Akutagawa, Dostoiévski e a racionalização do mal entre a culpa cristã e o niilismo moderno
O conto Rashomon, escrito por Ryunosuke Akutagawa em 1915, é uma das obras mais emblemáticas da literatura japonesa, centrada na exploração do egoísmo e da natureza humana sob condições extremas.
A narrativa se passa no final período Heian, uma época marcada por profunda decadência social e por desastres naturais em Quioto, como terremotos, incêndios e fomes prolongadas.
O conto tem pouco a ver com o filme homônimo de Akira Kurosawa.
Na verdade, salvo a premissa cênica de um personagem procurando abrigo da chuva sob o portal de Rashômon, praticamente nada do conteúdo do conto é aproveitado. O filme de Kurosawa é totalmente baseado no conto “Dentro do Bosque”, do mesmo autor.
Rashomon de Akutagawa é muito mais sombrio.
O palco da história é o portal Rashômon, antiga entrada principal da capital, que se encontra em total ruína.
Em vez de sua antiga glória, o local tornou-se um refúgio sombrio e perigoso, servindo como depósito de cadáveres abandonados, um cemitério de indigentes a céu aberto.
O conto começa com um genin, um servo de classe baixa, abrigando-se de uma chuva torrencial sob o portal. Há um paradoxo interessante logo no começo, no fato de Akutagawa transformar esse lugar horrível em abrigo.
O genin vive um impasse: havia sido demitido por seu mestre poucos dias antes e enfrentava o dilema de morrer de fome ou tornar-se um ladrão para sobreviver.
Segue a revisão, com maior clareza e melhor encadeamento da ideia:
Há ainda outro paradoxo, quase tragicômico: o genin não tinha para onde ir. Quando a chuva cessasse, nada mudaria de fato. A espera não adiava uma ação concreta, pois ele não estava sendo impedido de fazer algo específico. A chuva apenas suspendia o momento de encarar o vazio de alternativas que o aguardava.
Em meio a essas digressões, ao subir ao andar superior do portal para se proteger melhor da chuva, o genin encontra uma mulher idosa arrancando cabelos de cadáveres.
Ele descobre que ela pretende usá-los para fabricar perucas e vendê-las.
Tomado por indignação moral, o genin sente repulsa pelo ato da velha, vendo-o como uma manifestação imperdoável do mal.
O ponto de virada ocorre quando a idosa justifica sua ação. Ela afirma que o que faz é necessário para sobreviver e acrescenta que a própria mulher de quem retira os cabelos também havia cometido atos desonestos para não morrer de fome.
Ao ouvir essa lógica, o genin experimenta uma mudança radical.
Ele adota o mesmo raciocínio da velha para justificar sua própria sobrevivência.
Se o egoísmo é a regra, ele se sente no direito de roubá-la.
O conto termina com o genin roubando as roupas da idosa, deixando-a completamente nua e exposta ao frio, e fugindo para a escuridão, tornando-se, finalmente, o ladrão que antes temia ser.
Akutagawa baseou-se em uma narrativa do século XII chamada Konjaku Monogatari, uma antologia de histórias budistas e folclóricas que frequentemente exploram temas ligados ao karma.
No entanto, Akutagawa trabalhou o conflito de maneira mais dostoievskiana, colocando em pauta a discussão sobre a possibilidade de o mal ser legitimado por uma chancela racional ou ideológica.
Assim como em Crime e Castigo, em que Raskolnikov racionaliza o assassinato da agiota como um ato necessário em nome de um bem maior, apoiado em sua teoria dos “homens extraordinários” acima da moral comum, o genin utiliza a lógica da idosa para justificar seu roubo. Em ambos os casos, o mal triunfa por um caminho pavimentado pela razão.
A diferença fundamental entre os dois está nas consequências interiores do ato. Raskolnikov é atormentado pela culpa, e Dostoiévski explora a redenção por meio do sofrimento e da confissão. Akutagawa, por sua vez, soa mais niilista. O genin não se arrepende; ele simplesmente desaparece na escuridão.
Em Crime e Castigo, Dostoiévski parte de uma visão essencialmente cristã da natureza humana. O homem é capaz do pior, mas carrega em si uma voz da consciência moral, um chamado ao arrependimento e, por fim, à redenção. O sofrimento, nessa perspectiva, não é punição gratuita, mas um caminho purgativo que permite a ressurreição espiritual. Sem essa dor interior, sem o reconhecimento do pecado, não haveria possibilidade de salvação. Por isso, o romance termina com a perspectiva, ainda que distante, de regeneração por meio do amor e da fé, simbolizada por Sônia.
Já em Rashomon, Akutagawa adota uma postura quase schopenhaueriana. Para ele, não há centelha e nem voz da consciência que resista ao colapso moral. O genin passa por uma transformação rápida e fria. A indignação inicial dá lugar, rapidamente, a uma aceitação cínica da lógica do egoísmo universal, segundo a qual todos fazem o que precisam para sobreviver.
Ele não racionaliza o roubo com uma teoria grandiosa, como Raskolnikov. Apenas internaliza a justificativa da velha e age. E, de forma crucial, não há qualquer resquício de culpa narrado. O conto termina com seu desaparecimento na noite, sem testemunhas, sem julgamento e sem futuro visível.
Se não há arrependimento nem sofrimento autêntico, não há redenção possível. Sem redenção, o destino do homem é o apagamento, o retorno ao nada, ser engolido pelas sombras.
O genin não é punido, não é salvo e não é sequer lembrado. Ele simplesmente se dissolve na escuridão. É como se Akutagawa sugerisse que, em um mundo onde a sobrevivência justifica tudo e ninguém se atormenta de verdade, a humanidade não cai de forma trágica. Ela simplesmente deixa de existir enquanto algo digno desse nome.
Essa ausência de redenção torna Rashomon mais desolador do que Crime e Castigo. Dostoiévski ainda acredita que o homem pode se levantar, mesmo após o abismo. Akutagawa parece sugerir que, em certas condições históricas e existenciais, o abismo nos engole por completo.
O genin não desaparece porque é essencialmente mau, mas porque ninguém é bom o suficiente para resistir quando tudo desmorona.