Bestialidade e Soberania na Irlanda

Da união com a deusa à fusão com o animal, os rituais de entronização revelam uma concepção arcaica de poder fundada na incorporação do sagrado e na identificação radical com a terra

O nome moderno da Irlanda deriva de Éire, termo diretamente associado à deusa Ériu.

Ériu ocupa um lugar central no panteão celta. Trata-se de uma divindade ligada à abundância, à fertilidade e, sobretudo, à soberania, atributo que compartilha com suas irmãs Banba e Fódla. Não se trata apenas de uma deusa da terra, mas de uma entidade que legitima, em termos simbólicos e sagrados, o próprio exercício do poder.

É dela que emana o direito divino do rei mortal de governar a ilha.

Segundo a tradição mítica céltica, o soberano só se tornava plenamente legítimo ao estabelecer com a deusa uma união simbólica, frequentemente descrita como casamento ritual ou relação sexual propriamente dito. Sem essa consagração, sua autoridade permanecia incompleta, reduzida à condição de usurpação ou de liderança desprovida do favor da terra.

Esse motivo, embora dotado de especificidades locais, não é isolado. Mircea Eliade observa que ele ressoa como uma variante de um padrão mítico-ritual mais amplo, difundido no Oriente Próximo antigo: o hieros gamos, ou casamento sagrado. Nesse esquema, a união entre o deus celeste (frequentemente associado ao céu, à tempestade ou ao sol, e representado pela figura do rei) e a deusa telúrica, a Terra-Mãe, constitui o fundamento simbólico da ordem cósmica e social.

Em muitos contextos, essa união ocorre diretamente entre divindades, encenando o encontro entre a potência masculina celeste e a potência feminina terrestre.

Na mitologia celta, contudo, esse padrão é deslocado para o plano humano. O rei assume a posição do princípio masculino e, ao mesmo tempo, atua como mediador (ou pontífice) entre o mundo dos homens e o domínio divino. Sua união com Ériu é um rito de legitimação política e também a própria condição de possibilidade da soberania como expressão da ordem sagrada.

O rei, por ser mortal e não partilhar da mesma estatura ontológica da deusa, não pode simplesmente reivindicar o poder. Sua soberania não é um dado. Ele precisa demonstrar que é digno. Para isso, é submetido a provas que testam, especificamente, sua capacidade de reconhecer o sagrado sob formas degradadas.

Em diversos mitos, a deusa não se apresenta de imediato em sua forma gloriosa. Ao contrário, surge diante do pretendente ao trono como uma figura repulsiva: uma velha disforme, por vezes louca, fétida, marcada pela decadência do corpo.

A prova do rei é ver o divino que se oculta sob os sinais de abjeção.

A prova é simples e radical. Se o homem for capaz de aceitá-la, beijando-a ou deitando-se com ela apesar de sua aparência vil, ele é digno de ser chamado de rei.

No momento em que ele consegue superar essa prova a velha revela-se como uma jovem de beleza extraordinária: é a própria Ériu, que, reconhecendo nele a disposição adequada, concede-lhe o direito de governar.

O episódio mais célebre dessa prova é a história de Niall Noígíallach, conhecido como Niall dos Nove Reféns, fundador da dinastia Uí Néill, que viria a dominar grande parte da Irlanda por séculos.

No relato Echtra mac nEchach Mugmedóin (ou “As aventuras dos filhos de Eochaid Mugmedón”), Niall e seus irmãos partem para uma caçada e, tomados pela sede, chegam a um poço guardado por uma figura monstruosa. A descrição é deliberadamente excessiva: uma velha leprosa, de cabelos desgrenhados, dentes apodrecidos e corpo deformado. Em troca de água, ela exige um beijo.

Os irmãos mais velhos recuam, tomados pelo nojo. Niall, porém, aceita a exigência sem hesitação. No instante em que cumpre o gesto, a velha se transfigura em uma jovem radiante, de beleza solar, vestida com trajes de realeza. Ela se revela como Flaith Érenn — a “Soberania da Irlanda”, frequentemente identificada com Ériu ou compreendida como uma de suas manifestações.

É então que a dimensão sacro-política do mito se explicita: a deusa profetiza que Niall e sua descendência reinarão sobre Tara, centro simbólico do poder irlandês, por muitas gerações. O gesto de aceitação, que à primeira vista parecia degradante, revela-se como o ato fundador da legitimidade régia, pelo qual o rei se torna, enfim, portador do direito divino de governar.

Há, contudo, uma variante desse motivo que desloca ainda mais radicalmente a lógica da união soberana. Nela, a relação não se dá com a deusa sob forma humana, mas com um animal.

No centro de uma assembleia ritual, uma égua branca é conduzida ao espaço sagrado. A cor não é incidental: o branco, nesse contexto, associa-se à pureza, à luminosidade solar, à fertilidade e, sobretudo, à dimensão sacral da soberania. Em certas leituras, a égua encarna um aspecto zoomórfico da deusa-terra, uma manifestação telúrica de figuras como Ériu ou Macha.

O futuro rei aproxima-se do animal e realiza com ele uma união sexual diante da comunidade reunida. Trata-se de um gesto extremo, onde o homem abdica de sua separação em relação à natureza e se coloca no mesmo plano da terra que pretende governar.

O rito, porém, não se encerra nesse ato. Imediatamente após a união, a égua é sacrificada, esquartejada e cozida em um grande caldeirão com água. O caldo resultante torna-se o elemento central de uma segunda etapa ritual.

Prepara-se então um banho. O rei entra no caldeirão e imerge no líquido ainda quente, enquanto a comunidade se reúne ao redor, participando da cena. Em seguida, estabelece-se um banquete coletivo: a carne do animal é consumida, e o caldo é bebido diretamente, sem o uso de utensílios. O próprio rei, ainda imerso, participa dessa ingestão, dissolvendo qualquer distinção entre corpo, alimento e substância sagrada.

Ao final desse complexo ritual (que articula união, sacrifício, imersão e ingestão) a soberania é considerada ratificada. O homem não apenas recebe o poder: ele se torna, em sentido pleno, rei.

Sob o ponto de vista simbólico, trata-se de uma forma extrema do hieros gamos. A união não ocorre aqui com a deusa antropomorfizada, mas com a Terra-Mãe em sua dimensão mais primordial, encarnada na égua branca como força vital, fertilidade selvagem e potência telúrica.

O gesto de bestialidade expressa a identificação extrema do rei com a terra. Ele não a domina à distância, como um soberano exterior, mas se funde com ela, reconhecendo e assumindo sua dimensão animal e instintiva.

O sacrifício subsequente libera essa força vital, enquanto o banho e o banquete instauram uma forma de comunhão integral: o rei internaliza a essência da terra, e o povo, ao partilhar da carne e do caldo, participa dessa mesma potência. Trata-se, em termos estruturais, de uma forma de “ingerir o divino”, de assimilar a soberania como substância.

Ao término do rito, o rei emerge transformado. Ele não é mais apenas um homem investido de poder, mas o consorte da terra, aquele cuja autoridade se enraíza na própria ordem vital que garante fertilidade, prosperidade e continuidade.

A descrição desse ritual remonta ao testemunho do historiador galês Geraldo de Gales (Giraldus Cambrensis), em sua Topographia Hibernica, escrita por volta de 1185. Ainda que o relato deva ser lido com cautela, ele apresenta notáveis paralelos com o Ashvamedha da Índia védica, o sacrifício régio do cavalo.

Essa convergência sugere a persistência de um fundo ritual indo-europeu comum, no qual o cavalo, longe de ser um simples animal, figura como mediador entre soberania, fertilidade e a própria substância da terra.

O que esses mitos e rituais tornam visível é uma concepção de soberania profundamente distinta da noção moderna de poder. Não se trata de domínio administrativo, nem de autoridade jurídica abstrata, mas de uma relação ontológica entre o rei e a terra. Governar, nesse contexto, não é exercer controle, mas participar de uma ordem viva que precede e excede o humano.

A figura do soberano emerge, assim, como um mediador ambíguo: ao mesmo tempo elevado e rebaixado, ele precisa atravessar a degradação, o contato com o informe, o reconhecimento do sagrado sob o signo da repulsa ou da animalidade. Seja ao beijar a velha abjeta, seja ao unir-se à égua sacrificial, o rei demonstra sua capacidade de ir além das aparências e de aceitar a terra em todas as suas dimensões — fértil e terrível, bela e monstruosa.

Esses rituais não celebram apenas a ascensão de um indivíduo ao poder, mas encenam uma verdade mais profunda: a de que toda soberania legítima exige transformação. O rei não recebe o poder como algo externo; ele é reconfigurado por ele. Torna-se, ao fim do processo, menos um governante no sentido moderno e mais uma função viva da própria terra.

Nesse sentido, a soberania arcaica não separa política, religião e corpo. Ao contrário, ela os funde em um único gesto: o de incorporar o mundo, com toda a sua ambivalência, e sustentar, a partir daí, a continuidade da vida coletiva.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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