A alquimia é definida, necessariamente, por duas crenças fundamentais: 1) a transmutação dos metais em ouro e 2) o valor soteriológico das operações realizadas com o objetivo de alcançar esse resultado.
Esse tipo de prática possui particularidades no Egito, na Europa e na China.
A alquimia chinesa constitui-se como uma disciplina autônoma, baseada em: 1) princípios cosmológicos tradicionais; 2) mitos relacionados ao elixir da imortalidade e aos santos imortais; e 3) técnicas que visam, simultaneamente, o prolongamento da vida, a beatitude e a espontaneidade espiritual.
Perceba-se que há muitos temas que, embora à primeira vista pareçam não relacionados — como o preparo do ouro, o elixir da imortalidade e a evocação dos imortais —, são, na verdade, solidários entre si.
Tomemos como exemplo a recomendação que o alquimista Li Chao-kiun faz ao imperador Wu, da dinastia Han:
“Sacrificai ao forno (tsao), e podereis atrair seres sobrenaturais; quando os tiverdes feito aparecer, o pó de cinábrio poderá ser transmutado em ouro amarelo; quando o ouro amarelo tiver sido produzido, com ele podereis fabricar utensílios para comer e beber, e então tereis uma longevidade prolongada. Quando vossa longevidade for prolongada, podereis ver os bem-aventurados (hsien) da ilha P’ong-lai, que fica no meio dos mares. Quando os tiverdes visto e houverdes realizado os sacrifícios fong e chan, já não morrereis.”
Nesse pequeno trecho, percebemos que a busca pelo elixir da imortalidade estava associada à procura por ilhas remotas e misteriosas, onde habitavam os “imortais”. Encontrar esses seres significava transcender a condição humana e participar de uma existência atemporal e beatífica.
A menção ao ouro — elemento de maior prestígio na alquimia — é bastante significativa. Acreditava-se que o ouro repousava no “centro da Terra”, num processo análogo ao da gestação. Era considerado um metal “imortal”, pois não se corroía, e simbolizava a perfeição.
Algo notável no mundo antigo era a percepção poética, religiosa ou simbólica de tudo o que existe. Não apenas o ouro era “cosmologizado”; todo o microcosmo possuía um correspondente no macrocosmo, e todos os elementos podiam manter relações entre si.
O corpo humano, por exemplo, estabelecia vínculos com os cinco elementos cosmológicos do taoismo: o coração representava a essência do fogo, o fígado a da madeira, os pulmões a do ar, os rins a da água e o estômago a da terra.
Esse microcosmo — o corpo humano — também era interpretado em termos alquímicos: “o fogo do coração é vermelho como o cinábrio, a água dos rins é negra como o chumbo”, e assim por diante. Consequentemente, o ser humano possui, em seu próprio corpo, todos os elementos que constituem o cosmo, bem como as forças vitais que garantem sua renovação periódica. Trata-se apenas de reforçar determinadas essências. Em última instância, o homem não se distingue das demais coisas do universo. Não há, em termos absolutos, um “eu” ou um “aquilo”. Em teoria, essa concepção é perfeita.
O paradoxo da totalidade-unidade, valorizado em todo o pensamento oriental, é certamente um dos mais difíceis de compreender — e os próprios orientais reconhecem esse paradoxo. O “eu” e o “aquilo” ainda gritam suas evidências, apesar de todo o esforço intelectual para dissolvê-los. Do mesmo modo, também houve um esforço para não diferenciar o “interno” do “externo”.
No universo da alquimia chinesa, a partir de certo momento, começou-se a distinguir a alquimia externa (wai-tan), considerada “exotérica”, da alquimia interna (nei-tan), de cunho iogue, tida como “esotérica”.
O nei-tan é considerado esotérico porque o elixir passa a ser preparado no próprio corpo do alquimista, por meio de técnicas de “fisiologia sutil”, sem o uso de substâncias minerais ou vegetais. Os metais “puros” (ou suas “almas”) são identificados com diferentes partes do corpo, e os processos alquímicos, em vez de ocorrerem em laboratórios, desenvolvem-se no corpo e na consciência do iniciado. O corpo torna-se o cadinho onde o mercúrio e o chumbo “puros”, bem como o semen virile e o sopro vital, circulam e se fundem.
Em suma, a alquimia chinesa revela-se muito mais do que uma prática de transformação material: trata-se de uma visão integrada do mundo, em que corpo, natureza e cosmos participam de um mesmo ciclo de renovação e transcendência.