Como a ética odínica do sacrifício e do êxtase foi reinterpretada, estetizada e, por fim, instrumentalizada na formação da mentalidade guerreira alemã
Odin-Wodan e a sacralização da guerra
Odin-Wodan é o deus da sabedoria suprema e da magia rúnica na tradição nórdica. Já comentamos, neste artigo, seus aspectos sacerdotais e xamânicos.
Passemos agora ao seu aspecto mais conhecido, o de deus da guerra, e à maneira como ele se articula com a ética do ser germânico.
Tanto Mircea Eliade, no segundo volume de História das Crenças e das Ideias Religiosas, quanto o filólogo francês Georges Dumézil, em Mythes et dieux de la Scandinavie ancienne, lembram que “na ideologia e na prática dos germanos, a guerra tudo invadiu, tudo coloriu” (Dieux…, p. 65).
A guerra, nas sociedades tradicionais e, sobretudo, entre os antigos germanos, constitui um ritual justificado por uma teologia. Dá-se, antes de tudo, a assimilação do combate militar ao sacrifício. Tanto o vencedor quanto a vítima oferecem ao deus uma oferenda cruenta. Por conseguinte, a morte heroica torna-se uma experiência religiosa privilegiada.
O campo de batalha não era um espaço de anomia (ausência de leis), mas um espaço litúrgico.
Odin não é apenas um general; ele é o sumo sacerdote da batalha. Na mentalidade germânica, o combate era concebido como um processo de sacrifício coletivo. O “vencedor” não triunfava apenas por mérito técnico, mas porque Odin “aceitava” o sacrifício da vítima.
A prática de lançar uma lança sobre o exército inimigo antes do combate, gritando “Odin dispõe de todos vós!” (Óðinn á yðr alla), transformava formalmente os adversários em oferendas consagradas ao deus.
Dumézil destaca ainda a função do “furor” (a Wut alemã, raiz de Wotan). A ética germânica valorizava o berserkergang, o estado de transe no qual o guerreiro, possuído pelo espírito de Odin, transcendia a condição humana.
Nesse estado, o guerreiro deixava de ser um indivíduo para se tornar uma força da natureza. A guerra constituía a via pela qual o homem alcançava o divino por meio do excesso e do êxtase, e não pela moderação.

Essa “experiência religiosa privilegiada” culminava no Valhalla. Para o germânico, a morte comum, por doença ou velhice, a chamada “morte de palha”, representava uma tragédia espiritual.
Um ponto fascinante em Dumézil é a natureza “caprichosa” de Odin. Como deus da guerra, ele não é necessariamente fiel. Ele pode trair seus favoritos no último momento para que morram e se juntem ao seu exército no além.
Isso moldou uma ética de aceitação do destino. O guerreiro lutava não apenas para vencer, mas para “cair bem”, ciente de que a vontade de Odin, o destino (Wyrd), era soberana e frequentemente incompreensível.
Essa aparente traição, segundo Eliade, atendia à necessidade de reunir ao seu redor os combatentes mais temíveis, tendo em vista a batalha escatológica do Ragnarök, o fim do mundo na mitologia nórdica.
A guerra era, portanto, o mecanismo de seleção de uma aristocracia espiritual. O conflito funcionava como forja da alma.
Segundo a Ynglinga Saga, ou Saga dos Inglingos, os companheiros de Odin “iam sem couraça, selvagens como cães ou lobos, mordiam os escudos e eram fortes como ursos e touros. Chacinavam os homens, e nem o fogo nem o aço tinham contra eles o menor poder. Chamava-se a isso furor dos berserkers” (literalmente, os “guerreiros com capa (serkr) de urso). Eram também conhecidos como ulfheðnar, “homens de pele de lobo”.
A condição de berserker, ou ber-serkr, era alcançada por meio de um combate iniciatório. Entre os catos, escreve Tácito em Germania, 31, o postulante não cortava os cabelos nem a barba antes de haver matado um inimigo. Entre os taifalos, povo de origem germânica ou sármata registrado pela primeira vez ao norte do baixo Danúbio em meados do século III, o jovem devia abater um javali ou um urso. Já entre os hérulos, povo germânico originário da Escandinávia e ativo entre os séculos III e VI, exigia-se que combatessem sem armas.
Por meio dessas provas, o postulante apropriava-se do modo de ser de uma fera. Tornava-se um guerreiro temível na medida em que se comportava como um carnívoro. As crenças na licantropia, obtida quando se veste ritualmente uma pele de lobo, tornaram-se extremamente populares na Idade Média e, nas regiões setentrionais, estenderam-se até o século XIX.

De Ernst Jünger a Thomas Mann até o Nazismo
Embora seja necessário distinguir continuidade cultural de instrumentalização ideológica, é possível entender que a própria máquina de guerra alemã moderna é, em parte, tributária dessa herança.
O resgate do mito de Wotan/Odin foi um elemento relevante na construção da identidade militar alemã moderna, especialmente por meio de três vertentes: o romantismo e o chamado “despertar de Wotan”; a mística do sacrifício e o Frontgeist; e, por fim, a instrumentalização nacional-socialista.
No século XIX e no início do XX, intelectuais alemães buscaram nas raízes germânicas uma alternativa à moralidade judaico-cristã, que consideravam “fraca”. O filósofo Friedrich Nietzsche e, mais tarde, o psicólogo Carl Jung discutiram como o arquétipo de Wotan, associado à fúria, ao nomadismo e ao ímpeto guerreiro, ainda pulsava no inconsciente coletivo alemão.
Jung chegou a escrever, em 1936, que “o deus dos alemães é Wotan, e não o Deus cristão”, descrevendo o nazismo como uma espécie de possessão coletiva por esse arquétipo de tempestade e fúria.
Na Primeira Guerra Mundial, a ética da “morte heroica” foi reativada. O conceito de Heldentod transformou o massacre das trincheiras em um rito de purificação nacional. Autores como Ernst Jünger, em Tempestades de Aço, descreveram a guerra de maneira quase mística, muito próxima da leitura de Eliade: o combate como experiência interior capaz de transmutar o homem em algo superior, o “homem de aço”, ecoando o ideal do guerreiro de Odin.

Nesse sentido, pode-se dizer que Jünger, mais do que qualquer outro, estetizou a ética mística germânica da guerra. Já Thomas Mann, embora inicialmente simpático a esse horizonte, começou progressivamente a se mostrar desconfortável com suas implicações, sobretudo por perceber que tal visão elevava a barbárie à condição de virtude.
O soldado de Jünger não é um cidadão que defende fronteiras, mas um “operário da morte”, alguém que encontra, no paroxismo da violência, uma verdade existencial que o mundo burguês tende a ocultar.
Ele descreve a metralha, o sangue e as crateras com uma beleza fria, quase geométrica. A ética odínica, nesse contexto, aparece secularizada: o êxtase, a Wut, já não provém de um deus, mas da própria técnica e da experiência do perigo extremo. Para Jünger, o valor não reside no motivo da luta, mas na intensidade do sacrifício.
O percurso de Thomas Mann pode ser lido como um espelho das tensões da alma alemã nesse período.
Em Considerações de um Apolítico, Mann defendeu a Kultur alemã, entendida como profunda, trágica e guerreira, em oposição à Civilisation francesa, vista como superficial, racionalista e burguesa. Ele via na guerra um elemento “purificador”, capaz de romper com a monotonia mercantilista, o que o aproximava da mística germânica do combate.
Com o tempo, no entanto, Mann percebeu que essa glorificação do trágico e do irracional, que ele próprio associou a figuras como Nietzsche e Wagner, abria caminho para uma barbárie sem mediações.
Ao elevar o sacrifício cruento e o furor bélico ao estatuto de virtude suprema, o indivíduo acabava aniquilado. Aquilo que, para Jünger, representava uma forma de elevação, tornou-se, para o Mann maduro, uma “embriaguez demoníaca”. Ele passou a reconhecer o perigo de transformar o atavismo odínico em programa político, o que o conduziu a um afastamento tanto físico quanto intelectual.

Enquanto Jünger via no “retorno à barbárie” uma possibilidade de superação do niilismo, Mann percebeu que essa mesma barbárie, desprovida de freios humanistas, não produzia semideuses, mas sim destruição sistemática.
Do ponto de vista histórico, essa inflexão de Mann mostrou-se particularmente significativa.
Durante o Terceiro Reich, o regime nazista apropriou-se deliberadamente da simbologia nórdica antiga para moldar tanto a ética do partido quanto a sua metafísica.
Heinrich Himmler transformou a SS (Schutzstaffel) em uma espécie de nova ordem de “nobres guerreiros”, inspirada nos Männerbünde, fraternidades masculinas germânicas associadas ao culto de Odin.
O uso da runa Sig, símbolo de vitória, e o culto à ancestralidade funcionavam como tentativas de conectar o soldado moderno a uma teologia do sacrifício cruento.
A estética da caveira, o Totenkopf, e a ideia de que a derrota total seria preferível à rendição desonrosa refletem uma distorção do mito do Ragnarök, a batalha final na qual os deuses enfrentam a destruição com plena consciência de seu destino.
Os limites da sacralização da guerra
Se, na tradição nórdica, a guerra se apresentava como uma experiência religiosamente estruturada, integrada a uma visão de mundo na qual o sacrifício, o destino e o êxtase possuíam um lugar definido, a modernidade europeia operou um deslocamento decisivo desse horizonte. O que antes era inscrito em uma cosmologia tornou-se progressivamente matéria de interpretação, de estetização e, por fim, de instrumentalização.
A figura de Odin, com sua ambiguidade constitutiva, seu caráter ao mesmo tempo sacerdotal e guerreiro, inspirador e traidor, não desaparece. Ela é reinterpretada. Em autores como Jünger, seus traços são transpostos para o interior de uma experiência secularizada, na qual o êxtase já não depende do divino, mas da intensidade da técnica e do confronto extremo. A guerra deixa de ser um rito que conecta o homem ao sagrado e passa a ser um campo de experimentação existencial.
O problema emerge quando essa transposição perde seus limites simbólicos e se converte em programa político. A leitura que Mann progressivamente elabora aponta justamente para esse ponto de ruptura. Ao perceber que a exaltação do trágico, do irracional e do sacrifício absoluto poderia servir de fundamento para uma lógica de aniquilação, ele antecipa o perigo de uma cultura que, ao tentar reencontrar suas raízes míticas, acaba por dissolver os freios que tornam a vida coletiva possível.
O Terceiro Reich representa a culminação desse processo. Nele, elementos simbólicos oriundos de uma tradição religiosa complexa são simplificados, rigidificados e colocados a serviço de uma máquina ideológica. O que era ambivalente torna-se unívoco. O que era ritual torna-se doutrina. O que era experiência espiritual torna-se dispositivo de mobilização total.
Nesse sentido, a trajetória que vai do Odin arcaico ao seu reaproveitamento moderno não é apenas uma história de continuidade, mas de transformação e ruptura. Ela revela como formas simbólicas profundamente enraizadas podem ser deslocadas de seu contexto original e reconfiguradas de maneira radicalmente distinta.
A guerra, que em sua forma tradicional ainda conservava uma dimensão de limite e de sentido, torna-se, na modernidade, um fim em si mesma quando desprovida de mediações éticas e metafísicas consistentes. O resultado não é a elevação do homem ao divino, mas a sua redução a instrumento.
A leitura conjunta dessas duas camadas, a mítica e a histórica, permite compreender não apenas a força persistente dessas imagens, mas também o risco inerente à sua reativação acrítica. Entre o furor sagrado e a barbárie sistemática, há uma diferença fundamental que não pode ser ignorada. É precisamente nessa diferença que se decide o destino de uma cultura.
