A doutrina que se completou no esquecimento: o silencioso triunfo Ājīvika

Imagem: Um diorama no Museu Jain, Madhuban, Giridih, retratando Gosala atacando Mahavira e seus discípulos

O determinismo radical de Makkhali Gosala, a rejeição do carma e a ironia histórica de uma tradição que confirmou sua própria visão ao desaparecer.

Lendo o segundo volume de História das Crenças e Ideias Religiosas, de Mircea Eliade, encontrei figuras que jamais havia ouvido falar ao longo da história religiosa.

Nos textos sobre o desenvolvimento do budismo, é interessante notar o quanto havia de fricção doutrinária entre as diversas tradições e como o budismo conseguiu se sobressair.

A primeira figura que chamou minha atenção foi o conflito entre Buda e seu discípulo Devadatta, que tentou não apenas matar seu mestre, mas fundar sua própria ordem monástica propondo regras mais rígidas do que as de Buda.

Enquanto Buda privilegiava o caminho da moderação, Devadatta era enfático em sua visão ascética, pregando o afastamento dos monges em florestas e bosques e incentivando práticas de jejum e mortificação extrema.

Outra figura que surge nesse sentido de oposição ao Buda é Maskarin Gosala.

Maskarin Gosala (ou Makkhali Gosala, em páli) é uma das figuras mais intrigantes e controversas da história religiosa indiana do século VI–V a.C., exatamente o período em que Buda e Mahavira (fundador do jainismo) estavam ativos. Ele foi o líder e sistematizador da escola ājīvika, um movimento ascético e determinista que, por algum tempo, rivalizou em popularidade tanto com o budismo primitivo quanto com o jainismo.

Na verdade, “Maskarin” é menos um nome e mais um apelido. Significa “aquele que carrega uma vara de bambu”, uma forma depreciativa usada por adversários (especialmente budistas e jainistas) para designar os ājīvikas, que andavam nus carregando apenas uma vara de bambu.

Os textos budistas parecem mais enfáticos contra Gosala e a escola ājīvika do que contra Devadatta porque, além do hiperascetismo, eles se escandalizavam com sua doutrina.

O que distinguia Gosala de todos os seus contemporâneos era seu rigoroso fatalismo. “O esforço humano é ineficiente”. Essa era a essência de sua mensagem. O ponto central de seu sistema estava contido em uma única palavra: niyati, a “fatalidade”, o “destino”.

Segundo um texto budista, Gosala acreditava que:

“Não há causa, não há motivo para a corrupção dos seres; os seres se corrompem sem causa nem motivo. Não há causa para a pureza dos seres; os seres se tornam puros sem causa nem motivo. Não existe ato feito por si mesmo, não existe ato feito por outrem, não existe ato humano, não existe força, energia, vigor humano, coragem humana. Todos os seres, indivíduos e criaturas são sem vontade, sem força, sem energia. Evoluem pelo esforço do destino, das contingências, do seu próprio estado.” (Samaññaphalasutta, 54)

Em outras palavras, Gosala rejeita a doutrina pan-indiana do carma. Para ele, todo ser devia percorrer seu ciclo através de oito milhões e quatrocentos mil eões (mahākalpas) e, ao final, a libertação aconteceria espontaneamente, sem esforço.

Não há livre-arbítrio nem eficácia moral do carma. Tudo está rigorosamente predeterminado por uma lei cósmica impessoal.

As práticas ascéticas extremas dos ājīvikas (jejum até a morte, ficar em pé por anos, etc.) não serviam para “queimar carma”, como no jainismo, mas eram apenas um estilo de vida correspondente ao destino que cabia ao indivíduo naquela fase da reencarnação.

Essa é uma questão curiosa: se a doutrina de Gosala é determinista, por que havia nela um apelo tão enfático às práticas ascéticas? Já que todos, invariavelmente, cedo ou tarde, atingirão a iluminação após períodos cósmicos gigantescos.

Essa pergunta também foi feita por budistas e jainistas, que concluíram que a doutrina de Gosala era absurda e contraditória.

A resposta (segundo as fontes que sobreviveram) está na relação entre destino e comportamento atual.

Para os ājīvikas, o destino determina tudo, inclusive o tipo de vida que alguém leva. Se uma pessoa nasceu destinada a ser um ājīvika asceta nesta vida, ela naturalmente sentirá atração pelo ascetismo extremo, abandonará roupas, jejuará, viverá em cavernas. Não é escolha moral nem estratégia espiritual: é apenas o roteiro escrito por niyati para aquela alma no ciclo de 8.400.000 mahākalpas.

O ascetismo é um “sintoma” do estágio evolutivo da alma, não sua causa. Quando uma alma está próxima do fim do ciclo gigantesco de renascimentos, ela espontaneamente manifesta comportamentos ascéticos extremos. É como uma lagarta que, na hora certa, “sabe” tecer o casulo. O ascetismo rigoroso é, portanto, um indicador de que a alma está nas últimas voltas antes da liberação final, mas não acelera o processo.

Viver de acordo com a própria “classe” evita sofrimento desnecessário. Para eles, tentar lutar contra o que está predestinado gera atrito e dor. Aceitar passivamente o papel que o destino atribuiu — monge, guerreiro, prostituta ou rei — é a forma mais suave de atravessar a existência.

Por isso andavam nus, jejuavam até a morte e se retiravam em cavernas: era simplesmente o que lhes cabia fazer. Não havia mérito nem demérito.

Para os budistas, esse ascetismo era inútil e sua explicação era irrefutável de modo insuportável: eles assumiam a inutilidade.

Buda considerava criminoso esse determinismo implacável, razão pela qual atacou Makkhali Gosala mais do que qualquer outro contemporâneo. Considerava a doutrina da “fatalidade” a mais perigosa de todas.

Mahavira também rejeitou com força a doutrina de Gosala, acusando os ājīvikas de copiarem o ascetismo jainista retirando apenas o carma — uma forma externa sem lógica interna.

Segundo a tradição jainista (Bhagavati Sutra), Mahavira e Gosala tiveram um último confronto público. Gosala, usando supostos poderes psíquicos (tejas), tentou atacar Mahavira com um “raio de calor”, mas o poder voltou contra ele mesmo, queimando-o por dentro. Morreu poucos dias depois, delirando e vomitando sangue. Os budistas narram versão semelhante, dizendo que Buda previu que Gosala morreria “como um cachorro” sete dias após declarar-se um jina.

Os ājīvikas foram poderosos por vários séculos. Ashoka e outros reis os patrocinaram. Existiam mosteiros, cavernas dedicadas a eles em Barabar (Bihar) e fama de previsões astrológicas precisas, graças ao determinismo rígido.

A partir dos séculos VII–VIII d.C., começaram a declinar, desaparecendo quase totalmente por volta do século XIV, provavelmente absorvidos ou perseguidos por hindus, budistas e muçulmanos.

É curioso como esse declínio não afeta a doutrina. O desaparecimento é aceito como simples fato: o destino não os preparou para mudar as coisas. Elas são como são.

A doutrina ājīvika torna-se quase impossível de refutar dentro de seu próprio sistema, justamente por isso tão irritante para seus adversários.

Se um ājīvika do século XII ou XIII visse sua tradição sendo destruída, mosteiros fechados, textos queimados e os últimos ascetas nus sendo ridicularizados, provavelmente diria, com calma: era isso que estava escrito para nós. Não há vitória nem derrota, apenas o roteiro seguindo seu curso.

É uma visão que torna qualquer crítica externa ineficaz. Você pode chamar de fracasso, extinção, irrelevância histórica. Para eles, é apenas um fragmento de 8.400.000 mahākalpas.

Se tivessem sobrevivido e dominado a Índia, isso também seria prova de que niyati assim determinou. É um sistema 100% à prova de falsificação — o que, ironicamente, era exatamente o que Buda mais odiava na doutrina de Gosala, chamando-a de akiriyavāda, “doutrina da inação”, justamente por eliminar qualquer possibilidade de crítica prática.

O desaparecimento total dos ājīvikas é, de um ponto de vista quase poético, a vitória póstuma mais perfeita que a doutrina de Makkhali Gosala poderia ter.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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