O Van der Graaf Generator é, ao mesmo tempo, a banda mais pesada e mais lírica do rock progressivo inglês — muito por conta da influência de seu vocalista e principal compositor, Peter Hammill.
“After the Flood” exemplifica perfeitamente o perfil de Hammill como letrista.
É, inclusive, minha música favorita do disco The Least We Can Do Is Wave to Each Other — o que não significa, necessariamente, que eu subscreva seu significado.
A letra evoca a ideia do dilúvio nos moldes clássicos dos grandes mitos: um cataclisma que eclipsa o esplendor da civilização humana (“Humanity stumbles / Gone is the glory”), gerando um caos tão profundo que dissolve nossos referenciais e o próprio senso de direção (“There’s no North or South”).
Esse cataclisma, porém, adquire um caráter cíclico e renovador. A música enfatiza a recorrência dos ciclos existenciais, em que o fim já contém o germe de um novo início:
“This is the ending / Of the beginning / This is the beginning / Of the end“.
Contudo, Peter Hammill não apresenta o mito diluviano sob uma perspectiva ortodoxa; ao contrário, enfatiza uma leitura sombria e misantrópica do evento.
Tradicionalmente, os mitos do dilúvio possuem uma dimensão de purificação: o mal é expurgado, e o bem, preservado. Aqui, não há espaço para redenção.
Em After the Flood, a destruição é total. Justos e injustos submergem da mesma forma, independentemente de seus méritos, virtudes ou santidade. Não há um Utnapistim, o sobrevivente do dilúvio na Epopéia de Gilgamesh, tampouco um Noé, da tradição bíblica.
A repetição do verso “All is dead and nobody lives” reforça a ideia de uma extinção definitiva e irremediável.
O dilúvio retratado é uma força aniquiladora, lovecraftianamente indiferente. Não há redenção, e o eventual renascimento não possui qualquer dimensão espiritual ou simbólica — é meramente geológico: “Far off, the ice is now re-forming“. A humanidade, nesse cenário, é sublimada pelo não-ser.
Adoraria apresentar alguns autores ao Peter Hammill.
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