Como uma subcultura digital mistura o sagrado e o glitch para expressar a busca por sentido em meio ao caos contemporâneo
Nos últimos anos, a internet se tornou o principal espaço de formação de uma geração que é quotidianamente bombardeada por imagens, textos, anúncios, sons, cores e música, em qualidades diversas e quantidades massivas.
A exposição nesse caleidoscópio de sensações e ideias acabou criando uma infinidade de escolas estéticas de colagens que derivam de uma sensação difusa e descontrolada por sentido.
Nessa bagunça, criam-se eixos de identificação comum que são aglutinados em diversas escolas estéticas que se denominam na combinação quase interminável de nomenclaturas, com uma infinidade de prefixos (como “proto-“, “cyber”, “techno” ou “pós-“) e sufixos (como “-punk”, “-core” e “-wave”). Alguns mais significativos que outros.
Essa mania de colar sufixos e prefixos é exatamente o que as tribos sempre fizeram: criar um nome que seja ao mesmo tempo código interno (só quem está dentro entende) e bandeira externa (olhe como somos diferentes dos outros).
Esse é o fenômeno da hiperfragmentação estética e da proliferação microestética pós-digital.
A mente humana sempre organizou o caos em padrões reconhecíveis (tribos, estilos, gêneros). Hoje, o volume de imagens e referências que uma pessoa consome por dia é centenas de vezes maior do que alguém consumia nos anos 80 ou 90. O cérebro precisa criar “atalhos” para processar isso tudo. Esses atalhos viram microestéticas, que são privilegiadas no mundo digital.
O algoritmo recompensa nicho. Quanto mais específico o rótulo, mais fácil é reunir um grupinho fiel que se sente “único” e “original”.
No fundo, em grande parte, é tudo apenas um desejo desesperado de identidade e pertencimento num mundo onde grandes narrativas perderam sua força aglutinadora.
Quem souber sequestrar essa ideia e trazer de volta ao terreno das grandes narrativas (como a política) será, acredito, bem-sucedido. No Brasil, quem consegue fazer isso melhor que qualquer outro grupo é o MBL, mas não quero falar deles aqui. Gostaria de falar sobre outra coisa que me interessa mais: a intersecção entre religiosidade, identidade, tecnologia e arte.
É nesse contexto que surge o Xpiritualism, um movimento que mistura, de uma forma extremamente bagunçada, fé, ironia, nostalgia e colapso visual, transformando a espiritualidade em colagem, meme e ruído.
O Xpiritualism é um movimento microcultural e estético nascido na internet como uma subcultura de nicho que ganhou força em plataformas como o TikTok entre 2021 e 2022, especialmente no período pós-COVID. Em essência, combina misticismo, espiritualidade esotérica e nostalgia pela internet primitiva. É um fenômeno fluido, centrado principalmente na arte e na colagem digital. Visualmente, caracteriza-se por composições caóticas e pela estética do excesso.
O público do Xpiritualism costuma ser formado por pessoas socialmente marginalizadas ou desencaixadas. Suas colagens misturam símbolos religiosos e místicos de diferentes tradições, como santos católicos, iconografia islâmica, imagens angelicais, elementos trash e motivos esotéricos, criando um efeito eticamente ambíguo em que o sagrado e o profano se confundem. A ironia presente nas obras parece funcionar como um disfarce para uma melancolia mais profunda.
As imagens editadas evocam a web dos anos 1990 e 2000, incorporando memes, anúncios antigos e efeitos kitsch. Há uma preferência deliberada por elementos de baixa qualidade, como imagens pixeladas, distorcidas e ruidosas, que simulam precariedade e imperfeição. Esse estilo se aproxima do surrealismo onírico, como se buscasse representar um pesadelo digital.
Conceitualmente, o Xpiritualism aborda temas como confusão, desconforto, estranheza, nostalgia, falta de contexto e o sentimento inquietante do que é familiar e estranho ao mesmo tempo. Sua estética não é apenas visual; também há uma dimensão sonora associada. Musicalmente, o movimento se conecta a gêneros como hardstyle, cloud rap, glitch e techno. As faixas mais populares são propositalmente lo-fi, com ruídos e interferências que acentuam a sensação de colapso digital.
O principal nome ligado a essa subcultura é o DJ e rapper lituano Yabujin (também conhecido como DJ Gyrotta Zao), que desde 2018 incorpora essa estética em suas obras e acumula mais de 10 milhões de streams. Outros artistas associados incluem Death Soldier, hexo, Rory in early 20s, curse web, aora Vortex, youngling e Blade.
O Xpiritualism na China
Na China, o movimento ganhou contornos próprios. O caos simbólico de narrativas clássicas, como Jornada ao Oeste (de Wu Cheng’en), se mistura à estética pixelizada de programas de TV dos anos 2000, a símbolos taoístas e a gráficos de jogos piratas. O resultado é uma colisão entre o sagrado e o banal, entre o mito e o meme. O Xpiritualism chinês se transforma, assim, em um templo cibernético construído a partir de fragmentos digitais esquecidos. Nele, a oração, prática quase extinta entre as gerações anteriores, reaparece como um meme pixelizado, uma espiritualidade confusa expressa na linguagem bugada dos sistemas antigos.
A Geração Z
Para compreender plenamente o Xpiritualism, é necessário olhar para a Geração Z. Essa geração tenta romper com as heranças dos millennials, que, de certo modo, legaram a eles um mundo fragmentado e desorientado. O mundo líquido que criamos acabou diluindo tudo o que havia de sólido: propriedade, religião, cultura, gênero, identidade e até a ideia de Deus.
A Geração Z recebeu esse legado de negação e reagiu com repulsa. Diante disso, ela se divide em dois grandes grupos que, cada um à sua maneira, tenta escapar do presente.
O primeiro grupo deseja acelerar o processo iniciado pelos millennials, avançando para uma era de desfragmentação total entre humano e máquina, homem e mulher, natureza e tecnologia. Essa aceleração não é motivada pela crença em progresso, mas por uma tentativa de romper com a apatia.
O segundo grupo, mais interessante e disruptivo, busca refúgio no passado. Muitos jovens se voltam à tradição, à religião, à estética e ao estudo do antigo. Reaparecem figuras devotas, sacerdotes mais zelosos e interessados em reencontrar a solidez das coisas, em recuperar a ideia de fronteira e de ordem.
Entre esses dois polos, o da dissolução e o da restauração, há inúmeras gradações. A busca por transcendência, seja pela religiosidade tradicional ou pelo misticismo New Age, diluídos numa confusão digital, revela um mesmo sintoma: a sensação de inadequação. É o sentimento de estar deslocado do próprio tempo.
A internet, com sua infinidade de nichos e universos simbólicos, é o terreno fértil para esse tipo de busca. Ela fornece as ferramentas estéticas e identitárias que permitem dar forma ao vazio.
Pode parecer exagero analisar a psicologia de massas a partir de uma subcultura digital, mas convém lembrar que a esfera online já demonstrou seu poder de mobilização. Nepal e Peru, por exemplo, viveram ondas de protesto apenas diante da ameaça de restrição às redes sociais. Desde a Primavera Árabe, o Fora Dilma! e o Occupy Wall Street dos millennials, vemos que os movimentos digitais têm mostrado que hoje o político se estrutura na rede. Na Geração Z, que é nativa digital, isso apenas se define com mais contorno.
A geração que grita “não ouse tirar nossas redes” não está apenas protegendo seu lazer ou entretenimento. Está defendendo o último espaço onde ainda é possível experimentar, mesmo que de forma fragmentada e confusa, uma sensação de pertencimento.
O Xpiritualism pode ser visto, assim, como um sintoma do que alguns filósofos chamam de era pós-secular, um tempo em que a religião e o sagrado não desaparecem, mas retornam em novas formas, descentralizadas, híbridas e mediadas pela tecnologia.
O templo já não é de pedra, mas de pixels. A oração não é mais uma liturgia, mas um loop de sons, glitches e símbolos flutuando em colagens digitais aleatórias. O que antes era ruína espiritual se converte em linguagem estética.
O misticismo contemporâneo, no caso do Xpiritualism, nasce da precariedade, da confusão e da saturação informacional. É uma espiritualidade feita de resíduos, uma tentativa de reconstruir o sagrado a partir dos destroços do digital. No fim, talvez o Xpiritualism seja menos uma moda e mais um espelho, o reflexo pixelizado de uma geração que ainda acredita que, entre o ruído e o vazio, pode haver algo que lembre um sentido.
