China e a naturalização do sagrado

O final da dinastia Shang foi declarado pelo Duque de Zhou (ou Duque de Tcheu), no que viria a ser conhecido como o Mandato do Céu.

Esse mandato trata da legitimidade dos governantes — inicialmente reis, posteriormente imperadores — e afirma que o Céu abençoaria a autoridade de um líder justo e retiraria sua proteção de um governante tirânico.

Trata-se de uma noção sofisticada, que combina uma justificativa religiosa com critérios materiais — elementos geralmente tratados em perspectivas distintas (embora não necessariamente conflitantes).

A autoridade era de origem divina, mas sua manifestação se dava objetivamente naquele que melhor governasse.

Esse princípio gerou efeitos interessantes ao longo da história chinesa.

T’ien ou Shangdi, o deus celeste, era o responsável por conceder as bênçãos do Mandato. Acreditava-se nele como uma entidade real: prestavam-se-lhe sacrifícios e cultos, como a qualquer outro deus. Ele se apresentava de forma antropomórfica e pessoal, aproximando-se da figura humana, mas residia na Ursa Maior, no centro do Céu, para marcar sua essência divina. Tudo vê, tudo ouve. É clarividente e onisciente; seus decretos são infalíveis.

Com o tempo, a poesia da religião, marcada pelo senso do mistério sobrenatural, foi sendo ressignificada nas normas, nos pactos e nos contratos sociais.

Algo muito característico do pensamento chinês (e que se irradiou por boa parte do Oriente), descrito — e de certa forma celebrado — por Confúcio, foi a progressiva e crescente racionalização do deus celeste. Esse processo o transformou de uma entidade divina em princípios abstratos de ordem e moralidade.

Um aspecto curioso é que, em países como China e Japão, nota-se quase um paradoxo: uma espécie de “não-religiosidade” da religião. Há uma religiosidade mantida nas formas, nos templos, nos festivais e nas tradições — mas sustentada mais pelos costumes e pelo zelo com a herança cultural do que por uma crença efetiva, tal como a entendemos no Ocidente.

Talvez o Japão ainda preserve um senso mais reconhecível de religiosidade que a China por causa do Xintoísmo, que cultiva certa relação com mistérios e entidades. O japonês, no geral, é mais supersticioso que o chinês.

O equívoco comum é interpretar esse fenômeno como uma espécie de “ateísmo” ou materialismo vulgar. O que se observa, na verdade, é uma espécie de naturalização do sagrado. Uma ideia de imanentização do transcendente que dispensa a própria distinção entre o natural e o sobrenatural.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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