Yomi-no-Kuni: A Jornada da Alma Após a Morte

Yomi-no-Kuni, também chamado simplesmente de Yomi (黄泉・黄泉の国), é o termo japonês que designa a terra dos mortos. Outro nome relacionado é Meido (冥途, めいど), cuja tradução é “caminho sombrio” ou submundo.

A palavra “Yomi” é grafada com os mesmos caracteres do nome do mundo inferior da mitologia chinesa, Huángquán (黄泉, “Fontes Amarelas”), mencionado em textos antigos desde o século VIII a.C., mas a sua concepção foi moldada pelas tradições religiosas e filosóficas do Japão. De acordo com a mitologia registrada no Kojiki, a mais antiga crônica japonesa, Yomi é o lugar para onde as almas se dirigem após a morte. Trata-se de um mundo sombrio e intermediário, distinto do Tengoku, o “céu”, e do Jigoku, o “inferno”. O Meido é o espaço onde as almas que não foram inteiramente virtuosas nem completamente perversas passam por um processo de purificação e julgamento, antes de seguirem para o renascimento. A ideia de Meido se desenvolveu a partir de elementos do budismo indiano, que ao chegar à China se fundiu ao taoismo e, posteriormente, foi transmitido ao Japão, onde passou a integrar aspectos locais.

A entrada no submundo se dá pela travessia do Rio Sanzu (三途の川), o Rio das Três Travessias, que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Acredita-se que ele esteja fisicamente localizado em algum lugar do Monte Osore, um vulcão desolado no norte do arquipélago.

O modo como a alma cruza o rio depende do peso de seus atos em vida: os mais virtuosos atravessam por uma ponte, outros pela parte rasa do rio, e os mais impuros nadam por um trecho profundo, cheio de serpentes venenosas e correntezas traiçoeiras.

Para essa travessia, é necessário um pedágio de seis moedas, tradicionalmente deixadas no enterro pelos familiares. Se o funeral não for corretamente realizado, a alma não poderá seguir viagem.

Ao chegar ao outro lado, a alma é recebida por três oni que a acompanham em uma jornada de sete dias até o coração do Meido. O caminho é marcado por ventos uivantes e espadas que brotam do solo, perfurando os corpos e tingindo o chão de sangue. A alma também é atacada por aves demoníacas que dilaceram sua pele e olhos, exigindo pressa e lançando injúrias.

Por isso, o sétimo dia após a morte é marcado por uma cerimônia essencial no ritual funerário japonês.

Em seguida, ela precisa escalar uma montanha íngreme, coberta de espinhos, conhecida como a montanha da ganância, cuja altura é proporcional ao egoísmo acumulado em vida.

Após essa etapa inicial, começa a sequência dos sete julgamentos, realizados ao longo de 49 dias (sete vezes sete), nos quais cada alma será avaliada por diferentes aspectos de sua conduta.

No sétimo dia, ocorre o primeiro julgamento, conduzido pelo Rei Shinkō, cuja verdadeira forma é Fudō Myōō. Ele examina quantas vidas a alma tirou, inclusive de animais, insetos ou peixes.

Os considerados cruéis são enviados diretamente ao Jigoku. Os que permanecem continuam sua jornada.

A travessia do Rio Sanzu se repete em um leito diferente, agora sob o olhar mais atento dos julgadores. As roupas molhadas da alma são recolhidas pelos onis Datsueba e Keneō, que as penduram em uma árvore. O peso dos pecados é medido pela curvatura dos galhos. Almas que perderam suas roupas durante a travessia são esfoladas vivas por Datsueba, e suas peles também são penduradas na árvore, como prova de sua impureza.

No décimo quarto dia, o segundo julgamento é supervisionado pelo Rei Shokō, manifestação de Shaka Nyōrai. Ele julga os crimes de roubo, punindo os mais graves com a condenação direta ao inferno. Os demais prosseguem, amparados pelas orações de seus familiares, que realizam mais um serviço memorial.

No vigésimo primeiro dia, o Rei Sōtei, forma de Manji Bosatsu (Manjusri), julga os pecados de luxúria. O método é simbólico e brutal: um gato julga os homens mordendo seus genitais, e a gravidade do ferimento revela o grau do pecado; uma cobra julga as mulheres, penetrando seus corpos, e a profundidade alcançada mede sua culpa. As almas que superam esse julgamento seguem adiante com a ajuda das preces dos vivos.

O quarto julgamento ocorre no vigésimo oitavo dia e é conduzido pelo Rei Gokan, a forma de Fugen Bosatsu (Samantabhadra). Ele pesa a alma contra pedras, cada qual representando uma mentira contada em vida. A quantidade necessária para equilibrar a balança determina a culpa da alma. Os serviços fúnebres continuam a interceder em favor do falecido.

A alma então caminha por uma terra desolada, onde bolas de ferro em brasa chovem do céu, queimando sua pele. No trigésimo quinto dia, ela enfrenta o julgamento mais temido, o do Grande Rei Enma, forma de Jizō Bosatsu (Ksitigarbha). Enma mostra à alma um espelho onde sua vida inteira é refletida com total nitidez. Todos os pecados, grandes ou pequenos, se revelam. Com base nesses registros, ele decide em qual dos seis reinos a alma deverá renascer: o reino celestial, o humano, o dos ashura (seres guerreiros), o animal, o dos gaki (fantasmas famintos) ou o inferno.

No quadragésimo segundo dia, a alma comparece diante do Rei Henjō, cuja verdadeira forma é Miroku Bosatsu (Maitreya). Ele confirma a destinação da alma a partir das avaliações anteriores e decide o local de seu renascimento. Após isso, a alma percorre uma região escura, povoada por animais que gritam de forma terrível. Aves monstruosas disparam chamas contra as almas e as ferem com seus bicos.

Finalmente, no quadragésimo nono dia, ocorre o último julgamento, presidido pelo Rei Taizan, encarnação de Yakushi Nyōrai (Bhaisajyaguru). Ele reúne os dados dos julgamentos anteriores e oferece a última chance de redenção, dependendo da força das orações feitas por familiares no importante ritual memorial desse dia.

Encerrada a jornada, a alma se depara com uma estrada onde há seis portões torii, sem nenhuma identificação. Cada portão leva a um dos seis reinos do renascimento. A alma deve escolher sozinha por qual passar. A travessia final se dá por um rio congelado que a conduz para fora de Meido, rumo ao próximo ciclo de existência. Algumas almas renascem em condições melhores. Outras, em formas inferiores. As mais impuras, que fracassaram em todos os julgamentos, ainda têm o Jigoku pela frente — um novo estágio de sofrimento que aguarda os que não alcançaram a purificação necessária.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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