A fascinante teogonia hurrito-hitita

A teogonia hurrito-hitita é complexa de compreender e fascinante. No princípio, temos dois personagens: Alalu, um rei, e Anu, o mais importante dos deuses que, apesar de ser mais poderoso, se prostrava diante dele e o servia. A primeira coisa que podemos notar é a descrição de um clima de tensão e instabilidade. Um ser inferior sujeitar um ser superior é uma representação mito-poética do caos, que é basicamente a disposição das coisas que não estão no lugar que deveriam estar.

Anu, depois de nove anos, ataca Alalu e o vence, estabelecendo a ordem. Alalu então refugia-se no mundo subterrâneo, enquanto Kumarbi, outra entidade divina, se torna servo do novo soberano, o deus-rei Anu. Aqui temos a noção das tensões dos espaços que não suportam o vazio. Se havia dois soberanos antes, teria que ter dois soberanos agora.

Na terceira parte, temos a representação de um ciclo “cármico”. Se o universo tende à ordem, ele tende à justiça. Depois de 9 anos, é a vez de Anu ser destronado por Kumarbi. A coisa fica mais interessante na quarta parte do mito, na fuga de Anu, que tentava voar em direção ao céu. Kumarbi agarra-o pelo tornozelo, puxa-o para perto de si e abocanha seu órgão genital.

Assim como no mito de Osíris, o órgão genital masculino é símbolo de força e fecundidade. Destruí-lo, inutilizá-lo ou escondê-lo é uma parte importante da aniquilação do outro. Se Isis não tivesse encontrado o pênis de Osíris (ou seja, a masculinidade) e fecundado com ele, Horus não teria nascido e Seth não seria derrotado. Isso é uma verdade tanto cósmica quanto histórica. Uma nação sempre subjugou a outra enfraquecendo a potência masculina rival, matando ou castrando seus homens mais fortes (até hoje a tática não mudou).

Kumarbi, depois de abocanhar o órgão genital de Anu, fica grávido. Sim, um deus masculino engravida. Kumarbi gera três deuses, sendo um deles Teshub, o deus do clima e futuro soberano do panteão sagrado. Os acontecimentos não param e vou passar rapidamente por eles.

Em certa parte da canção (sim, os livros sagrados eram músicas), Teshub destrona Kumarbi e este vive tentando retomar seu trono. Kumarbi, que se torna uma aberração, fecunda uma rocha e cria Ulikummi, um antropomorfo de pedra. Ulikummi sobe nas costas do gigante Upelluri, responsável por sustentar o Céu (ele seria análogo a Atlas da mitologia grega). Ulikummi tenta chegar aos céus para destronar Teshub e restabelecer o reino do seu pai, Kumarbi, mas é derrotado e tem seus pés serrados.

Boa parte da história infelizmente se perdeu, mas o pouco que deu para entender é de uma riqueza gigantesca. E sim, Ulikummi tem muitas similaridades com o Golem judaico.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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