Quando eu era jovem e comecei a me interessar por música, meu repertório era limitado e eu não tinha grande interesse em expandi-lo. Minha paixão começou de fato com o Heavy Metal, uma subcultura que, por si só, é bastante propensa ao sectarismo. Pelo menos na minha época, quem ouvia Heavy Metal geralmente não escutava mais nada.
Minha primeira banda — e até hoje a minha favorita — foi o Iron Maiden, um grupo com uma incrível capacidade de monopolizar a atenção de um fã. Comigo foi exatamente assim. E não é um caso isolado: dentro da bolha do Heavy Metal, é comum encontrar pessoas que passam anos, às vezes décadas, ouvindo quase exclusivamente o Iron Maiden.
Com o tempo, fui me desprendendo desse nicho, embora ainda ouça bastante, e passei a explorar outros estilos musicais. Esse processo não surgiu do nada: teve seus gatilhos, e acredito que parte deles veio de um sujeito chamado Hideki Naganuma.
Naganuma é um compositor de trilhas de jogos relativamente famoso e bastante cultuado. Ele é o responsável por trabalhos marcantes em títulos como Sega Rally 2, Out Run, Space Harrier, Jet Set Radio, Jet Set Radio Future, Ollie King e Sonic Rush.
O que diferencia Naganuma de outros compositores da indústria são suas influências fortemente calcadas no Jazz, no Rock, no R&B, no Hip Hop e, principalmente, no Funk — especialmente de artistas como Prince e Funkadelic. Essas referências nasceram e se fortaleceram enquanto ele trabalhava como bartender no famoso bar de Jazz Blue Note Tokyo. Lá, absorvia passivamente as playlists que tocavam no ambiente e, aos poucos, moldava seu repertório musical.
De certa forma, algo parecido aconteceu comigo: enquanto jogava videogame, ia ouvindo passivamente as trilhas ecléticas e cheias de groove de Naganuma. Com o perdão da comparação, o videogame se tornou, para mim, uma experiência análoga ao que o Blue Note Tokyo foi para ele.
Na trilha de Sega Rally 2, seu primeiro trabalho na indústria dos games, já é possível perceber muito do que apareceria em projetos posteriores: percussão marcante, ritmos cinéticos e instrumentação vibrante — elementos que se destacavam em relação às composições mais tradicionais dos jogos japoneses da época, que tendiam ao chiptune ou ao orquestral. Ele abraçou um estilo não convencional para a música de games, algo relativamente inédito naquele período.
Jet Set Radio
Jet Set Radio é um marco na carreira de Hideki Naganuma e um dos trabalhos que mais influenciaram o meu gosto musical.
A abordagem visual e sonora do jogo, que considero um verdadeiro manifesto estético, combinava de forma única grafite e temas urbanos.
Desenvolvido para o Dreamcast, o projeto contou com uma equipe de 25 desenvolvedores, a maioria com menos de 25 anos. O designer de personagens, Ryuta Ueda, inspirado por PaRappa the Rapper e pelo filme Fight Club, buscava criar algo que abordasse a cultura pop e se diferenciasse dos designs japoneses genéricos de anime e mangá, adotando um estilo ao mesmo tempo mais realista e extravagante.
A trilha sonora de Jet Set Radio é considerada uma das mais energéticas, rítmicas, desafiadoras e multiculturais já lançadas pela SEGA. Até hoje, é a minha preferida entre as obras de Naganuma. Ela combina J-pop, hip-hop, funk, rock, acid jazz e dance eletrônico de forma extremamente coesa com a proposta do jogo. Naganuma foi escolhido justamente para encapsular a rebeldia que o título queria transmitir.
Apesar da inovação e da aclamação crítica, Jet Set Radio não teve boas vendas no Japão. Talvez representasse mais rebeldia do que o público japonês, tradicionalmente zeloso dos espaços públicos, estivesse disposto a tolerar. Talvez fosse pelo fato de o jogo ser mais calcado na cultura negra norte-americana do que na japonesa.
Essa temática ligada à cultura de rua e ao funk, ambos originados nos Estados Unidos, tornou o jogo mais fácil de relacionar ao público ocidental, o que ajudou a ampliar a apreciação pelo estilo de Naganuma e a formar um público fiel fora do Japão. Rapidamente, Jet Set Radio ganhou um culto de fãs no Ocidente, do qual eu faço parte.
O jogo é, acima de tudo, sobre diversão, com música, arte e jogabilidade projetadas para evocar sentimentos de alegria e aventura, transmitindo uma mensagem lúdica e irreverente de espírito “anti-establishment”.
Jet Set Radio solidificou Naganuma como uma lenda na composição de trilhas para videogames, com seu nome amplamente reconhecido dentro e fora da indústria.
Faixas memoráveis:
Sneakman
A música combina um violino sintetizado acelerado, um baixo slap potente e uma percussão caótica e frenética, criando uma sonoridade ideal para a adrenalina de fugir da polícia no jogo. A trilha incorpora samples de “Mama Said Knock You Out” (LL Cool J) e “Boogie Down” (Catch 22).
That's Enough
Com uma vibe mais “chill”, a música ainda carrega a assinatura inconfundível de Naganuma. A faixa se destaca pela percussão eletrônica marcante e um baixo slap grooveado, além de incorporar samples de “The Music Just Turns Me On (Venus 1999)” e “Don’t Make Me Wait” (The Peach Boys). Nela, Naganuma demonstra sua habilidade de criar atmosferas dramáticas sem perder o feeling funky que define seu estilo.
Grace and Glory
Tema do chefe final de Jet Set Radio. A música estabelece um tom ominoso com samples de gritos e vozes de coral fantasmagóricos e climáticos. Em seguida, evolui para uma seção com um baixo eletrônico intenso, que se justapõe a ambientação assustadora inicial mas sem perder o groove funky característico da trilha sonora do jogo. A faixa é uma das favoritas de Hideki Naganuma e, por isso, recebeu um remix em Jet Set Radio Future.
Sweet Soul Brother:
“Sweet Soul Brother” é a música que acompanha os créditos finais de Jet Set Radio. A faixa, radiante e animada, funciona como o contraponto ideal à atmosfera sombria e desconcertante de “Grace and Glory”, estabelecendo uma dinâmica de contrastes complementares na trilha sonora do jogo. A faixa utiliza-se do sample de “Soul Man” de Sweet Charles, uma faixa carregada de influências soul e funk que reforça a vibe nostálgica e dançante característica da obra de Naganuma.
Funky Radio:
Acho que “Funky Radio” captura a essência de Jet Set Radio como nenhuma outra. A faixa explode com um ritmo funky agressivo e sem concessões, mas logo se transforma em uma batida mais suave e convidativa, revelando uma faceta descontraída do jogo. Diferente da maioria das faixas da trilha, que se apoiam em colagens de samples , esta traz letras originais, interpretadas pelo rapper BB Rights.
Jet Set Radio Future
“Jet Set Radio Future” (JSRF) é a sequência de “Jet Set Radio” (JSR) e representa um marco significativo na evolução do trabalho de Hideki Naganuma e da franquia como um todo.
O jogo não foi visto pelos criadores como uma sequência propriamente dita, mas sim como um “reimaginar” dos temas, da jogabilidade e da estética do título original. Em JSRF, tudo foi elevado ao máximo: os gráficos em cel-shading ficaram ainda mais estilosos, a jogabilidade foi reformulada com ação mais acelerada, a campanha ganhou maior duração, os 23 personagens jogáveis tiveram aprimoramentos de design e o mapa de Tóquio quase dobrou de tamanho em relação ao original.
Há um foco notável nos temas da ganância corporativa e da ameaça implacável do poder descontrolado, representado pela polícia Rokkaku. O jogo também enfatiza como a tecnologia do futuro, em mãos erradas, pode suprimir a expressão artística da humanidade, mas também como essa mesma tecnologia pode impulsioná-la.
Na trilha sonora, também houve melhorias. Ela continua tendo Hideki Naganuma como maestro, mas passou a contar com compositores e bandas de diferentes partes do mundo.
A abordagem é mais futurista, com forte influência de Funkadelic e Prince, referências centrais para Naganuma.
JSRF foi pensado como uma declaração sobre o futuro e sobre como a expressão artística humana poderia evoluir. Naganuma se superou, criando o que ainda hoje é considerado uma das trilhas sonoras mais inesquecíveis dos videogames.
Infelizmente, assim como seu predecessor, “Jet Set Radio Future” não vendeu bem no Japão.
Devido a esse fracasso financeiro e à saída do Dreamcast (e, portanto, da Sega) do mercado de consoles, “Jet Set Radio” acabou se tornando uma franquia “morta”.
Apesar disso, o jogo e sua trilha sonora lendária permanecem na história como um verdadeiro clássico da indústria dos games.
Para Hideki Naganuma, o título o colocou em uma posição ainda mais destacada como compositor, consolidando-o como um diretor de som ousado, fiel às suas influências musicais e único em seu estilo de composição e sampling. Ele se tornou uma figura legítima na música japonesa, à sua maneira particular.
Faixas memoráveis:
The Concept of Love
“The Concept of Love” é a música mais popular da trilha sonora de Jet Set Radio Future. Naganuma aperfeiçoou seu estilo único de sampling, utilizando clipes de voz com palavras e frases aparentemente aleatórias, mas que são habilmente adaptadas para se encaixar perfeitamente no contexto estético do jogo. A faixa demonstra sua evolução como músico, combinando riffs de percussão futuristas, uma sensibilidade melódica brilhante e um impactante sampling do discurso “Free Huey”, de Stokely Carmichael – um marco na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Essa escolha revela como Naganuma compreendeu profundamente os temas do jogo, mesmo em um contexto japonês, e soube integrá-los à sua composição. Além disso, “The Concept of Love” sintetiza de maneira excepcional os diversos estilos que compõem a trilha sonora de JSRF, consolidando-se como um marco da obra.
Fly Like a Butterfly
“Fly Like a Butterfly inicia de forma melódica, eletrônica e psicodélica, mas transiciona para um groove contundente sustentado por um slap bass. A faixa também se destaca pelo uso intenso de elementos techno em toda a sua estrutura.
Funky Dealer
Funky Dealer é uma das minhas faixas favoritas. É basicamente uma masterclass de como integrar samples e motivos musicais de forma coesa e satisfatória. A música adota uma abordagem mais swingada em seu funk, misturada com elementos de Jazz.
Teknopathetic
Teknopathetic é uma das músicas mais conhecidas e emblemáticas de Hideki Naganuma. Trata-se, como o nome sugere, de uma faixa techno. Ela mistura a levada característica de Funkadelic, uma influência mais proeminente da trilha sonora do jogo anterior, com elementos eletrônicos mais desconstraídos. É um verdadeiro earworm, aquele tipo de música que gruda na cabeça e não sai mais.
Shape Da Future
Shape Da Future é a faixa com a sonoridade mais radicalmente eletrônica da trilha, evocando perfeitamente uma atmosfera futurista. Riffs de guitarra e linhas de baixo subtis atuam como elementos de ancoragem para os temas ambiciosos da composição
Remixes
Uma parcela significativa da trilha sonora do jogo original foi relançada em Jet Set Radio Future na forma de remixes. Músicas icônicas como “Sneakman”, “That’s Enough”, “Sweet Soul Brother”, “Grace and Glory” e “Rock It On” ganharam novas versões, exemplificando a evolução sonora de Hideki Naganuma entre os dois títulos.
Como destaque, há “No Sleep” — uma versão paradoxalmente mais suja e sofisticada de “Let Mom Sleep” do primeiro jogo.
Ollie King
Ollie King é um jogo de skate pouco conhecido, voltado para ação em alta velocidade e que contou com uma trilha sonora integralmente composta por Hideki Naganuma.
Embora seja lembrado sobretudo por sua música, o título acabou não alcançando sucesso comercial.
Naganuma teve liberdade criativa total na composição, e o resultado é uma mostra exemplar de sua inventividade e estilo. A trilha promove uma fusão ousada de gêneros como pop eletrônico, jazz, industrial, metal, disco, hip hop e bossa nova — todos entrelaçados por uma base funk consistente e pelo uso habilidoso de samples e efeitos sonoros.
Por isso, a música de Ollie King é frequentemente considerada a “joia oculta” da carreira de Naganuma. Mais do que um simples acompanhamento para o jogo, ela se afirma como um testemunho de sua dedicação e paixão criativa, mesmo em um projeto que acabou negligenciado pelo público e pela indústria.
Todas as faixas de Ollie King são excelentes, mas algumas merecem destaque especial, como “Let It Go”, “Something Jazzy for Your Mind, Body and Soul” e “Brother Goes Away”.
O jogo também traz remixes notáveis de músicas de Jet Set Radio Future, como “Teknopathetic” e “The Concept of Love”.
Na versão de “Teknopathetic”, os violinos surgem mais frenéticos, enquanto a instrumentação eletrônica assume um tom mais suave. O resultado é mais refinado e elegante do que o original, com um uso inventivo e divertido dos elementos instrumentais. O ponto alto é um solo de violino e baixo no meio de um breakdown espetacular no final. Naganuma conseguiu aprimorar o que já era excelente.
Em “The Concept of Love”, a releitura aposta em uma sonoridade mais próxima do eletro-dance pop com influências de música latina mas temperada com um toque de funk psicodélico dos anos 70. Essa versão se afasta consideravelmente do estilo original, suavizando os segmentos de hard rock. Embora, a meu ver, não supere a faixa original, merece destaque pela reimaginação criativa e pelo interessante deslocamento estilístico.
Sonic Rush
Sonic Rush, um jogo de Nintendo DS, teve Hideki Naganuma como seu compositor principal, marcando seu último grande trabalho na Sega antes de se tornar um artista freelancer.
A escolha de Naganuma foi tão perfeita quanto óbvia. Sonic é um mascote com uma vibe “radical” dos anos 90, e Naganuma, um compositor que buscava inspiração fora do Japão, era conhecido por criar músicas ousadas que desafiavam os tabus da indústria. O resultado não poderia ser diferente: memorável. A trilha sonora de Sonic Rush é considerada uma das melhores da franquia — e olhe que a série Sonic tem concorrentes fortíssimos.
Mesmo com as limitações do chip de som do Nintendo DS, Naganuma conseguiu imprimir seu estilo inconfundível em cada nível e desafio do jogo. Ele adaptou a instrumentação de alta qualidade que costumava usar em suas composições e a implementou de forma a se encaixar perfeitamente no formato do DS e na estética de Sonic Rush.
Diferente de seus trabalhos anteriores, Naganuma compôs cada música para combinar com a vibe e a estética de cada fase específica, em vez de criar um tom estilístico único para o jogo inteiro. Isso faz com que a trilha soe mais caótica e aleatória quando ouvida isoladamente, mas seja absolutamente coesa durante a jogabilidade, complementando perfeitamente a velocidade e a ação. As faixas transmitem uma sensação de “adrenalina”, “ousadia” e “excitação”.
Sonic Rush, diferente dos projetos anteriores de Naganuma, foi um grande sucesso comercial, vendendo mais de 3 milhões de cópias e tornando-se o sexto jogo mais vendido do Nintendo DS em 2006.
Infelizmente, e de forma inexplicável, Naganuma não foi convidado para trabalhar na sequência, Sonic Rush Adventure. Isso o levou a deixar a Sega em 2008, após uma “década lendária” (de 1998 a 2008). Ele, no entanto, continuaria a colaborar com a empresa no futuro sob o hilário pseudônimo “Skank Funk”.
Faixas memoráveis:
Como sempre, todas as faixas do jogo são excelentes, como What U Need, Ethno Circus, Jeh Jeh Rocket, Wrapped in Black e Metal Scratchin. No entanto, eu devo destacar as seguintes:
Back 2 Back
“Back 2 Back” começa com uma batida forte, um sample de uma voz que repete o título da faixa e um riff que evoca “You Really Got Me”, do The Kinks. Apesar das limitações do hardware do Nintendo DS, Naganuma conseguiu capturar perfeitamente uma vibe costeira, criando uma sensação quase subaquática. A melodia principal é brilhante e energética, complementada pelos característicos cortes e scratches sonoros que são a marca registrada do compositor.
Back 2 Back
“Back 2 Back” começa com uma batida forte, um sample de uma voz que repete o título da faixa e um riff que evoca “You Really Got Me”, do The Kinks. Apesar das limitações do hardware do Nintendo DS, Naganuma conseguiu capturar perfeitamente uma vibe costeira, criando uma sensação quase subaquática. A melodia principal é brilhante e energética, complementada pelos característicos cortes e scratches sonoros que são a marca registrada do compositor.
Vela-Nova
“Vela Nova” começa com uma batida selvagem, animalística e exótica, evocando a sensação de uma jornada lisérgica pela selva. A faixa se destaca pelo instrumental de inspiração jazzística, mesclado com influências caribenhas, que se metamorfoseia em uma interessante e única variação de bossa-nova eletrônica.
Bomber Barbara
“Bomber Barbara” é considerada por muitos fãs a melhor introdução em uma música de Naganuma, servindo como tema para o penúltimo chefe do jogo. A faixa utiliza brilhantemente um sample de sirene ou alarme para construir tensão e um senso de urgência, antes de explodir em riffs de guitarra que conduzem à melodia principal. A canção mescla elementos de rock, pop eletrônico e funk, resultando em uma composição única e marcante, bastante diferente das tradicionais trilhas de chefes finais da série Sonic.
Os temas de Blaze em Sonic Rush
Naganuma também foi responsável pelas faixas temáticas de Blaze the Cat em Sonic Rush. Em contraste com as de Sonic, as composições de Blaze são mais suaves e menos agressivas, apresentando arranjos mais delicados e uma atmosfera distinta de “elegância”.
Embora as trilhas do Sonic sejam geralmente mais populares, as de Blaze também se destacam. É o caso do remix de “Back 2 Back”, que incorpora vocais processados e trompetes sintéticos, evocando a vibe de um parque de diversões em uma metrópole, e de “Jeh Jeh Rocket”, que mantém a seriedade e a energia frenética da original.
Já o remix de “What U Need” para a Blaze possui uma sonoridade mais “evoluída” e geracional, com um tom teatral e urgente que estabelece um contraste tanto temático quanto musical em relação à versão do Sonic.
Bomb Rush Cyberfunk
Bomb Rush Cyberfunk representa um dos pontos mais altos na carreira de Hideki Naganuma. Aclamado como o legítimo sucessor espiritual de Jet Set Radio, o jogo aprimora e evolui os temas e conceitos originais da franquia.
Com visuais cel-shaded deslumbrantes e um estilo funky característico, o jogo avança criativamente em todas as frentes: na jogabilidade, na narrativa – mais densa e sombria – e, especialmente, na trilha sonora.
Vários músicos talentosos e artistas de hip-hop se uniram para criar uma experiência coesa, divertida e não convencional. A Team Reptile, desenvolvedora do jogo, já havia colaborado com Naganuma em Lethal League Blaze, o que reforçou a sintonia criativa na produção.
Naganuma contribuiu com três das faixas principais: “Get Enuf”, “The People” e “Jack Da Funk”.
Sua participação é vista como a coroação de um legado – um retorno simbólico às ruas urbanas grafitadas que ele ajudou a imortalizar, agora trabalhando ao lado de artistas que foram diretamente influenciados por seu trabalho anterior. Para ele, essa experiência deve ter sido tanto emocionante quanto profundamente gratificante.
Suas composições neste jogo são divertidas, consistentes e singularmente nagannumanescas. Elas soam como uma afirmação de estilo e uma celebração de sua trajetória – merecendo todos os elogios.
Seu trabalho aqui reflete não apenas a capacidade de criar um gênero musical próprio, mas também de traduzir em som as múltiplas facetas da vida urbana, mantendo sempre a energia frenética que marca sua experiência pessoal.
Bomb Rush Cyberfunk é, assim, um projeto que perpetua o ciclo da expressão artística: inspirando uma nova geração de criadores, assim como foi inspirado pelas obras anteriores de Naganuma e outros visionários.
Faixas memoráveis:
Get Enuf
“Get Enuf” é a faixa que embalou o trailer de Bomb Rush Cyberfunk e que, desde o primeiro momento, deixou claro que o legado de Jet Set Radio estava mais vivo do que nunca. Em uma volta às origens, Naganuma recorre a samples intensos que se intercalam com a melodia principal, criando sua textura característica. A base sintética e os metais digitais soam mais techno, enquanto as harmonias transmitem uma energia contagiante e eufórica. O breakdown final é simplesmente excepcional, com linhas de percussão que capturam perfeitamente uma sensação de adrenalina etérea. A música termina com a mesma intensidade bombástica com que começa — simplesmente fantástica.
The People
“The People” é uma faixa que remete diretamente ao trabalho de Naganuma em Jet Set Radio Future (em especial a faixa The Concept of Love), principalmente pelo uso de outro sample icônico: um trecho do famoso discurso sobre direitos civis de Stokely Carmichael. A escolha é tão poderosa quanto ressonante, reforçando perfeitamente os temas de rebelião e da força transformadora da expressão artística.
A música estrutura-se em três seções principais:
A abertura, onde um slap bass marcante e um piano eletrônico conduzem a melodia e os motivos temáticos;
Uma ponte em que o andamento diminui levemente, mantendo a levada funky, mas criando tensão para o clímax;
E o breakdown final, no qual a voz de Carmichael ecoa com a frase “this beautiful race of people”, acompanhada por linhas de baixo assertivas e riffs eletrônicos — simbolizando musicalmente a união contra uma ameaça comum.
Jack Da Funk
Deixei o melhor para o final. “Jack Da Funk” é uma das melhores — se não a melhor — obras de Naganuma. A faixa parece sintetizar toda a essência do seu trabalho em Jet Set Radio, Jet Set Radio Future e Bomb Rush Cyberfunk.
A música começa com um cowbell marcante e um groove impecável, estabelecendo desde os primeiros segundos uma atmosfera irresistivelmente funky. Destaca-se pelo uso de sintetizadores groovy e um slap bass suave e preciso, que se entrelaçam com maestria. Os samples são variados e extremamente limpos, demonstrando o alto nível de polimento e expertise que Naganuma consolidou ao longo da carreira.
A energia funk não para de crescer, impulsionada por camadas de samples e um breakdown que é a própria definição do seu estilo. Mas sua característica principal é a alegria contagiante que transmite ao ouvinte, encapsulando perfeitamente a consistência e a singularidade do genial estilo de Naganuma.