Sérgio Buarque de Holanda afirma, em seu livro Raízes do Brasil, que a colonização espanhola se caracterizou amplamente por aquilo que faltou à portuguesa: uma aplicação insistente em assegurar o predomínio militar, econômico e político da metrópole sobre as terras conquistadas, por meio da criação de grandes núcleos de povoação estáveis e bem ordenados.
Para Holanda, os espanhóis adotaram um modelo de colonização mais sistemático e burocrático — com cidades planejadas, hierarquia clara e vida urbana consolidada — refletindo uma tradição urbana e jurídica herdada de Roma e reforçada pela Reconquista.
Um zelo minucioso e previdente guiou a fundação das cidades espanholas na América. Havia um esforço deliberado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste.
Max Weber demonstra admiravelmente como a urbanização e a fundação de cidades representaram, para o Oriente Próximo, o mundo helenístico, Roma imperial e até a China (na subjugação das tribos miaotse), o mais decisivo instrumento de dominação.
A urbanização, como de praxe, seguia os mesmos passos de sempre. Começava-se pela construção da chamada praça maior, de formato quadrilátero. Essa praça servia de base para o traçado das ruas: as quatro principais partiam do centro de cada uma de suas faces. De cada ângulo saíam mais duas ruas, com o cuidado de que os quatro cantos da praça estivessem voltados para os quatro ventos.
Nos lugares frios, as ruas deveriam ser largas; nos lugares quentes, estreitas.
Nessa praça — onde normalmente aconteceriam as festas da cidade — seria construída uma igreja.
Sérgio Buarque de Holanda reduz a colonização e a urbanização a termos meramente políticos e materialistas, sempre reforçando uma certa imperiosidade da vontade humana sobre todas as coisas.
No entanto, para além do símbolo da dominação, há um símbolo religioso (e até pré-cristão), bem como uma intenção cósmica envolvida nesse método — algo que escapa à análise de Sérgio Buarque de Holanda. Em O Sagrado e o Profano, Mircea Eliade analisa a recorrência do símbolo quaternário na construção de novas aldeias — uma prática presente desde Bali até a Nova Guiné.
Procura-se um cruzamento natural, onde dois caminhos se cortam perpendicularmente, dividindo o espaço da nova aldeia em quatro setores, sendo o ponto central o lugar mais sagrado, o imago mundi.
Há, portanto, uma estreita conexão entre conquista, urbanização, integração social e sacralização do espaço — e a América espanhola acentuou mais esse aspecto.
Já a colonização portuguesa é marcada por uma urbanização espontânea, não planejada e informal.
As vilas e cidades brasileiras cresciam conforme os acidentes geográficos e os interesses particulares. Não havia um plano rígido, mas um desenvolvimento orgânico. A colonização portuguesa também se caracteriza pela ausência de uma burocracia centralizada, por uma administração mais descentralizada e menos intervencionista, com forte influência de particulares (como senhores de engenho e bandeirantes).
Sérgio Buarque de Holanda observa que as cidades construídas pelos portugueses na América não são produtos mentais: não chegam a contradizer o quadro da natureza, e suas silhuetas se enlaçam à paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência — sempre esse traço significativo que exprime a palavra “desleixo”, termo que o escritor Aubrey Bell considerava tão tipicamente português quanto “saudade”, e que, segundo ele, implica menos uma falta de energia do que uma íntima convicção de que “não vale a pena”.
Além disso, a colonização portuguesa tem um forte viés ruralista, com predominância dos latifúndios e dos engenhos. As próprias cidades, muitas vezes, surgiam como extensões desses espaços rurais.
Obviamente, estamos fazendo aqui uma simplificação grosseira, pois tratamos de um território gigantesco, com vicissitudes, características e histórias muito particulares. Essa visão foi posteriormente questionada por diversos historiadores, que apontaram, por exemplo, casos de urbanização planejada no Brasil (como Salvador) e de crescimento espontâneo em cidades espanholas.
Ainda assim, o contraste entre o modelo espanhol racionalista e o modelo português flexível permanece como uma chave interpretativa importante em Raízes do Brasil — e conserva seu quinhão de verdade.
Pode parecer plausível supor que a vontade de construir cidades como eixos evidentes de demarcação da conquista não tenha sido tão enfática no Brasil quanto em nossos vizinhos. No entanto, ainda assim, as cidades que aqui se estabeleceram frequentemente seguiam o mesmo padrão que Holanda nota nas cidades da América espanhola — embora não tenham sido fundadas da mesma maneira. Em boa parte das cidades do interior do Brasil, há uma praça e uma igreja inaugural.
Na foto: Ouro Preto, talvez o melhor exemplo do modelo de flexibilidade portuguesa.
