Aventureiros e Trabalhadores

Minha opinião: Algumas coisas que Sérgio Buarque de Holanda fala são bem interessantes, outras são associações fracas, não muito bem justificadas, e ainda outras me parecem completos disparates.

Das falas interessantes, destaco a descrição do perfil ibérico, que seria marcado pelo conflito entre a terra e o mar, entre o ser e o não-ser europeu.

Também gosto do reconhecimento que ele faz da irrealização do Brasil sem o trabalho dos escravizados, como era de se esperar de alguém de esquerda, mas reconhecendo também a influência da regência europeia no processo – coisa que ele não poderia admitir hoje em dia.

Das associações fracas ou disparatadas, posso citar, por exemplo, a afirmação de que o gosto pelo “ganho fácil” é fruto da nossa fundação baseada no ímpeto de aventura dos portugueses.

Para Sérgio Buarque de Holanda, há uma distinção entre os princípios do aventureiro e os princípios do trabalhador, que podem ser entendidos como um desenvolvimento entre povos caçadores ou coletores e povos lavradores.

O aventureiro, que ele descreve com admiração, ignora fronteiras e vive projetos vastos, de horizontes distantes.

O trabalhador, ao contrário, enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo de alcançar. Seu esforço lento, pouco compensador e persistente mede todas as possibilidades e tem seu campo visual naturalmente restrito. A parte maior que o todo.

Existe uma ética do trabalho e também uma ética da aventura, que são, em grande parte, antagônicas.

O trabalhador terá por imorais e detestáveis as qualidades do aventureiro – audácia, impertinência, irresponsabilidade, vagabundagem – tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo.

O aventureiro terá por estúpido e mesquinho o ideal do trabalhador, que orienta as energias à estabilidade, à paz, à segurança pessoal e aos esforços sem perspectiva de rápido proveito material.

Sérgio Buarque de Holanda salienta que essas são características que não devem ser compreendidas como absolutas ou radicais, pois, para ele, não existe povo ou indivíduo que seja aventureiro ou trabalhador em estado puro.

Há também a possibilidade de as circunstâncias valorizarem mais um ou outro princípio. Na obra de conquista e colonização dos novos mundos, obviamente, cabe ao “trabalhador” um papel muito limitado.

No primeiro momento, essa oposição entre aventura e trabalho não me parece real – como se não houvesse um esforço laborioso na aventura, e como se a estabilidade do trabalho não pudesse esconder uma satisfação imediata, nem que seja a satisfação imediata do controle e da previsibilidade (vou plantar agora para colher depois).

Ele, ao meu ver, elabora algumas premissas para si mesmo e conduz todo o seu pensamento partindo delas – sem ao menos investigar profundamente se elas fazem sentido.

Vejo nele, e não apenas nele, mas entre todos os historiadores e sociólogos, muito mais narrativa do que ciência. Para mim, história é literatura em cima de informações.

Até mesmo as coisas com as quais concordo em Sérgio Buarque de Holanda, como sua descrição do perfil ibérico em contraposição ao perfil europeu, eu aceito muito mais por força narrativa, por ser uma explicação elegante, do que por certeza absoluta. Sim, há alguns dados que corroboram, mas nada que me pareça ter o peso conclusivo de um fato inquestionável.

No entanto, alguns pensamentos parecem corroborar para um diagnóstico acertado.

O Brasil seria, segundo ele, fruto desse empreendimento aventureiro. Para ele, parte dessa ânsia por prosperidade sem custos, por títulos honoríficos, posições e riqueza fáceis, é fruto disso.

Há outros problemas que podem estar relacionados a esse ímpeto. Na colonização, existe o ímpeto da conquista e do estabelecimento – e o estabelecimento, no Brasil, seria marcado por certo desleixo.

Os portugueses eram exímios navegantes e conquistadores, mas não íntimos da terra.

Sérgio Buarque de Holanda diz que os portugueses queriam servir-se da terra, não como senhores, mas como usufrutuários – típicos de conquistadores. Faltava neles o senso de propriedade dos ingleses (e olha que irônico alguém de esquerda falar isso). Tanto que o desenvolvimento do emprego de arados, cultivadores, rodos e grades nas propriedades rurais paulistas veio com os fazendeiros oriundos dos estados confederados americanos, que imigraram para cá por volta de 1866 e trouxeram uma mentalidade mais industriosa, técnica e capitalista.

A lavoura no Brasil foi, até então, reflexo de uma mentalidade pré-capitalista: permaneceu longamente aferrada a concepções rotineiras, sem progressos técnicos que elevassem o nível de produção.

Sim, sempre fomos um gigante improdutivo.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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