Shōgun (2024),o problema do historicismo e os produtos culturais modernos

Recentemente assisti à série ‘Xogun: A Gloriosa Saga do Japão’, disponível na Star e na Disney Plus.

A série é uma adaptação do romance best-seller de James Clavell que narra a história do marinheiro britânico Jack Blackthrone. Após naufragar no litoral japonês, ele se vê envolvido em uma série de conflitos políticos e armamentistas ao chegar ao Japão no início de uma guerra civil.

É uma série muito bem feita, com direção excelente e uma história fascinante. Uma das melhores que assisti recentemente. No entanto, algo que me incomoda na série é o seu historicismo.

Não é culpa da série. Considero que todo produto cultural contemporâneo que aborda eventos históricos reflete as tendências acadêmicas da época. No campo da história, parece haver uma inclinação para o viés materialista.

Reduzir a história a um viés materialista é uma tendência não apenas na academia atual, mas também tipicamente moderna. Parece quase obrigatório adotar uma visão materialista da história, pois aparentemente confere cientificidade e seriedade a qualquer assunto, seja história, antropologia ou psicologia. Na busca pela universalidade, o mundo moderno tende a homogeneizar o espírito humano em torno do que parece ser seu denominador comum: ‘interesses’.

Afirmar que os xogunatos no Japão guerreavam apenas por interesses territoriais é, na minha opinião, um erro. Talvez minha perspectiva seja influenciada por autores como Eliade, Yakumo Koizumi, minha fé católica e a literatura religiosa japonesa, da qual tenho tido contato nos últimos anos. Estou convencido de que as guerras civis no Japão possuem uma dimensão mística, na qual cada daimô (líder militar) se sentia verdadeiramente influenciado pelos fantasmas de seus antepassados e motivado a buscar o poder para governar o Japão de forma quase deificadora.

Concordo com Evola quando ele afirma que, antes da decadência republicana, todo poder político e militar era justificado através de uma conexão com a atemporalidade. Da mesma forma, os portugueses não estavam exclusivamente interessados em expandir seu império por razões comerciais.

Não estou negando que esses interesses não estivessem presentes ou fossem importantes, mas considero simplista reduzir a religião ou a perspectiva transcendente a meras consequências dessas motivações econômicas, algo que é radicalmente simplificado na visão marxista.

Seria até mesmo redutivo resumir o ímpeto colonizador português à afirmação dos interesses da Igreja Católica, dado que sempre houve uma forte tensão na Europa entre catolicismo e nacionalismo (com suas raízes pagãs).

Portugal é um país fascinante, com uma identidade complexa que mescla visigodos, romanos, mouros e celtas. O cristianismo português também é complexo, sendo católico e ao mesmo tempo influenciado pelo arianismo do bispo Úlfilas.

A influência pagã mais evidente em Portugal é a deificação da nação.

A essência da tensão entre Japão, Portugal e Inglaterra era, em sua essência, supra-mundana, e as questões econômicas, políticas, científicas e militares eram apenas contingências do tempo.

Por isso, sempre busco refugiar-me naquilo que considero mais elevado no homem depois da religião, que é a sensibilidade artística.

Para mim, a sensibilidade ao mesmo tempo apóstata e católica de Scorsese em ‘Silêncio’ ainda é, de longe, a melhor obra audiovisual sobre o Período Sengoku.

Exigir que a série ‘Xogun’ abranja esse escopo talvez seja pedir demais. Talvez funcione melhor em ficções biográficas como ‘Silêncio’, onde o homem encapsula em seu coração a complexidade de ser imagem e semelhança do Criador.

De resto, não interprete essa crítica como uma reprovação à série; ela é muito boa e merece ser assistida e celebrada.

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