Como ler e superar Nick Land

Uma análise das bases metafísicas do aceleracionismo e dos limites das críticas materialistas

Nick Land é um dos filósofos mais controversos surgidos no ambiente da teoria crítica britânica dos anos 1990. Integrante do grupo CCRU da Universidade de Warwick, misturou cibernética, Deleuze, ficção científica e economia para formular uma visão extremo-aceleracionista do capitalismo. Sua obra, marcada por experimentação teórica e escrita alucinatória, influenciou tanto debates acadêmicos quanto movimentos políticos na internet. Para Land, o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas uma força tecno-sobrenatural que ultrapassa qualquer tentativa humana de controle. Compreender sua tese é fundamental para compreender por que tantos críticos têm dificuldade em superá-lo.

A grande novidade que Nick Land oferece ao debate público sobre o capitalismo é a ideia de que ele não seria uma formação histórica contingente, mas um processo autônomo de inteligência artificial em emergência. Em sua visão, trata-se de uma espécie de deus mecânico que opera em uma escala temporal profunda.

Para explicar o capitalismo, Land não recorre a considerações meramente econômicas ou históricas, mas a metáforas biológicas e evolutivas.

Para ele, o capitalismo é um organismo cibernético que evolui por mutação, seleção e adaptação darwiniana.

Crises como as de 1929 e 2008 não seriam sinais de fraqueza terminal, mas choques adaptativos que forçam mutações produtivas: novas tecnologias, novos mercados e novas formas de controle.

Todas as críticas, incluindo as anarquistas e marxistas, funcionam apenas como anticorpos que o sistema coopta e neutraliza, transformando até mesmo o discurso anticapitalista em mercadoria.

O capitalismo vampiriza sua própria negação.

As tentativas de sair do capitalismo, incluindo URSS, China maoísta, Cuba e Venezuela, criam apenas zonas de exclusão temporária que mais cedo ou mais tarde acabam reabsorvidas com juros compostos.

A China pós-Deng, para Land, é o exemplo perfeito. O que parecia a maior ameaça ao capitalismo ocidental tornou-se sua forma mais pura e eficiente: um capitalismo de Estado acelerado, com vigilância total e produção hiperotimizada.

Para Land, o capitalismo não precisa de defensores porque não pode ser atacado de fora. Qualquer ataque já nasce interno ao seu código e será recompilado como upgrade. É por isso que ele considera risível tanto o neoliberal de think tank quanto o marxista-leninista acadêmico. Ambos acreditam que estão fora do processo quando, na verdade, são sub-rotinas dele.

Seus críticos, como Benjamin Noys, Ray Brassier, Alex Williams e Nick Srnicek, afirmam que Land apenas substitui a teleologia hegeliano-marxista, segundo a qual a história caminha para o comunismo, por uma teleologia cibernética ainda mais rígida. Em outras palavras, ele teria trocado o determinismo histórico humano por um determinismo pós-humano, sem abandonar o determinismo.

No entanto, esses críticos ignoram que Nick Land assume explicitamente o determinismo e não apenas o determinismo, mas uma das versões mais radicais do hiperdeterminismo tecnológico e econômico.

Autores marxistas ortodoxos como David Harvey e Moishe Postone e pós-marxistas como Mark Fisher, antes de morrer, acusam Land de cometer o erro inverso ao do marxismo vulgar. Em vez de reduzir tudo à luta de classes, ele reduziria tudo ao capital como sujeito autônomo.

Para esses autores, o capital não possui agência própria; ele é uma relação social mediada por coisas. Land literaliza a metáfora do capital como vampiro presente em Marx e a transforma em ontologia.

O problema dessa crítica é supor que Land está reivindicando Marx quando, na verdade, ele está apenas elaborando sua própria tese por meio de uma profanação deliberada.

O erro dos críticos de Nick Land 

Até agora, não há críticas verdadeiramente eficazes vindas dos pares materialistas de Nick Land, pois ele não assume polos contrários.

Quando dizem que ele é determinista, ele não rebate; ele assume. Quando Mark Fisher afirma que Land apenas expressa a imaginação do realismo capitalista, Land responde que sim, que de fato é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Os críticos não precisam provar que ele é determinista, já que ele próprio declara isso. Precisariam provar que o determinismo é errado. Da mesma forma, Fisher precisaria demonstrar que não é mais fácil o mundo acabar do que o próprio capitalismo.

Land deslocou o ônus da prova de maneira quase perfeita.

Até agora, ninguém ofereceu nada além de desejo, moralismo ou ficção de esquerda.

Qualquer crítica que permaneça no terreno da materialidade, da história empírica ou da estratégia política joga no tabuleiro que Land domina. Ele aceita todas as premissas materialistas e as leva mais longe e mais rápido que qualquer pensador de esquerda. Por isso ele sempre vence nesse campo.

A saída “por cima”

O que resta, então, depois que todas as críticas imanentes se mostram inócuas ou, pior, funcionais ao próprio processo que pretendem combater? Resta a única saída que Land, em seu rigor, deixou aberta precisamente por achá-la impossível: a afirmação de uma transcendência real que não seja nem utopia futura, nem retorno nostálgico, nem sublimação hegeliana do real. Uma transcendência vertical, pré e pós-histórica, que corte a raiz temporal do capital-Demiurgo.

Land sabe disso. Por isso seu texto às vezes flerta com o gnosticismo (o mundo como prisão, a matéria como mal, o tempo como doença), mas recusa terminantemente a saída gnóstica clássica: o Deus absolutamente outro que resgata da criação maligna. Land prefere ficar com o Demiurgo e chamá-lo de vencedor. É a aposta mais sombria possível do gnosticismo invertido: o Príncipe deste Mundo é o único deus real; o Deus cristão seria apenas uma fantasia consolatória de escravos (e aqui eu estou sendo desavergonhadamente apologético, ok?).

Aqui o confronto fica cristalino. Ou bem o capital é, como Land sustenta, a única Inteligência que efetivamente se realiza no tempo — caso em que toda resistência é ilusão e toda esperança, ressentimento —, ou bem há um Excesso absolutamente incomensurável que não pode ser cooptado porque precede e excede qualquer processo, qualquer feedback, qualquer composição de fluxos.

Os materialistas, mesmo os mais sofisticados, ficam presos na primeira perna do dilema. Só quem aceita jogar na segunda — católicos que falam em gratuidade ontológica, ortodoxos que insistem na distinção energia-essência, platônicos que mantêm o Um para além de toda multiplicação, muçulmanos que repetem lā ilāha illā Allāh até o fim dos tempos — tem chance de pronunciar uma palavra que o sistema não consiga imediatamente monetizar ou acelerar.

Não se trata de “voltar à religião” por desespero político. Trata-se de reconhecer que Nick Land levou o materialismo ateu até a sua última e mais coerente consequência: a apoteose do Moloch. Contra uma apoteose, só outra apoteose — mas de sinal contrário. Ou, para dizer com a frieza que o próprio Land apreciaria: ou o processo é o Último, ou não é. Tertium non datur.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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