Em defesa do Indianismo

Nesses dias, estava eu a ler Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Estou ainda nos primeiros capítulos, onde o autor fala sobre a identidade nacional e os primeiros sinais de nossos problemas — lia especificamente sobre o problema produtivo do Brasil.

Ainda não posso dizer o quanto concordo com o autor, não por alguma birra ideológica, mas por preferir a segurança de colocá-lo em confronto com outros autores de pensamentos diferentes.

No entanto, a leitura, para mim, está sendo muito produtiva, e confesso que estou muito empolgado — depois de muitos anos evitando — a entender a base da nossa cultura e identidade.

Obviamente, não podemos compreender completamente uma nação em poucas palavras, mas também não posso me furtar ao uso do didático recurso da generalização e do resumo. Então, vamos começar a definir o Brasil em “poucas palavras”, com a consciência clara de que isso é a súmula de ideias mais elaboradas.

Em poucas palavras, a base da nossa cultura é luso-brasileira e, ao falarmos do “brasileiro”, podemos resumi-lo — para fins didáticos — na palavra “indígena”, mesmo ignorando, neste caso, a diversidade étnica que existia por aqui.

Não podemos falar em “indígena” como uma unidade, nem se quiséssemos. Até porque não havia unidade entre os povos indígenas do Brasil. Antes da chegada dos portugueses, esta já era uma terra de conflitos e conquistas — coisa que as alas mais progressistas do pensamento contemporâneo, com seu racismo positivo e sua idealização dos povos originários como se fossem anjos na terra, não permitem admitir em voz alta.

Então, por “indígena”, vamos tomar pela composição que inclui Ticunas, Caingangues, Macuxis, Yanomamis, Terenas, Guajajaras, Xavantes, Potiguaras ou Pataxós, mas relegando ao Guarani, ou Tupi-Guarani, seu representante mais significativo.

Sim, eu sei: ao longo dos séculos, recebemos africanos, italianos, batavos, alemães, japoneses, entre outros. Mas, se o objetivo é compreender uma identidade originária, o eixo luso-indígena, ou luso-guarani, é o mais marcante.

Incluo, sim, o colonizador português como parte fundamental da nossa identidade — em igual ou até maior proporção que os povos originários. Que se deixem de lado as etiquetas e as sensibilidades politicamente corretas que se recusam a reconhecer que o Brasil, de fato, foi descoberto em 1500. Afirmo, sim, o Brasil como luso-indígena.

O luso-indígena do nosso romantismo me soa muito menos quimérico do que a crítica contemporânea costuma admitir.

Sérgio Buarque de Holanda diz que o lusitano traduzia sua identidade pelo aspecto “aventureiro”, e o mundo ibérico era uma fronteira entre a Europa e o mundo. Eles eram europeus, mas não continentalistas. Eram europeus, mas nem tanto. Especialmente o português: com uma pele um pouco mais escura, uma miscigenação moura e épicos que exaltavam mais o mar do que a terra.

Já o indígena brasileiro expressava-se pelas atividades de caça — reflexo do território denso e fechado das nossas matas.

Ambos carregam mais o traço da exploração do que da produção.

Não tínhamos o perfil do fazendeiro, mas sim uma combinação entre o colonizador itinerante e o caçador indígena — ambos avessos ao estabelecimento fixo, ao conforto em um único lugar.

Isso foi bom e ruim ao mesmo tempo. Esse componente natural em nossa formação nos tornou menos produtivos.

Durante muito tempo, nossa agricultura foi primitiva. Em plena era do arado, nossas fazendas ainda utilizavam pás e enxadas. Éramos o oposto dos Estados Unidos.

Entre indígenas e portugueses, havia uma relação ambígua de violência e admiração, que, ao longo do tempo, resultou no reconhecimento da liberdade civil dos índios — ainda que fosse uma liberdade “tutelada”. Isso se relacionava a uma percepção cultural: o indígena não era visto como escravo em potencial, pois o trabalho compulsório não se alinhava à sua figura simbólica.

Em muitos aspectos, o indígena brasileiro assemelhava-se à classe nobre portuguesa. Sérgio Buarque de Holanda destaca ainda a “imprevidência” e a “intemperança”, além da preferência por atividades predatórias, como a caça (atividade muito associada à nobreza), em detrimento daquelas produtivas.

Essa semelhança foi romantizada por autores como Gonçalves Dias e José de Alencar, que atribuíram ao índio as virtudes dos antigos fidalgos e cavaleiros europeus.

Infelizmente, o negro, estigma de todas as nossas piores mazelas, reservava-se, no melhor dos casos, ao papel de vítima — submissa ou rebelde.

É claro que há uma problemática aqui: a exaltação do índio como “europeu” contrasta dolorosamente com a destruição de sua cultura. A romantização, nesse contexto, não compensa a devastação; é, muitas vezes, uma forma de violação simbólica, mais do que de preservação.

Por outro lado, não compartilho da ideia de que os derrotados possuem, necessariamente, uma superioridade moral sobre os vencedores — ainda que tenham sido vítimas de injustiças históricas.

Não há, de minha parte, idolatria pelos vencidos.

De toda forma, é curioso notar que havia, sim, uma idealização do indígena por parte da Coroa portuguesa, bem como esforços para integrá-los. Em mais de uma ocasião, incentivaram-se casamentos entre indígenas e brancos portugueses. O alvará de 1755, por exemplo, determinava que os filhos desses casamentos teriam preferência em empregos, honrarias e dignidades, sem necessidade de dispensa, sendo proibida qualquer forma de discriminação — sob pena de punição.

Esse tipo de política não era compensação, tampouco caridade ou “reparação de dívida histórica”. Era um reconhecimento étnico e natural de uma identidade compartilhada.

Compreender essa identidade, sem críticas simplistas ou romantizações ingênuas, é essencial para entendermos quem somos como nação — e onde, de fato, precisamos melhorar. A história é o que é, e cabe a Peri ser nosso Siegfried.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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