Em defesa da Mestiçagem Brasileira, por Antônio Risério

Hoje, para negar o Brasil, o multicultural-identitarismo submete a mestiçagem a uma dupla falsificação. De uma parte, falsificação da mestiçagem no passado histórico nacional. De outra, falsificação da mestiçagem na sociedade presente.

Com relação ao passado, tenta-se reduzir a mestiçagem a um tão colossal quanto irrealizável estupro em massa. Com relação ao presente, promove-se sistematicamente, com o apoio de uma legislação racista, o sumiço do mestiço.

A fantasia mórbida da mestiçagem como estupro pode ser desmentida desde logo. Nossa primeira onda miscigenadora não contou com negros. Foi exclusivamente euro-ameríndia.

É o “período caramuru” da vida brasileira, quando os brancos eram muito poucos, sem condição de impor qualquer coisa aos índios. Não seriam loucos de violar códigos indígenas de conduta ou de violar uma índia. As coisas só mudam quando a economia do escambo é substituída pela cultura dos canaviais.

As realidades da guerra e da escravização se impuseram. Mas toda vez que algum fanático pretende absolutizar o estupro, é obrigado a fechar os olhos para três realidades que desmantelam a tese: o lugar da mulher na sociedade indígena, o caminho cultural do concubinato interétnico e, principalmente, a prática da mestiçagem entre iguais.

Duas coisas parecem impedir as pessoas de assimilarem de imediato a informação de que a mestiçagem brasileira foi processo popular: a desconfiança de que tenham existido por aqui brancos pobres e a crença de que o que tivemos foi uma sociedade drasticamente dicotômica, dividida entre senhores brancos e escravaria negra.

Primeiro, brancos pobres existiram e existiram aos montes. Como hoje. Aliás, o IBGE informa que há mais brancos do que pretos na população favelada do país. Eis os dados: pardos – 56,8%; brancos – 26,6%; pretos – 16,1%. Essa é uma realidade que vocês não vão conseguir contornar.

Segundo, nossa sociedade nunca foi drasticamente dicotômica.

A estrutura social que aqui principiou a se configurar, já ao longo do século XVI, não se caracterizava pela divisão drástica entre os polos do senhor e do escravo, nem por uma rigidez extrema.

O grosso do Brasil Colônia era formado por lavradores, criadores de gado, rendeiros, mercadores, artesãos livres, fundidores, alfaiates, mestres do açúcar e oleiros que desempenharam um papel intermediário predominante em nossa sociedade.

A fantasia de que todo branco fosse senhor e todo escravo fosse negro não tem correspondência factual.

Existem inúmeros fatos que provam que a miscigenação no Brasil foi, em grande parte, espontânea.

Fora da bolha do identitarismo, não existem obras relevantes que falem o contrário disso; vemos isso em Novo Mundo nos Trópicos e Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre, Escravismo Colonial de Jacob Gorender (que era marxista), O Arcaísmo como Projeto de João Fragoso e Manolo Florentino, A Construção do Brasil de João Couto.

Para o identitarismo sobreviver, é necessário que ele falsifique a história a seu favor.

Primeiro, temos a fusão forçada de pardos e pretos num amplo segmento “negro” da população brasileira.

Justificada e merecidamente, costumamos atribuir o embuste ao IBGE. Claro. Embora mantenha a categoria “pardo” em seus mapeamentos censitários, o IBGE não se manifesta sobre a fraude estatística feita em seu nome. Logo, comete, no mínimo, crime de omissão. E no máximo, o que é mais provável, pactua com a violação da verdade demográfica brasileira.

A ofensiva fraudulenta se configura entre o final da década de 1970 e a entrada do decênio seguinte, com a já famigerada importação do binarismo racista norte-americano, sob pressão da esquerda racialista, do identitarismo local.

A socióloga Veronica Toste Daflon, em sua tese Pretos e Pardos e o Enigma Racial Brasileiro, disse que nos anos 1980 organizações do Movimento Negro esforçaram-se por influenciar o desenho do censo nacional. Além de demandar a reintrodução da questão da cor, que havia sido excluída do censo de 1970, elas também propuseram a substituição das categorias preto e pardo por negro, a fim de reorganizar as identidades raciais em torno do seu novo projeto político.

Tratava-se de uma jogada: instrumentalizar a massa mestiça demograficamente majoritária em função dos interesses de grupos da minoria preta. Mas logo eles viram que a substituição de preto e pardo por “negro”, no questionário do censo, reduziria espetacularmente o tamanho da população negra. E mudaram de tática.

O tópico da cor foi reinserido no censo, sob pressão acadêmico-militante. E, a partir daí, dados quantitativos sobre pretos e pardos, embora coligidos separadamente, são depois fundidos nas análises e tabulações dos interessados. O próprio governo federal passou a solicitar isso. E assim teve início o processo de promoção de um enegrecimento artificial do povo brasileiro.

Há inúmeras outras fraudes praticadas que são destinadas a aumentar artificialmente a configuração racial do povo brasileiro. Índios e caboclos sendo compulsoriamente enquadrados como pardos para que, no passo seguinte, sejam reclassificados como negros.

O quadro é este: ao genocídio estatístico, soma-se o apagamento do mestiço caboclo, seja ele caboclo sertanejo ou caboclo amazônida, da esfera das políticas públicas nacionais. Entramos, enfim, na esfera do pardocídio tristetropical brasileiro.

E não são só os descendentes de índios: sararás, mulatos claros, morenos etc., que se recusam a ser “negros”, passam a párias ou miragens. Vale dizer, além do genocídio estatístico do caboclo, temos o genocídio estatístico de morenos e mulatos – o que também implica, obviamente, o seu eclipsamento no terreno das políticas públicas.

Enfim, ser mestiço, hoje, é coisa que não dá camisa a ninguém. E muito mais: ser mestiço, nesse meio governamental-acadêmico-militante-midiático, virou uma espécie de ficção incômoda, sinônimo de invisibilidade e de inexistência, pedreira a ser removida do caminho hostil e desastroso das movimentações racistas.

Tudo convergiu para promover o sumiço do mestiço, como persona non grata na paisagem nacional brasileira.

A mestiçagem no Brasil foi o que permitiu que atravessássemos dois dilúvios etnoculturais, entre o início do século XVIII e o início do XIX – ou entre o avanço do mundo aurífero nas Minas Gerais e o desembarque da corte portuguesa no Rio de Janeiro. Foi este o período fundamental que estruturou e garantiu a nossa futura projeção diferenciada como povo no horizonte mundial. Aí se deu a consolidação do Brasil mestiço. Uma realidade que o multicultural-identitarismo pretende atirar na lata de lixo.

Leia a série A Mestiçagem Brasileira de Antônio Risério

https://antonioriserio.substack.com/p/a-mesticagem-brasileira-1
https://antonioriserio.substack.com/p/a-mesticagem-brasileira-2
https://antonioriserio.substack.com/p/a-mesticagem-brasileira-3

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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