Por uma Meiji Brasileira: um chamado para reconstruir o Brasil a partir de si mesmo

Sérgio Buarque de Holanda explica no capítulo “Novos Tempos” de Raízes do Brasil, assim como em trechos dos capítulos anteriores, uma das grandes contradições da modernização brasileira.

O positivismo, expressão filosófica central desse processo e amplamente ironizado por Machado de Assis, parece à primeira vista o oposto perfeito do homem cordial que define, segundo Sérgio Buarque, o arquétipo do brasileiro. Trata-se de uma doutrina que exalta a ordem, a ciência, a impessoalidade, a hierarquia racional e o enfraquecimento das paixões políticas e religiosas.

A questão decisiva é a seguinte: como um país de tradição personalista, católica e patriarcal tornou-se, no final do século XIX, o maior entusiasta mundial do positivismo?

A resposta de Sérgio Buarque é que o positivismo brasileiro foi uma versão tropicalizada e profundamente deformada do positivismo de Auguste Comte. Transformou-se em um positivismo mais de slogans do que de substância e serviu sobretudo para satisfazer o desejo de parecer moderno sem exigir a aplicação efetiva de uma racionalidade burocrática.

A aparência de impessoalidade apenas mascarava um patrimonialismo persistente. No Brasil, o positivismo converteu-se em doutrina de quartel e instrumento de legitimação do poder pessoal do marechal-presidente.

Fomos apresentados à escolha entre modernidade e tradição e acabamos criando uma terceira via desastrosa. Reunimos fragmentos desconexos de ambas sem assumir plenamente nenhuma delas.

Ao importar e desfigurar o positivismo, permanecemos em uma zona cinzenta, sem tradição orgânica e sem modernidade racional.

O ideal seria assumir nossa identidade e, a partir dela, conduzir a modernização. Isso implica progredir em conformidade com nossa própria natureza histórica. Forçar uma modernização que viole essa identidade tende a ser traumático e, no longo prazo, contraprodutivo.

Com a perda da monarquia, o Brasil perdeu também sua âncora simbólica.

A monarquia parlamentarista brasileira, apesar de seus limites, era o único elemento de continuidade histórica e de neutralidade acima das facções regionais. Depois de 1889, o país nunca mais conseguiu estabelecer um símbolo unificador que não recaísse no populismo messiânico ou no autoritarismo militar. A República nasceu sem mito fundacional positivo e permanece órfã dele.

Restaurá-la não é possível. Esse momento histórico se encerrou e precisamos seguir adiante. O que precisamos é refundar a ideia de Brasil em uma identidade comum, ibérica, católica, personalista e miscigenada, ainda que nem todos nós sejamos ibéricos, católicos, personalistas ou miscigenados.

Toda tentativa de modernização que ignora essa matriz, seja o positivismo de 1889, o desenvolvimentismo tecnocrático dos militares ou o neoliberalismo dos anos 1990, termina reforçando o patrimonialismo e a desordem que se escondem sob a fachada de ordem.

Em síntese, trata-se de realizar algo semelhante ao que o Japão fez na era Meiji: uma modernização que parte de si mesma. O princípio do wakon yōsai, espírito japonês e técnica ocidental, expressa essa estratégia. Em quarenta anos, o Japão tornou-se potência industrial e militar sem passar por revoluções sociais nos moldes franceses ou por processos de desculturação massiva.

O wakon yōsai foi exatamente aquilo que o Brasil nunca conseguiu realizar. O Japão modernizou-se preservando a continuidade simbólica do imperador, a coesão da elite samurai reconvertida, a identidade cultural profunda e o sentido de destino nacional. Fizemos o oposto: rompemos com a monarquia, desprezamos a herança ibérico-católica, atacamos nossa identidade miscigenada (reduzindo tudo a estupros), adotamos um republicanismo importado e mal digerido e nunca formamos uma elite nacional disposta a sacrificar-se pelo todo. O resultado é que o Japão, em quarenta anos, tornou-se potência mundial. Nós, em cento e trinta e seis anos de República, ainda discutimos o básico.

Para alcançar algo semelhante, precisamos de uma elite que tenha interesse em codificar nossa identidade em um projeto nacional coeso.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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