Em Quincas Borba, há uma configuração peculiar: dois triângulos amorosos que giram em torno da personagem Sofia.
Rubião, o protagonista, apaixona-se por ela, que é casada com Cristiano Palha.
Entre Rubião e Sofia não há consumação de nenhum adultério, embora o espectro do adultério — talvez justamente por não se consumar — passe a ser o definidor da relação entre os três.
Surge então um novo personagem: Carlos Maria, um típico galanteador. Sofia passa a ser vista em conversas reservadas com ele, em discretos cantos dos bailes. A partir daí, multiplica-se a triangulação machadiana: temos Sofia–Rubião–Palha, Sofia–Palha–Carlos e Sofia–Rubião–Carlos.
Curiosamente, Rubião não se atormenta com o fato de Sofia ser casada. Ao contrário, o casamento de Sofia confere-lhe uma aura de pureza e inacessibilidade que o encanta ainda mais.
Ele se condena por amá-la e, em certos momentos, parece até desejar a rejeição de Sofia — como se precisasse desse sofrimento para reafirmar a própria dignidade.
Entretanto, quando Carlos Maria entra em cena, a situação muda completamente. É ele o verdadeiro rival de Rubião.
A suspeita de um caso entre Carlos e Sofia o consome; o ciúme o corrói a ponto de enlouquecê-lo. Rubião passa a persegui-los de modo obsessivo.
No fundo, pensa: se Sofia deve trair, que seja comigo, não com outro.
Esse ciúme revela a contradição essencial de Rubião — e talvez do “caráter ibérico” de que fala Sérgio Buarque de Holanda.
O português, diz-se, é simultaneamente amante da ordem e da aventura; nesse caso, deseja a estabilidade do casamento, mas também a vertigem da transgressão.
Rubião venera o matrimônio como uma instituição sagrada, mas deseja ser o amante.
Ele seria capaz de se mortificar, entrar na primeira igreja e confessar-se com o primeiro padre — e, ainda assim, continuar desejando Sofia.
Quando percebe que outro homem ocupa o lugar que ele não ousou tomar, Rubião sofre. Seu ciúme, que não tem direito de existir, torna-se o catalisador de sua loucura. Se o laço sagrado do casamento devia ser rompido, pensava ele, que fosse por sua causa — se vai pecar, que peque comigo.
Essa situação lembra o célebre episódio das Confissões de Santo Agostinho, quando o santo relata o roubo das peras. Ele não as roubou por fome, nem por desejo da fruta, mas pelo prazer do pecado em si.
Acho que a situação seria a mesma se Rubião, por escrúpulos, não tentasse violar o casamento de Sofia, mas se torturasse ao ver que outro poderia conseguir. No fim, seu escrúpulo poderia ser um disfarce para a inveja. Normalmente, os vícios se fantasiam de virtudes.
Em suma, Machado de Assis revela-se mais agostiniano do que eu havia percebido num primeiro momento.