O período Andedeluviano, o Deus do homem e a fé de Abraão

Um dos períodos mais incríveis da história humana foi o período entre a cosmogonia e o dilúvio. A descrição deste período é tanto histórica quanto supra-histórica, e o mundo parecia se posicionar em algum lugar entre o físico e o espiritual, numa espécie de intersecção, na qual até mesmo o tempo era suspenso da realidade.

As descrições do cenário antediluviano eram incríveis: monstros marinhos e terrestres, dragões, gigantes, anjos copulando com humanos e tendo filhos, humanos vivendo 800 anos. Este seria o cenário onde a “primeira humanidade” teria se desenvolvido.

Os seus vestígios dessa “primeira humanidade” está no universo da memória coletiva. Encontram-se crenças análogas sumérias, arcadianas, gregas e indianas que se articulam na ideia de “primeira humanidade”. Os inúmeros deuses e demônios das religiões pagãs que iam e viam e se articulavam com o homem eram descritos como parte do quotidiano.

Os comportamentos e os relatos do que aconteciam eram sempre os mesmos em todas as culturas: cosmogonia, formação do homem, evocação a uma existência paradisíaca primordial, a queda, degeneração progressiva da primeira humanidade, dilúvio, criação da segunda humanidade, perda da unidade linguística e dispersão.

Nossa realidade se define na fase pós-diluviana como um fragmento do último estágio deste roteiro, como se vivêssemos de fato em escombros. Apesar da religião dos hebreus estar muitas vezes orientada na noção de “Terra Prometida”, suas crenças constantemente reforçam a efemeridade da matéria.

O que distingue o relato bíblico do relato de outras religiões do Oriente Próximo, segundo Mircea Eliade, é a relação pessoal de Deus com o homem. Desde Abraão, nos primeiros momentos da construção da identidade religiosa israelita, Deus é referido como o Deus de uma pessoa e não de um lugar. É o “deus de Abraão” (31:53), o “deus de teu pai Abraão” (26:24), o “deus de Isaac” (32:10), o “deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (32:34).

O “deus de Israel” é algo posterior. A ideia de eleição divina de um povo é, ainda, sujeita as promessas feitas a uma pessoa: Abraão. O povo de Abraão, sua descendencia, é sua propriedade pessoal.

O “deus do pai” é primitivamente o deus do antepassado imediato, que os filhos reconhecem. Poderíamos dizer que é o deus dos nômades, que não está ligado a um santuário, e sim a um grupo de homens – mais especificamente, é o Deus do homem.

Isso nos leva de volta ao mistério do dilúvio, onde Deus destruiu o mundo e salvou o homem.

Em troca disso, o homem se curva à disposição completa de Deus, dando a ele o sacrifício de sua própria vida e até de seus filhos, se isso for exigido. A disposição de Abraão em sacrificar seu próprio filho, Isaac, a mando de Deus, uma das passagens mais controversas do Antigo Testamento, certamente simboliza a obediência extrema da criatura para com seu criador, por meio de uma fé radical.

Abraão redefiniu o conceito de fé não apenas na ideia da disposição ao sacrificio de si, mas também no sacrifício daquilo que ele ama.

Além disso, o ato de sacrificio de Abraão redefiniu a fé numa luta entre confiança e angústia do porvir.

Mircea Eliade diz que Abraão não se preparava para sacrificar o filho tendo em vista um resultado preciso, tal como fez Mesha, o rei dos moabitas, ao sacrificar seu primogênitopara forçar a vitória (II Reis, 3:27); ou Jefté, que se comprometeu com Javé a ofertar-lhe em holocausto a primeira pessoa que, depois da vitória, lhe viesse ao encontro, sem imaginar que seria sua única filha (Juizes, 11:30).

O sacrifício que Deus pediu a Abraão não veio com uma intenção específica, ou estava circunscrita em alguma mágico-religiosa. Para Abraão, que não compreendia o pedido de Deus, o ato extremo soava gratuito. Tão gratuito que essa passagem não é descrita como um ritual e a cerimônia foi mínima.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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