O terror do Túnel

Desde que assisti a Backrooms, comecei a prestar mais atenção à maneira como a arquitetura pode funcionar como um instrumento do horror. O filme foi menos uma revelação de um medo específico do que um ponto de partida para perceber que determinadas estruturas arquitetônicas parecem carregar, por si mesmas, um potencial inquietante. Corredores intermináveis, escadas, portas, passagens estreitas e outros espaços de circulação frequentemente despertam uma ansiedade que antecede qualquer ameaça concreta. Antes mesmo de algo acontecer, a própria configuração do ambiente já é suficiente para produzir uma sensação de desconforto.

Desde então, tenho tentado identificar alguns padrões dessa linguagem arquitetônica do horror. Aos poucos, percebi que diferentes estruturas parecem evocar formas distintas de medo. Entre todas elas, uma passou a chamar especialmente minha atenção: o túnel.

Lembro-me de um dos primeiros momentos em que esse tipo de terror se tornou evidente para mim. Foi no segmento “O Túnel”, do filme Sonhos, de Akira Kurosawa.

Nesse sonho, um oficial do exército japonês caminha sozinho até se deparar com um túnel.

Prestes a entrar, é recebido por um cão raivoso, que o ameaça com latidos agressivos.

Mesmo assim, segue em frente.

Ao sair do outro lado, ouve passos atrás de si.  Trata-se de um yūrei (fantasma) de um dos soldados que estiveram sob seu comando durante a guerra.

Incapaz de aceitar a própria morte, o soldado precisa ser convencido pelo oficial de sua condição antes de retornar à escuridão do túnel.

Quando acredita que tudo terminou, o comandante vê um pelotão inteiro, que também esteve sob seu comando, marchando para fora do túnel em sua direção. Mais uma vez, tenta explicar que todos estão mortos, enquanto expressa a culpa profunda que carrega por tê-los conduzido aquela situação.

Esse é, para mim, um dos segmentos mais aterrorizantes de Sonhos.

O túnel, nesse segmento do filme, funciona como um portal, um limiar entre o mundo dos vivos e o dos mortos.

O que mais me chama a atenção, porém, é que antes mesmo do oficial atravessar o túnel, antes de surgir o primeiro fantasma ou qualquer outro elemento sobrenatural, eu já sentia uma ansiedade difícil de explicar. Intuí imediatamente que a mera presença daquele túnel iria conduzir a história numa direção sombria.

É justamente esse tipo de sensação que proponho chamar de “terror de túnel”.

Embora compartilhe diversos aspectos com o terror dos espaços liminares, especialmente com a inquietação claustrofóbica provocada pelos corredores, acredito que ele possua uma gramática própria.

O corredor costuma revelar seu destino. Ainda que longo ou labiríntico, ele permite entrever o espaço que conecta. O túnel, por outro lado, rompe essa continuidade. Sua curva, sua profundidade ou sua escuridão ocultam completamente o que existe além.  Entrar nele significa aceitar uma travessia cujo destino permanece incerto.

Talvez seja justamente por isso que os túneis despertem uma ansiedade tão particular. Eles não são apenas espaços de passagem. São espaços de suspensão, onde a imaginação ocupa aquilo que a visão não alcança. Nesse sentido, não apenas pertencem à categoria dos espaços liminares, mas parecem expandi-la, acrescentando uma dimensão de mistério, expectativa e ruptura que poucas outras estruturas arquitetônicas conseguem produzir.

Miniatura medieval intitulada "Boca do Inferno", parte do manuscrito Horas de Catarina de Cleves, 1440.
Miniatura medieval intitulada “Boca do Inferno”, parte do manuscrito Horas de Catarina de Cleves, 1440.

O Útero Monstruoso

Voltar ao útero pode, em certos momentos, significar o retorno a uma forma primordial de conforto. Um desejo de regressar ao estado anterior à separação, ao sofrimento e à própria consciência de si.

Mas o útero também pode significar exatamente o contrário.

Ele pode representar a ameaça de um retorno à não-existência, a ansiedade de um “des-nascimento”. Não mais o abrigo da vida, mas o lugar onde o indivíduo corre o risco de ser aniquilado.

É justamente nesse ponto que o túnel revela sua força simbólica. Ele se transforma em uma espécie de útero monstruoso, uma força regressiva que ameaça anular o “eu”, essa coisa tão valiosa (especialmente no Ocidente).

Se o nascimento é uma expulsão violenta em direção à luz, ao mundo e à individualidade, o túnel encena o percurso inverso. Entrar nele é aceitar uma travessia rumo à dissolução. Não apenas a dissolução do corpo, que some na escuridão, mas da própria identidade. Há algo profundamente inquietante na possibilidade de deixar de existir não porque se morreu, mas porque se regrediu a um estado anterior ao próprio nascimento.

Existe, talvez, um medo metafísico da regressão. Um medo de voltar à indiferenciação absoluta, onde consciência, memória e identidade deixam de existir. O túnel seria, então, a imagem arquitetônica desse paradoxo: um lugar que lembra o nascimento justamente por sugerir o seu contrário.

Otto Rank via no nascimento o primeiro e mais violento trauma da experiência humana. Atravessar um túnel parece reativar simbolicamente esse trauma. É impossível não reconhecer no canal escuro, estreito e compressivo uma lembrança do canal de parto. Mas, aqui, não se nasce. Desnasce-se.

Por isso, talvez o verdadeiro horror do túnel não esteja apenas em sua escuridão ou em sua profundidade, mas naquilo que ele parece prometer. Ele deixa de ser apenas uma passagem para se tornar o arquétipo da Mãe Terrível, ou da Grande Mãe Devoradora descrita por Erich Neumann. A umidade constante, o calor abafado, a água que escorre pelas paredes e o eco ritmado, que lembra de forma grotesca os batimentos cardíacos maternos, convertem o interior do túnel em uma placenta hostil. Um ventre que já não nutre. Um ventre que devora. Um ventre que chama o indivíduo de volta não para protegê-lo, mas para apagar a sua existência.

O Terror de Túnel na Cultura Pop

O cinema e a literatura de horror exploram repetidamente essa estrutura para produzir um desconforto que é, ao mesmo tempo, somático e existencial.

O Enigma da Fenda de Amigara, de Junji Ito, talvez seja a tradução mais literal e perturbadora desse conceito.

Na história, um terremoto atinge uma montanha no Japão e revela uma imensa fenda na rocha. Em sua superfície há milhares de cavidades escavadas na forma de silhuetas humanas. Pessoas de todo o país passam a sentir um chamado obsessivo e inexplicável para visitar o local. Ao chegarem, cada uma encontra “o seu próprio buraco”, uma abertura que corresponde exatamente às proporções do seu corpo. Dominadas por uma compulsão irresistível, elas se despem e entram nesses túneis, deslizando para a escuridão sem qualquer possibilidade de retorno. Apenas a saída do outro lado da montanha revela seu destino: a pressão incessante da rocha deformou seus corpos, transformando-os em criaturas grotescas.

A força dessa imagem está justamente na natureza do percurso. O túnel é estreito, opressivo e unidirecional. As pessoas entram caminhando, mas, à medida que avançam, são comprimidas, alongadas e lentamente desumanizadas pela própria montanha. Ao final da travessia, perderam não apenas sua forma física, mas qualquer vestígio de identidade. Trata-se de uma poderosa imagem do “des-nascimento”: um processo irreversível em que o indivíduo deixa de existir como sujeito para emergir como outra coisa.

A mesma lógica aparece em Alien: O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Os corredores da Nostromo e, sobretudo, o interior da nave alienígena abandonada possuem uma arquitetura deliberadamente biomecânica e uterina. A descida dos personagens aos níveis inferiores assume a forma de uma penetração em um organismo monstruoso, um ventre que não gera a vida, mas a captura, a digere e a substitui por outra espécie.

A Travessia Ontológica

É interessante notar como esse horror difere daquele encontrado em Backrooms. Nas Backrooms, a ansiedade nasce do eterno retorno, da repetição interminável de corredores e salas vazias. O sujeito permanece perdido, mas continua sendo ele mesmo. O terror do túnel uterino opera de outra maneira. O que está em jogo já não é a possibilidade de nunca encontrar uma saída, mas a ameaça de deixar de existir como indivíduo.

Ao entrar no túnel, tempo e espaço parecem se comprimir. Privado de referências visuais, o cérebro perde progressivamente a capacidade de distinguir onde termina o próprio corpo e onde começam as paredes. A travessia deixa de ser apenas espacial para se tornar ontológica. Não se trata apenas de caminhar por um lugar escuro, mas de ser lentamente reabsorvido por uma matéria primordial. O horror não está em morrer dentro do túnel. Está em deixar de ser alguém antes mesmo de alcançar o outro lado.

Indicações de Curta-Metragens

A ideia deste ensaio não é esgotar o tema, mas sugerir um caminho de leitura. O “terror de túnel” não constitui um gênero nem uma convenção rígida. Trata-se de um conjunto de imagens, símbolos e estruturas narrativas que reaparecem, sob diferentes formas, ao longo da história do horror. Por isso, reuni abaixo dpos curta-metragens que, cada um à sua maneira, exploram esse imaginário

THE TUNNEL (Alex Spear & Andrew Clabaugh)

A história acompanha um homem que, durante uma corrida casual, decide cortar caminho atravessando um túnel de pedestres aparentemente comum. O que deveria ser uma travessia rápida de poucos metros se transforma em um pesadelo interminável. Conforme ele avança, a saída parece se afastar. O protagonista percebe que está preso em um looping ou distorção espacial onde a ajuda externa está sempre visível, mas fora de alcance.

Aqui vemos a ideia do túnel como ilusão de infinito.

Nós fomos programados para entender o túnel através de uma lógica geométrica simples: uma entrada, uma saída, uma linha reta. Quando essa lógica quebra, o terror se instala.

Diferente das Backrooms, onde você está perdido em um labirinto cego e não sabe para onde ir, em The Tunnel o protagonista sabe exatamente onde está a liberdade. Ela está bem ali, emoldurada pela luz da saída.

Aqui horror nasce da proximidade inalcançável. O personagem corre em direção à luz, mas o espaço se dilata na mesma proporção. A saída visível deixa de ser uma promessa de salvação e passa a ser uma tortura psicológica.

Nós toleramos o esforço físico porque sabemos que passos geram deslocamento. Quando o protagonista corre e a paisagem não muda, o filme anula a física e a nossa agência sobre a realidade.

Tunnelen (André Øvredal)

Tunnelen (conhecido internacionalmente como The Tunnel) é um premiado curta-metragem norueguês de ficção científica distópica lançado em 2016. Escrito e dirigido pelo consagrado cineasta André Øvredal — conhecido por longas como O Caçador de Troll e A Autópsia de Jane Doe —, o projeto adapta o conto literário de 1961 “The Tunnel Ahead”, da autora norte-americana Alice Glaser.

A história se passa em um futuro superpovoado. Uma família comum está voltando para casa após passar o dia em uma praia artificial altamente controlada. Viajando em um carro autônomo por uma rodovia congestionada, eles precisam cruzar um gigantesco túnel, que é a única entrada para a metrópole onde vivem.

O horror da premissa se revela gradualmente: para conter a superpopulação global, o governo utiliza o fechamento aleatório desses túneis como método de eutanásia em massa. Se o sinal vermelho acender e as portas se fecharem enquanto você estiver lá dentro, o gás é liberado e você é eliminado para que a sociedade continue sustentável. A tensão do curta foca no desespero da família avançando lentamente no trânsito engarrafado enquanto o cronômetro do túnel corre.

Diferente de regimes totalitários clássicos de Hollywood, a população aceita a roleta russa demográfica como um “pedágio” ou uma medida burocrática normal e necessária para a sobrevivência do planeta.

Uma voz feminina narra de forma mansa e corporativa as instruções de trânsito e o funcionamento do sistema de redução populacional, gerando um contraste assustador com a iminência da morte.

Apesar de ser um curta de 14 minutos, a computação gráfica entrega cenários urbanos brutais e futuristas impressionantes.

O curta circulou por grandes festivais mundiais de cinema fantástico e conquistou honrarias como o Méliès d’Argent de Melhor Curta-Metragem Europeu no Festival de Cinema Fantástico de Estrasburgo e o Prêmio do Júri de Melhor Curta Internacional no Monster Fest.

Esse curta-metragem é um sci-fi de horror biopolítico que retratar um túnel de trânsito como um “útero estatal” (monstruoso) que realiza a eutanásia em massa, funcionando como um mecanismo de digestão humana. A narrativa intensifica a ideia de “útero devorador” através da claustrofobia, do controle estatal e da inação da família presa em um carro autônomo.

A Arquitetura do Medo

No fim das contas, talvez o horror nunca tenha dependido apenas dos monstros. Antes deles, existem os espaços. Existem arquiteturas que parecem despertar medos anteriores à própria narrativa, como se certas formas fossem capazes de ativar, por si mesmas, estruturas profundas do imaginário humano.

Foi essa impressão que procurei explorar ao longo deste ensaio. Se corredores, escadas e outros espaços liminares já carregam uma inquietação inerente por representarem a suspensão entre um lugar e outro, o túnel parece radicalizar essa experiência. Ele não apenas conecta dois mundos. Ele rompe a continuidade da percepção, estreita o corpo, limita a visão, absorve a luz e transforma a travessia em uma experiência de regressão.

Talvez seja por isso que tantos filmes, jogos, mangás e obras literárias recorram a essa imagem. O túnel não funciona apenas como um cenário. Ele é uma máquina simbólica. Sua arquitetura organiza a experiência do medo antes mesmo que qualquer ameaça se manifeste. Atravessá-lo significa aceitar uma transformação cujo resultado permanece invisível até o último instante.

Mas talvez seu aspecto mais perturbador seja outro. O túnel parece inverter o gesto fundador da própria existência. Se nascer é ser lançado ao mundo, atravessar um túnel frequentemente sugere o movimento contrário: um retorno ao interior, à escuridão, à indiferenciação. Não ao ventre acolhedor da vida, mas a um útero monstruoso que já não protege, apenas absorve. Um espaço onde a identidade corre o risco de ser desfeita antes mesmo da morte.

Naturalmente, essa é apenas uma entre muitas formas possíveis de interpretar essa imagem. O “terror de túnel” não pretende substituir outras leituras do horror arquitetônico, nem constituir uma categoria definitiva. É, antes, uma proposta de observação. Um convite para perceber que determinadas estruturas espaciais parecem possuir uma gramática afetiva própria e que a arquitetura, tanto quanto os monstros, também é capaz de produzir medo.

Talvez, da próxima vez que um personagem hesitar diante da entrada de um túnel, a cena pareça diferente. Talvez o desconforto não venha da expectativa de que algo esteja escondido na escuridão, mas da sensação de que, ao cruzar aquele limiar, alguma parte de si jamais retornará.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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