Portugal, Espanha, Brasil e Japão

Resolvi tirar da estante um livro que tenho, mas nunca li por puro preconceito – um preconceito construído com base em opiniões alheias.

Decidi refundar minhas opiniões a partir do zero. Não mais falarei sobre algo sem antes compreendê-lo por mim mesmo.

Ah, sim: o livro em questão é Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.

Não darei um veredito aqui, primeiro porque não o terminei, e segundo porque quero confrontar a visão do autor com outras perspectivas sobre o Brasil.

Holanda analisa algo que talvez seja a característica mais evidente do país desde sempre: a bagunça. Ele a enxerga como um problema. Houve um tempo em que até a esquerda almejava ordem, e o autor busca diagnosticar essa questão, dialogando, ao que parece, também com vertentes conservadoras do pensamento brasileiro.

Para ele, a “falta de coesão em nossa vida social” não é um “fenômeno moderno”, fruto do questionamento ou da reversão de hierarquias – como bem afirma os conservadores. A raiz dessa “desordem genética” estaria numa peculiaridade do pensamento ibérico.

A explicação é simples como uma olhada no mapa.

A princípio, essa justificativa cartográfica me pareceu excêntrica; depois, curiosa. Agora, confesso, quase me convence.

Portugal e Espanha (e até a Holanda) são zonas fronteiriças entre a Europa e o mundo. Países marcados por um conflito simbólico entre terra e mar, entre estabilidade e aventura – e, por extensão, entre a estima da ordem e certo desejo de anarquia.

A Inglaterra também poderia entrar aqui, mas os ingleses não são estritamente europeus. Seu caso é único e merece análise à parte.

Holanda argumenta que um “retorno à tradição” não resolveria nosso “problema”, a menos que esse retorno rejeitasse parte da herança que nos fundou como nação.

Não creio que ele esteja totalmente errado ao afirmar que a “modernidade” está no DNA ibérico – ainda que o “medievalismo” também se faça presente. Não os chamaria de modernos, mas de tradicionais de um tipo peculiar, distinto do resto da Europa.

Portugal, por exemplo, nunca teve uma aristocracia fechada. Houve um constante intercâmbio entre classes: os nomes da nobreza circulavam entre pessoas das mais variadas condições, o que, em certa medida, escandalizava outras nações.

A fidalguia, garantida pelas Ordenações, estendia-se a todas as profissões, desde oficiais industriais até arrendatários rurais. A burguesia urbana e até os labregos se contagiavam pela cultura palaciana de títulos e honrarias.

Minha única crítica é que essas honras eram negadas a quem vivia de “trabalhos mecânicos” – o que explicaria nossa hipervalorização da burocracia e do diploma. Essa é uma herança que deveríamos descartar; o resto, podemos abraçar sem culpa.

Essa distorção, inclusive, poderia ser corrigida “à moda brasileira”, como fez Machado de Assis em sua “teoria do medalhão”.

Sérgio Buarque de Holanda também menciona que até a alimentação do povo pouco diferia da dos nobres. Estes não só comiam com os populares, como lhes confiavam a criação dos filhos – o amadágio, honra concedida a quem educava os filhos da realeza.

Embora depois isso tenha degenerado em privilégios para os “amigos do rei”, a ideia de camaradagem entre classes é positiva – algo que deixaria qualquer marxista louco da vida.

Não se pode negar que isso gerou frutos. A capacidade ibérica de adaptação a novos formatos colocou Portugal e Espanha à frente de outros Estados europeus, criando unidades políticas e econômicas modernas.

A burguesia ibérica não enfrentou as mesmas barreiras que em regiões feudais da Europa. Por isso, não precisou ser revolucionária nem criar novos valores para afirmar seu domínio. Os elementos aristocráticos não foram totalmente excluídos: havia nobres entre plebeus e burgueses, mas as distinções persistiam. Portugal e Espanha equilibravam-se entre o moderno e o medieval.

A aventura portuguesa foi também uma afirmação da liberdade, um manifesto pelo livre-arbítrio contra predestinações – uma correção aos erros teológicos em que a cristandade se afundava no interior do continente.

Isso os colocou à frente da Europa, mas também os estagnou. Portugal e Espanha eram modernos demais para a Europa medieval e, com o tempo, medievais demais para a Europa moderna. Países suspensos entre passado e futuro.

O Japão, nação que hoje admiro, também é uma nação estagnada, indeterminada entre passado e futuro.

Eu diria que eles foram “ibéricos” a sua maneira. Só falta aos japoneses abandonarem a ética de trabalho suicida – que impulsiona sua economia, mas os consome na mesma medida e que oblitera hoje seu futuro; se nada acontecer, será um país fadado a desaparece.

Acho que os japoneses poderiam reaprender a digna, nobilitante e católica arte da ociosidade e da contemplação – como faziam no glorioso Período Heian.

Toda correria precisa de um descanso.

De qualquer forma, estagnar com IDH alto, ordem e segurança (descobri que Portugal é ainda mais seguro que o Japão) não me parece um problema.

O perigo está em o descanso virar preguiça.

Num mundo ideal, o espírito ibérico não preguiçoso de aventura e conquista poderia dissolver as tensões artificiais entre modernidade e tradição, entre terra e mar, entre Oriente e Ocidente, já que sua essência é a indefinição de fronteiras.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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