Devadatta e o espelho sombrio do budismo

Nos meus estudos sobre religião, através do fantástico A História das Crenças e das Ideias Religiosas, de Mircea Eliade, encontrei uma figura intrigante que, apesar de sua importância, eu nunca havia ouvido mencionar. Trata-se de Devadatta, um monge budista, primo e cunhado de Sidarta Gautama (o Buda), mais conhecido por ter sido seu rival — e por ter tentado matá-lo.

Sei que isso pode não ser novidade para quem já se interessa ou pratica o budismo há anos, mas peço paciência comigo.

É inevitável, para mim, como cristão, estabelecer uma comparação com o Cristianismo. A figura de Devadatta lembra, ao mesmo tempo, o anticristo, Judas Iscariotes e os fariseus da narrativa evangélica.

Devadatta era filho de Dronodana (ou Amritodana) e irmão de Ananda, o principal assistente do Buda. Também era cunhado do próprio Buda, pois sua irmã Yashodhara fora casada com Sidarta antes da iluminação. Inicialmente, Devadatta tornou-se discípulo do Buda. Contudo, movido pela inveja do prestígio do primo e pelo desejo de liderar a Sangha — a comunidade monástica — acabou se voltando contra ele.

Devadatta é lembrado por suas várias tentativas de assassinar o Buda. Em uma delas, tentou empurrar uma enorme rocha do Pico do Abutre, ferindo-lhe o pé. Em outra, subornou guardas para soltar um elefante selvagem e embriagado, chamado Nalagiri, no caminho do Buda — que, porém, o acalmou com sua compaixão (mettā).

Quando suas tentativas de homicídio fracassaram, Devadatta buscou fundar sua própria ordem monástica, propondo regras mais rígidas do que as de Buda — e é justamente aqui que sua história se torna mais interessante. Ele conseguiu atrair um grupo de monges e causou uma divisão temporária na comunidade. Suas exigências, conhecidas como os “cinco pontos de Devadatta”, propunham uma vida monástica extremamente austera, em contraste com o “caminho do meio” defendido por Buda.

Devadatta exigia que os monges vivessem apenas em florestas ou regiões afastadas, enquanto Buda permitia a vida em mosteiros próximos às cidades. Proibia que aceitassem convites para refeições, determinando que só comessem o que fosse obtido pela mendicância diária. Ordenava que as vestes fossem costuradas exclusivamente a partir de trapos encontrados em depósitos de lixo ou cemitérios, rejeitando roupas doadas por leigos. Insistia que os monges dormissem apenas ao ar livre, debaixo de árvores, sem abrigo. E, finalmente, impunha o vegetarianismo absoluto, em oposição à chamada “regra da carne pura” de Buda, que permitia o consumo de carne desde que o animal não tivesse sido morto especificamente para o monge.

O que mais chama atenção é que Devadatta se apresenta como o antípoda da tradição budista, tentando, paradoxalmente, ser sua versão mais “pura” e extrema. Algo semelhante ocorre na relação entre o catolicismo e o catarismo. O catarismo buscava levar à radicalidade os princípios de pureza e penitência, transformando o ascetismo cristão em uma rejeição total da matéria — o que, em alguns casos, culminava em jejuns até a morte. Assim, o catarismo se tornou uma forma de anticatolicismo ao tentar ser “ultracatólico”.

Buda, com sabedoria, rejeitou as propostas de Devadatta, declarando que tais práticas poderiam ser opcionais, mas jamais obrigatórias. Essa recusa serviu de pretexto para Devadatta criar sua própria seita dissidente.

Nas escrituras budistas, Devadatta é descrito como a personificação do mal e da ganância. Seu destino final é narrado de modo simbólico: tragado vivo pela terra e lançado no inferno de Avīci (Avici Niraya) — o mais profundo dos infernos budistas, reservado àqueles que atentaram contra um Buda.

Diz-se que, já doente e arrependido, Devadatta tentou reconciliar-se com o Buda, mas não chegou a tempo. Ao se aproximar do mosteiro de Jetavana, a terra se abriu sob seus pés, e ele foi tragado vivo, simbolizando as consequências inescapáveis do karma negativo.

No entanto, algumas tradições — especialmente o Sutra do Lótus (do budismo Mahayana) — oferecem uma visão diferente: segundo elas, Devadatta um dia alcançará a iluminação, tornando-se o Buda Devaraja (“Rei Divino”), após eras incontáveis de sofrimento e purificação.

Essa interpretação reforça uma ideia essencial do budismo: até mesmo o pior dos seres pode, eventualmente, despertar para a iluminação.

Em suma, a saga de Devadatta é fascinante — e talvez ainda mais interessante pela possibilidade de sua redenção, mesmo nas profundezas do inferno.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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