No capítulo onze de seu novo livro, Contra a Máquina, Paul Kingsnorth apresenta seu amigo Mark, com quem mantém uma amizade de décadas. Ambos circularam pelos mesmos ambientes neopagãos, anarquistas e hippies radicais, e essa relação resistiu inclusive à conversão de Kingsnorth à Ortodoxia.
Hoje, Mark vive em uma cabana que construiu quase inteiramente sozinho, com a ajuda de alguns amigos. Não usa eletricidade, não tem telefone, coleta água de um riacho e sequer aceita ser fotografado. “Para muitas pessoas”, observa Kingsnorth, “esse tipo de puritanismo parece, no mínimo, excêntrico e, no pior dos casos, fanático. Mas a maioria jamais refletiu seriamente sobre o domínio que a tecnologia exerce sobre nós, como Mark fez.”
Mark se considera um revolucionário, embora não espere uma revolução. “Vinte anos atrás, lutávamos para salvar a natureza da destruição”, diz ele. “Agora parece que lutamos apenas para ficar longe das telas o dia inteiro.” Ainda assim, como resume Kingsnorth, seu objetivo é simples: “construir uma fronteira em torno de sua humanidade”.
Nesse sentido, Mark leva a sério o desafio clássico de E.F. Schumacher em O Pequeno é Bonito, citado no capítulo nove: “O que eu posso fazer, de fato?” A resposta, diz Schumacher, é desconcertantemente simples — colocar a própria casa interior em ordem.
Leitores do boletim The Abbey of Misrule reconhecerão esses temas. Kingsnorth tem um interesse antigo pelos “santos selvagens” da Grã-Bretanha e da Irlanda, místicos que, no primeiro milênio, buscavam refúgio em florestas e ilhas remotas. Alguns eram locais; outros vieram do Egito e da Armênia, fugindo da superlotação espiritual do Sinai em busca de um novo deserto no extremo norte.
Kingsnorth se coloca nessa linhagem — assim como Padre Seraphim Rose, a quem ele chama, em artigo para The Free Press, de “padroeiro dos americanos perdidos”. A descrição do mosteiro fundado por Rose em Platina, Califórnia, nos anos 1960, remete imediatamente à cabana de Mark: simples, austero, construído à mão com madeira reaproveitada e totalmente isolado — sem água encanada, eletricidade ou telefone, mas com abundância de ursos e cascavéis.
Kingsnorth examina esse modo de vida radical:
Ele vivia uma vida severa e ascética em uma pequena cabana de madeira que ele mesmo construiu, dormindo sobre tábuas, nunca cortando o cabelo ou a barba, jejuando regularmente e dedicando-se à oração. Era uma existência austera, mas que parecia energizá-lo. Ele experimentava o paradoxo central do cristianismo ascético: quanto mais nos sacrificamos e simplificamos nossa vida, mais liberdade e alegria encontramos. Quanto menos apegados ao mundo, mais próximos de Deus.
Alguns críticos veem nisso primitivismo ou pessimismo e, por isso, perdem o ponto central. Antes mesmo de Cristo iniciar seu ministério, João Batista já pregava renúncia e arrependimento. E o próprio Cristo disse ao jovem rico: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres… depois vem e segue-me”. Muitos tentam restringir essa passagem ao caso daquele jovem, mas Cristo também compara o Reino ao comerciante que, ao encontrar uma pérola de grande valor, vende tudo para adquiri-la.
Ao longo da história cristã, homens e mulheres levaram essas palavras ao pé da letra: Maria do Egito, Moisés, o Negro, Macrina, Bento de Núrsia, Francisco de Assis, Gregório Palamas, Sérgio de Radonezh, José, o Hesicasta, Serafim de Platina — entre muitos outros. Não significa que Kingsnorth seja um asceta desse calibre (embora quem poderia afirmar o contrário?). Mas todos compartilham algo essencial: a recusa em diluir o Evangelho. Nesse aspecto, Kingsnorth se destaca entre os pensadores cristãos contemporâneos.
Contra a Máquina é, em última análise, um livro sobre o que significa ser discípulo de Cristo no Ocidente moderno. Isso pode parecer curioso, já que ele não se dirige explicitamente a um público cristão. Mas Kingsnorth vinha refletindo sobre essas questões muito antes de se converter. Mesmo como budista e wiccano, intuía que seu ambientalismo tinha raízes espirituais — melhor dizendo, religiosas. Em seu ensaio de conversão para a First Things, afirma que a rebelião contra Deus se transformou em rebelião contra a criação, contra a natureza humana e selvagem. Criamos um mundo globalizado, hiperconectado, digitalizado e monitorado — uma máquina para substituir Deus.
Com o tempo, percebeu que a escolha sempre foi a mesma: rendição ou rebelião; sacrifício ou conquista; morte do eu ou triunfo da vontade; a Cruz ou a Máquina.
Ele não reapresenta essa escolha em Contra a Máquina — apenas nos conduz de volta ao início. “Esta história começa em um jardim”, escreve no primeiro capítulo. O jardim é comunhão, simplicidade, humildade, dependência alegre de Deus e do próximo. Mas “escolhemos o conhecimento em vez da comunhão; escolhemos o poder em vez da humildade”. Foi no Jardim que o homem escolheu a Máquina pela primeira vez — e Deus, a Cruz.
Kingsnorth mostra como o Ocidente caminha novamente para essa encruzilhada. Com a queda da cristandade e o esgotamento do conservadorismo, restam aos cristãos apenas duas vias: ou multiplicamos a violência — contra nós mesmos, contra os outros, contra a criação — para preservar migalhas de poder; ou seguimos o caminho da renúncia, confiando na promessa de que os mansos herdarão a terra.
Este artigo é uma tradução do artigo The Borders of Our Humanity: A review of ‘Against the Machine’ by Paul Kingsnorth
