A demonização de Baal

Entre os semitas, houve muitas concepções sobre deuses que surgiam e desapareciam, sendo incorporadas de forma mais ou menos fixa no imaginário geral. Por exemplo, temos a concepção “trina” da divindade primordial representada antigamente por “El”, “Asherat” e “Vesper”, os quais geraram 70 filhos divinos. Essa mesma concepção trina vai “reaparecer” no Cristianismo como “Pai”, “Fiho” e “Espírito Santo”.

Também encontramos a ideia de um adversário, inicialmente reconhecido na figura de “Baal”, a única divindade que não compartilhava da mesma natureza dos outros 70 filhos divinos de “El”.

As informações sobre “Baal” são escassas e as poucas fontes que possuímos são fragmentadas e contraditórias. No entanto, podemos afirmar que ele é o único deus que, mesmo incluído entre os filhos de “El” em uma de suas versões mais conhecidas, é também denominado “filho de Dagan” – um deus estrangeiro venerado nas regiões do alto e médio Eufrates no terceiro milênio.

Se as informações sobre “Baal” são limitadas, sobre “Dagan” temos ainda menos fontes, pois seu culto já estava completamente extinto antes mesmo da Idade do Bronze.

De forma fragmentada, sabemos que “Baal” é reconhecido na mitologia ugarítica como “inimigo de El” e que ele tem a intenção de tomar o trono celeste (simbolizado no monte Sapân), o que o aproxima da figura clássica de “Lúcifer”.

No entanto, é difícil determinar se todas as referências a “Baal” representam de fato a mesma entidade, pois ele é cultuado ora como um deus estrangeiro (especificamente o deus do tempo ou das tempestades), ora mencionado um título, algo como “senhor”.

O que sabemos é que a figura de “Baal” se tornou particularmente aterrorizante para os judeus depois de uma determinada época, e alguns judeus medievais espanhóis, como Joseph Ha-Cohen, acreditavam inclusive que os cristãos cultuavam “Baal”.

“Baal” também é a figura que é morta por “Anat”, dentro do próprio palácio, em uma das versões mais trágicas de seu mito.

Em seu palácio, que parece nunca ser o mesmo em cada história diferente, ele também enfrenta “Môt”, um deus relacionado à morte.

“Môt” é extremamente interessante. Assim como “Baal”, ele também é filho de “El” e reina sobre o mundo subterrâneo. Seu trono é feito de lama e ele vive em uma região coberta de imundices, que podemos interpretar como o inferno. “Môt” tem uma grande goela que engole todos que se aproximam dele.

“Baal”, após matar “Yam”, deus do mar (geralmente símbolo do “caos”), é enviado ao reino de Môt. Perceba que “Baal” é simbolicamente complexo, com características tanto diabólicas quanto heroicas, talvez representando o paradoxo luciferiano, já que é curioso como a entidade das trevas carrega em seu nome a epítome de “portador da luz”.

Antes de descer aos infernos (ou ao reino de “Môt”), “Baal” se une a uma novilha e concebe um filho. Isso explica por que muitas de suas representações mostram a figura de um homem com cabeça de boi.

Depois de conceber seu filho com uma novilha, “Baal” o enrola em suas próprias roupas e o confia a “El”, que é seu inimigo, mas também seu pai.

Não sabemos o que acontece com “Baal” depois que ele desce ao reino de “Môt”, apenas que, após algumas lacunas na história, ele aparece morto. Em outras fontes, ele foi morto e devorado por “Anat” em seu palácio, sugerindo que “Baal”, ao descer ao inferno, ali constrói sua morada – e é morto no mesmo palácio que intencionava governar.

Assim como “Lúcifer”, “Baal” é uma figura poderosa, mas destinada a ser derrotada.

A figura de “Môt” misteriosamente desaparece dos relatos, mas em outras fontes dispersas, com histórias completamente diferentes, ele também teria sido morto por “Anat” em seu furor.

Independente da confusão desses mitos, o que sabemos é que os povos semitas tinham uma preocupação genuína em organizar essas histórias dispersos na confrontação direta de suas fontes.

Era como se os deuses nacionais israelitas, cananeus, hurritas e quenitas se digladiassem em uma trincheira astral, enquanto a sociedade se organizava sob eles.

Os povos semitas evoluíram do politeísmo para a monolatria e desta para o monoteísmo, mantendo a pluralidade cósmica característica, tornando o antigo panteão semítico um reino cósmico de criaturas na figura de anjos e demônios, incorporando alguns valores e rejeitando outros, como sugeriu o apóstolo São Paulo milênios depois aos cristãos.

A demonização dos deuses estranhos, como “Baal”, foi acompanhada por uma angelomorfização dessas mesmas entidades tanto no processo histórico quanto místico. Para os que se incomodam com isso, posso dizer que isso foi responsável pela sobrevivência dessas mesmas entidades no imaginário coletivo.

Podemos dizer que a projeção tanto unificadora quanto universalista (ou católica) já estava presente desde o início, e as coisas simplesmente se realizaram como era diversas vezes profetizados. Desculpem os relativistas, mas não há absolutamente nada na história religiosa (que eu conheça, pelo menos) que se compare com a precisão dos profetas bíblicos.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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