O conflito entre salvação cristã e ética filial japonesa em “Ogin” de Akutagawa Ryūnosuke.
Ogin é um dos contos kirishitanmono (narrativas sobre “coisas cristãs”) mais belos e perturbadores de Akutagawa Ryūnosuke.
O texto narra a história de Ogin, uma jovem que, ainda criança, parte de Osaka para Nagasaki com os pais. Pouco tempo após a chegada, ambos morrem e são enterrados à sombra de um pinheiro. Órfã, Ogin é acolhida por uma família cristã e rebatizada como Maria. Criada na fé cristã, assimila seus símbolos, sua promessa de redenção e, sobretudo, sua concepção absoluta da salvação da alma.
É nesse ponto que se instala a tensão silenciosa que sustenta todo o conto. Educada na nova fé, Ogin passa a acreditar que seus pais biológicos, por terem morrido fora do cristianismo, estão condenados ao Inheruno (Inferno).
A narrativa se passa durante as eras Genna ou Kan’ei, período marcado por uma perseguição implacável aos cristãos no Japão. Nagasaki, centro do cristianismo no país, é descrita por Akutagawa como uma cidade tocada pelo sagrado, “visitada por anjos e santos sob os raios do sol poente”.
Na noite de Natara (Natal), enquanto os fiéis realizam secretamente sua vigília, as autoridades invadem o local e prendem todos os cristãos. Seguem-se interrogatórios, humilhações e castigos. A alternativa é clara: renegar publicamente a fé ou enfrentar a morte.
Até o último momento, Ogin e seus pais adotivos permanecem firmes e são condenados ao martírio. Durante a espera, entre o sono e a vigília, o sobrenatural se manifesta sem ambiguidades. Anjos e santos descem para confortar os condenados. Ogin vê São João Batista oferecendo-lhe gafanhotos nas grandes palmas das mãos, enquanto o Arcanjo Gabriel lhe estende água em uma bela taça dourada.
Nesse instante, a fé cristã se revela em toda a sua força sensível e em sua promessa de consolo.
Na manhã seguinte, os três caminham para o local da execução. Seriam crucificados. Akutagawa descreve que permanecem serenos, certos de que ingressarão no Haraiso (Paraíso). Presos às cruzes, fixam o olhar no céu, como se contemplassem a face de Deusu Nyorai. Mesmo em meio à dor física, seus rostos expressam uma calma quase triunfante, a convicção de que a morte é apenas passagem.
É então que o drama interior de Ogin atinge seu ponto máximo. Seu olhar se desprende do céu e desce lentamente para as montanhas, para a floresta, até repousar nos pinheiros sob os quais seus pais biológicos estão enterrados. A promessa do Paraíso, até então absoluta, entra em conflito com uma memória igualmente absoluta: a dos pais que lhe deram a vida.
Nesse instante, a lógica cristã da salvação individual colide com o oyakōkō. Ogin compreende que o Paraíso que a aguarda é um Paraíso sem seus pais. A ideia lhe é insuportável.
Ela não rejeita Deus, nem nega o Paraíso por incredulidade, mas porque não consegue aceitá-los ao custo da separação eterna. A fé cristã exige uma escolha interior total, solitária e intransferível. A sensibilidade japonesa, por sua vez, recusa uma felicidade que não inclua os laços fundamentais com os antepassados.
Desesperada, Ogin se contorce na cruz e declara que não quer ir para o Haraiso. Afirma desejar seguir seus pais no Inheruno. Não lhe parece justo contemplar a face maravilhosa de Deusu Nyorai sabendo que aqueles a quem deve a vida estão condenados.
Diante disso, ela renega publicamente a fé cristã. Seus pais adotivos, confrontados pelo mesmo impasse, também apostatam. Não suportam a ideia de uma salvação que exclua a filha. Os três são libertados.
Em Ogin, Akutagawa realiza uma mediação imagética poderosa entre a promessa de redenção do cristianismo e a seriedade de sua exigência moral. Ao mesmo tempo, reconhece na ética relacional japonesa um obstáculo quase absoluto, no qual a lealdade filial e a continuidade dos vínculos se impõem sobre qualquer promessa de felicidade individual.
A tragédia do conto não nasce da perseguição externa, já que a morte dolorosa não é apresentada como verdadeiro terror, mas da incompatibilidade sensível entre a fé cristã e a sensibilidade japonesa.
O cristianismo surge como uma fé bela e admirável, de apelo absoluto, capaz de consolar até o martírio, mas cuja lógica exige uma solidão espiritual que Ogin não consegue aceitar.
Entre o Paraíso e os pais, ela escolhe os pais.
