Mahavira, Devadatta e o Buda: contrastes espirituais no cenário religioso da Índia antiga

Como jainismo, budismo e tradições paralelas revelam tensões entre ascetismo radical, moderação e visões divergentes sobre alma, mundo e libertação

Semanas atrás, lendo o magnífico A História das Crenças e Ideias Religiosas (volume dois), acabei ficando curioso e escrevi um pequeno artigo sobre Devadatta, monge budista, primo e cunhado de Sidarta Gautama. Ele ficou conhecido como rival de Buda e teria tentado matá-lo diversas vezes. Eu nunca tinha ouvido falar dele, mas chamou minha atenção o fato de defender um ascetismo radical, algo que Buda rejeitava em favor do caminho da moderação.

Pouco depois descobri outra figura igualmente interessante, também contrária ao ensinamento de Buda e com uma visão de espiritualidade muito próxima à de Devadatta. A diferença é que sua doutrina frutificou e originou uma comunidade religiosa que existe até hoje. Trata-se de Mahavira, também conhecido como Vardhamana, reformador espiritual e vigésimo quarto e último Tirthankara do jainismo. Ele é tradicionalmente visto como o fundador da religião em sua forma atual, surgida no subcontinente indiano em torno do século VI a.C.

Os ensinamentos de Mahavira enfatizavam a libertação do ciclo de renascimentos por meio do esforço pessoal e da disciplina. Sua doutrina é estruturada nas chamadas três joias do jainismo: crença correta, conhecimento correto e conduta correta. Entre os princípios centrais estão ahimsa (não violência), satya (veracidade), asteya (não roubar), brahmacharya (celibato) e aparigraha (desapego).

Assim como Buda, Mahavira rejeitava o sacrifício de animais, as divisões rígidas de castas e os rituais védicos. Promovia um caminho de compaixão e autocontrole que continua a orientar milhões de jainistas.

Alguns aspectos de sua visão merecem destaque. Mahavira negava a existência de um deus supremo, mas aceitava a existência de deuses que, embora bem-aventurados, não são imortais. Para ele, o cosmo não tem início e nem terá fim. Os ciclos cósmicos se repetem indefinidamente e o número de almas é infinito. Tudo está sujeito ao karma, exceto a alma já liberta.

Um traço característico do jainismo é o pampsiquismo, a ideia de que algo semelhante à mente ou à consciência está presente em tudo o que existe, em diferentes graus. Segundo Mahavira, tudo possui alma, desde animais até plantas, pedras e gotas d’água.

É interessante observar como esse tipo de ideia reaparece hoje em debates sobre inteligência artificial. Obras visionárias como Ghost in the Shell, de Mamoru Oshii, já antecipavam essa discussão ao imaginar um ser artificial que alcança autoconsciência e reivindica um lugar no campo da mente e da subjetividade.

Fora do terreno das ficções, existem entre 4 e 5 milhões de jainistas no mundo, a maior parte na Índia. Embora muitos vivam em regiões pobres e não acompanhem debates tecnológicos contemporâneos, imagino que não estranhariam um tema como a inteligência artificial, justamente por causa dessa concepção ampliada de alma e consciência.

Mircea Eliade observa um fato curioso a respeito de Mahavira e Buda. Apesar de terem vivido na mesma época, percorrido as mesmas regiões e frequentado ambientes semelhantes, nunca se encontraram. Isso é surpreendente porque Eliade também identifica paralelos fortes entre as carreiras espirituais de ambos. Os dois pertenciam à casta xátria, tinham origem principesca, renunciaram ao mundo e fundaram comunidades religiosas. Ambos rejeitavam a existência de um deus supremo, embora não possam ser rotulados simplesmente como ateus, e ambos questionavam a autoridade dos Vedas e criticavam os sacrifícios.

Qualquer pessoa poderia imaginar que eram quase a mesma figura, mas ao examinar suas doutrinas percebemos divergências profundas, e Mahavira chega a se aproximar mais das posições extremas de Devadatta do que da moderação de Buda. Jainismo e budismo surgiram na mesma época e compartilham temas como karma, renascimento e libertação, mas diferem muito em filosofia e prática.

O jainismo defende um ascetismo rigoroso. Monges e monjas se submetem a jejuns intensos e forte autodisciplina. Na seita Digambara, os monges abandonam completamente as roupas como símbolo de desapego radical. O budismo, ao contrário, enfatiza o Caminho do Meio, evitando tanto a autossatisfação quanto a automortificação.

A prática da ahimsa também é muito diferente. Para os jainistas, a não violência inclui insetos, plantas e até microrganismos. Isso leva ao vegetarianismo estrito, ao uso de máscaras para evitar inalar seres vivos e ao hábito de varrer o chão antes de caminhar. No budismo, embora a não violência seja importante, ela se expressa de forma menos extrema e com regras mais flexíveis no cotidiano.

Há ainda divergências sobre o eu e a realidade. O jainismo afirma a existência de uma alma individual eterna em cada ser. A libertação é a purificação completa dessa alma. O budismo nega a existência de uma alma permanente e concentra-se na impermanência e no desapego, entendendo a libertação como a cessação do sofrimento, e não como o retorno de uma alma pura a um estado original.

Há elementos do jainismo que, do ponto de vista cristão, considero problemáticos. Apesar do profundo respeito à vida, existe uma concepção radicalmente negativa da existência corporal e do mundo material. O suicídio ritual por jejum é visto como exemplo sublime de desapego total. Há um claro espiritualismo acósmico, próximo de certas escolas gnósticas. No jainismo, a alma é intrinsecamente pura, mas está aprisionada pela matéria. O karma funciona quase como o demiurgo dos gnósticos, pois cria uma espécie de matéria sutil que aprisiona a alma e a força a transmigrar.

A libertação ocorre quando a alma rompe completamente o contato com a matéria, elimina o karma acumulado e impede a entrada de novos influxos. Isso exige meditações específicas e uma vida de ascese rigorosa.

Em síntese, sempre acho fascinantes as semelhanças e diferenças entre as tradições religiosas indianas. Muitas doutrinas desapareceram ou permaneceram isoladas, mas influenciaram outras. Muitas comunidades irmãs compartilham conceitos centrais, mas divergem radicalmente na intensidade com que os vivem, a ponto de se tornarem rivais. Também me interessa a forma como tradições proto ou filognósticas surgem em várias culturas diferentes, como se falassem uma mesma linguagem espiritual, quase sempre vista como problemática pelas religiões majoritárias.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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