Os equívocos sobre a Odisséia

A Odisseia, diferentemente da Ilíada, é uma obra em que os deuses começam a esboçar algo além do capricho e da vaidade, e na qual o ser humano passa a ser visto como portador de uma espécie de dignidade.

Ao mesmo tempo, essa dignidade possui um custo: o de ser dotado de livre-arbítrio e responsável pelas próprias desgraças.

No início do Canto I, Zeus reclama da tendência de responsabilizar os deuses pelos sofrimentos humanos, argumentando que a própria insensatez dos mortais causa mais desgraças do que o destino.

Isso faz com que o núcleo das tragédias ceda um espaço generoso a elementos como a tolice e a imprudência.

Erros de julgamento, orgulho e impulsividade criam, muitas vezes, o próprio abismo do herói.

Na Odisseia, já não era mais possível culpar os deuses por tudo e não assumir alguma parcela de responsabilidade.

Essa maior proeminência do homem sobre o próprio destino fez com que a Odisseia caísse no gosto de análises reducionistas e acabasse desestruturada tanto por um historicismo, no qual autores afirmam que a obra é apenas o fruto histórico de uma Grécia específica, quanto por tendências modernas psicologizantes, cujos maiores representantes, a meu ver, são Carl Jung e Joseph Campbell.

Hoje, considero Jung e Campbell mais nocivos para a compreensão dos mitos do que o próprio Freud.

Quando Carl Jung e, especialmente, Joseph Campbell transformam o mito em um mapa da psique humana, ele deixa de ser uma realidade cosmológica e religiosa que molda o homem para se tornar apenas uma projeção da mente humana.

De repente, Atena deixa de ser uma deusa e passa a ser “uma metáfora para a inteligência humana”. A jornada de Odisseu é reduzida a um “processo de individuação”, e o confronto com os monstros passa a ser visto como um “confronto simbólico com a própria sombra”.

Isso é, para mim, reduzir a literatura clássica a uma alegoria barata, na qual cada elemento possui uma tradução exata em um glossário de psicologia.

Sou mais inclinado a concordar com uma visão mais eliadeana.

Sim, há uma dimensão histórica, psicológica, social e política nessas obras, mas há também uma dimensão hierofânica.

A ideia de que o espaço material é coabitado por um espaço sagrado, muitas vezes invisível e, justamente por isso, demarcado por toriis, altares, igrejas ou mesmo um círculo de pedras, é uma das concepções mais antigas da humanidade.

O que o homem sempre buscou foi a não homogeneidade do espaço, a integração do espaço sagrado ao espaço comum, isto é, ao espaço profano.

A Odisseia realiza precisamente esse movimento. Ela equilibra o homem e o cosmos.

Por isso, Odisseu também é o herói da integração. Ele precisa voltar porque precisa reconquistar seu lugar como rei, guerreiro, aristocrata, pai e marido, restabelecendo uma comunhão com a ordem cósmica.

Talvez o maior equívoco da leitura moderna da Odisseia seja justamente tentar escolher entre o homem e o cosmos. Uns transformam Homero em um cronista da sociedade grega; outros, em um precursor da psicologia profunda. Em ambos os casos, a obra é amputada de sua dimensão propriamente mítica. Odisseu deixa de habitar um universo povoado por deuses, monstros e hierofanias para se tornar apenas um indivíduo atravessando conflitos internos ou condicionado por circunstâncias históricas.

A grandeza da Odisseia reside precisamente em recusar essa dicotomia. O homem é responsável por seus atos, mas jamais está isolado do sagrado. O mundo continua sendo um espaço onde o divino se manifesta, intervém e confere sentido à existência humana. A viagem de Odisseu não é apenas geográfica, psicológica ou política. É uma restauração da ordem. Seu retorno a Ítaca não representa apenas a recuperação de um trono, mas a reintegração do homem ao seu lugar no cosmos.

Ler a Odisseia apenas como história, apenas como psicologia ou apenas como alegoria é, no fundo, repetir o erro moderno de reduzir o mito à escala do homem. Homero, porém, parece propor exatamente o contrário: não que os deuses sejam metáforas do homem, mas que o homem só pode compreender a si mesmo quando reconhece que habita um mundo maior do que ele.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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