Há um trecho no livro Helena, de Machado de Assis, que apresenta um breve diálogo sobre política entre Estácio (um dos personagens principais do romance) e o Dr. Camargo (um dos personagens secundários).
Não me parece algo essencial para o fio narrativo principal da história — é apenas um diálogo que serve para acentuar algumas características dos personagens em questão. No entanto, esse pormenor acaba me chamando muito a atenção, pois nele encontro um pouco mais do próprio Machado de Assis traduzido.
Costumo me atentar mais a esses detalhes do que à própria trama em si, algo que, inclusive, chega a atrapalhar meu fluxo de leitura.
Na conversa, o Dr. Camargo tenta persuadir Estácio a entrar para a vida política. Eles têm uma breve troca sobre convicções ideológicas — mais especificamente, sobre a necessidade (ou não) de tê-las.
Machado de Assis expõe a vida política brasileira como uma carreira e descreve com precisão a fisiologia da vida pública — uma descrição que continua incrivelmente atual.
Estácio diz ao Dr. Camargo que ainda não tem ideias definidas, e este lhe responde:
“Se não tem ideias, que importa? Grande número de jovens políticos seguem, não uma opinião examinada, ponderada e escolhida, mas a do círculo de suas afeições, a que os pais ou amigos imediatos honraram e defenderam, a que as circunstâncias lhes impõem. Daí vêm algumas legítimas conversões posteriores. Tarde ou cedo, o temperamento domina as circunstâncias da origem.”
E completa:
“Demais, política é ciência prática; e eu desconfio de teorias que só são teorias. Entre primeiro na câmara; a experiência e o estudo dos homens e das coisas lhe designarão a que lado se deve inclinar.”
O debate público e a vida política no Brasil (e talvez no mundo) são, muitas vezes — talvez na maioria das vezes — apenas uma demarcação de território. Ter uma opinião é muito menos uma questão de convicção do que uma forma de sinalização para o seu círculo de afeições.
E não pense que estou fora dessa lógica. Quase sempre estou buscando aprovação aqui. Quero concordância antes do debate. Dito isso, nenhuma opinião minha aqui é corajosa. Na maioria das vezes, opino dentro de uma zona de conforto, esperando o máximo de concordância possível. Calculo todas as minhas palavras com esse fim. Posso garantir que vocês realmente não me conhecem.
Só me sinto livre para opinar fora desse contexto do diálogo. Tenho tentado escrever alguns contos e textos de ficção (ainda muito insipientes e sem prazo para terminar) porque, talvez como Machado, só me sinto à vontade para emitir opiniões por meio do disfarce literário — um espaço onde posso me fragmentar em personagens e dissolver minhas ideias dentro de uma narrativa.