Uma leitura weberiana sobre o distanciamento entre empregadores e empregados e a transformação das relações de trabalho na modernidade industrial
Sérgio Buarque de Holanda pode ser descrito como um pensador weberiano de esquerda. Sua leitura do capitalismo é crítica, mas não parte do mesmo ponto de vista que o marxismo. Em vez de enxergar a história apenas como luta de classes e disputa por posse dos meios de produção, Sérgio Buarque se interessa mais pelos modos de organização social, pelas formas de sociabilidade e pelos tipos ideais que moldam a cultura e o comportamento dos homens em sociedade.
Um ponto particularmente interessante em sua reflexão é a menção às corporações de ofício.
Na visão marxista, as corporações de ofício da Idade Média possuíam uma estrutura social mais complexa do que a divisão binária entre burguesia e proletariado, mas ainda assim apresentavam distinções claras de classe. Dentro dessas corporações havia mestres, oficiais e aprendizes. Os mestres detinham os meios de produção, controlavam os processos produtivos e exerciam autoridade sobre os demais. Já os oficiais e aprendizes representavam a força de trabalho subordinada.
A diferença essencial, no entanto, está na natureza das relações entre essas categorias. No contexto medieval, mestres, oficiais e aprendizes compartilhavam o mesmo espaço físico — muitas vezes o mesmo teto — e dividiam não apenas o trabalho, mas também as privações e os confortos do cotidiano.
Sérgio Buarque de Holanda observa que o sistema industrial moderno rompeu com essa lógica. Ao separar fisicamente empregadores e empregados, diferenciando cada vez mais suas funções e responsabilidades, o capitalismo industrial destruiu a atmosfera de intimidade que antes existia entre uns e outros. Esse distanciamento crescente foi o que estimulou os antagonismos de classe identificados pelo marxismo.
Portanto, o foco da análise não está apenas na posse dos meios de produção, mas no processo de diferenciação social e espacial que afastou os sujeitos entre si. A contradição de classes, segundo essa leitura, surge do rompimento das relações diretas de convivência e cooperação.
Um exemplo ilustrativo: o dono de uma pequena loja que trabalha diariamente ao lado de seus funcionários estaria mais próximo do modelo das antigas corporações de ofício. A convivência cotidiana mantém viva uma forma de relação pessoal, mesmo diante da hierarquia.
Por outro lado, as grandes corporações modernas criaram barreiras intermediárias que fragmentam a relação entre empregador e empregado. Gerentes, superintendentes, diretores, presidentes de empresas e conselhos administrativos formam uma cadeia que distancia o trabalhador da figura efetiva do dono. No topo dessa hierarquia está o acionista — um proprietário anônimo, despersonalizado e muitas vezes coletivo.
Eduard Limonov descreve o acionista como um “dono sem rosto”, uma figura difusa e impessoal que simboliza a abstração máxima da propriedade moderna. O capital deixa de ter um nome ou uma identidade concreta e passa a se manifestar como uma força impessoal, uma entidade que ninguém vê, mas todos servem.
Quando conseguimos identificar nominalmente o dono de uma megacorporação, provavelmente estamos apenas diante da parte visível de um sistema muito mais amplo e impessoal.
No Brasil, entretanto, esse tipo de abstração enfrenta resistência cultural. Nosso capitalismo é marcado por laços de pessoalidade, por pactos de honra, conchavos e relações domésticas herdadas de uma tradição patriarcal e patrimonialista. O “homem cordial” descrito por Sérgio Buarque de Holanda sente-se mais confortável dentro de uma economia que mantém traços familiares.
Por isso, o capitalismo brasileiro tende a rejeitar a ideia espectral do acionista e a aceitar de bom grado o modelo tradicional de patrões e empregados. A figura do “dono” — alguém reconhecível, que tem nome e rosto — ainda confere sentido às relações econômicas no país.
É possível afirmar, portanto, que o capitalismo anglo-saxão, fundado em valores impessoais, na racionalização das relações e em “virtudes antifamiliares”, nunca encontrou terreno fértil aqui. O Brasil prefere um capitalismo com sobrenome, um sistema que se ancora em vínculos pessoais e afetivos, ainda que isso comprometa sua modernização plena.