, uma simples fabricação externa. O mundo não é algo produzido por um artesão que permanece separado de sua obra. O mundo é literalmente constituído pelo cadáver daquilo que foi sacrificado.

É por isso que a expressão “deus assassinado” deve ser compreendida com algum cuidado.

Quando Eliade fala em um “deus assassinado”, a palavra assassinado enfatiza sobretudo a violência da morte. Não se trata necessariamente de um crime cósmico cometido contra uma divindade que deveria ter continuado existindo.

Em muitos desses mitos, a morte do deus é precisamente aquilo que deveria acontecer.

Sua existência já contém, desde o princípio, o destino de sua própria imolação.

Ele precisa morrer para que o mundo exista.

Há, portanto, uma estranha inversão na ideia de sacrifício: a morte não representa o fim da criação, mas seu próprio princípio. O mundo nasce da violência exercida sobre um ser primordial.

A realidade que conhecemos é, nesse sentido, inseparável de uma morte original.

E talvez seja justamente aí que apareça uma das consequências mais interessantes desse tipo de mito.

Se o mundo inteiro existe graças ao corpo do ser primordial, então os homens não são simplesmente habitantes de um universo que lhes foi entregue gratuitamente.

Eles devem sua própria existência a um sacrifício.

Existe aí uma espécie de dívida cósmica.

A humanidade, assim como todos os outros seres, participa da substância daquele que foi sacrificado. Mas, ao mesmo tempo, sua existência depende da morte dessa criatura-criador. O nascimento do mundo contém, portanto, uma espécie de violência original da qual ninguém está completamente separado.

É nesse ponto que podemos compreender a presença recorrente da culpa, da mácula e da necessidade de expiação nos rituais associados a essas tradições.

Não se trata necessariamente de uma culpa moral no sentido moderno. Ninguém precisa ter cometido individualmente um crime para carregar essa dívida. Ela é anterior ao indivíduo. É uma condição da própria existência.

Existimos porque alguém morreu.

E é justamente por isso que o rito assume uma função tão importante.

Para Eliade, uma das características fundamentais do pensamento mítico é a possibilidade de retornar, através do rito, ao illud tempus, o “tempo primordial” em que os acontecimentos decisivos ocorreram pela primeira vez.

O ritual não é apenas uma lembrança simbólica de um acontecimento distante. Ele procura, de alguma maneira, reatualizar o acontecimento original.

No caso do deus assassinado, isso significa relembrar periodicamente o momento em que o corpo primordial foi imolado e transformado em cosmos.

A repetição ritual torna-se, assim, uma forma de manter a ordem do mundo.

A morte primordial não pode ser simplesmente esquecida, porque o mundo depende dela. O rito mantém viva a memória daquele sacrifício e, ao mesmo tempo, permite que a comunidade participe novamente do acontecimento fundador.

Há algo profundamente paradoxal nisso.

O mundo precisa ser continuamente recriado, mas sua recriação exige que se retorne à morte que o tornou possível.

A vida depende da morte.

A ordem depende da violência primordial.

E a existência humana depende de uma dívida que nenhum indivíduo escolheu contrair.

Talvez seja essa uma das imagens mais persistentes produzidas pelas mitologias do deus assassinado: o mundo não é apenas criação; ele é também o resultado de um sacrifício.

Nós caminhamos sobre o corpo daquele que morreu para que pudéssemos existir.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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