Os capítulos iniciais de Esaú e Jacó, de Machado de Assis, desenham com notável precisão o entrelaçamento entre literatura e experiência popular.
As inquietações das mulheres comuns, sobretudo no que toca ao destino dos filhos, e que se manifestam em crendices e na inclinação à consulta de oráculos, revelam-se plenamente suscetíveis de transfiguração literária, como se já contivessem, em estado latente, uma vocação universal.
Logo no primeiro capítulo, ambientado no Rio de Janeiro de 1871, acompanha-se a subida de Natividade e sua irmã, Perpétua, ao Morro do Castelo. Movidas por inquietação materna e curiosidade, procuram Bárbara, uma cabocla vidente, a fim de sondar o destino dos filhos gêmeos de Natividade, Pedro e Paulo.
A cena é construída com uma densidade simbólica evidente. Natividade entrega à vidente retratos e mechas de cabelo dos meninos, como se oferecesse fragmentos materiais de um destino ainda em aberto. Bárbara, por sua vez, indaga se os irmãos já haviam brigado no ventre, ao que a mãe responde afirmativamente e, em seguida, profetiza que ambos “serão grandes”.
A promessa é vaga, mas suficiente: sugere grandeza, mas não esclarece sua natureza, deixando em suspenso o sentido último dessa glória anunciada.
É difícil não perceber, nesse episódio, uma ressonância direta com Macbeth, de William Shakespeare. A figura de Bárbara, instalada no alto do Morro do Castelo, opera como uma espécie de equivalente carioca das Três Bruxas. A própria ascensão ao morro, descrito como um espaço estranho e quase inóspito para aquelas damas da elite, reproduz, em chave tropical, a atmosfera de isolamento e inquietação que marca o encontro de Macbeth com as feiticeiras.
Essa aproximação, contudo, não deve ser lida como mera paródia ou ironia. Reduzir Machado a um autor que constantemente ridiculariza suas próprias cenas é limitar a complexidade de seu projeto literário. Tampouco parece suficiente enquadrá-lo em um realismo estrito, como se sua obra se restringisse à observação crítica da sociedade.
Há, em Machado, algo que se aproxima de um gesto cervantino, uma recusa em separar rigidamente o real e o imaginado. Como em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, o que se apresenta não é a simples oposição entre lucidez e delírio, mas um campo mais ambíguo, onde imaginação e realidade se interpenetram continuamente.
Sob essa perspectiva, a possível referência a Shakespeare não seria um ornamento erudito, mas o reconhecimento de uma afinidade mais profunda: a percepção de que a superstição popular contém, em si, elementos capazes de sustentar uma projeção universal.
Em vez de ridicularizá-la, Machado a incorpora como dispositivo de ampliação simbólica.
Assim, o Morro do Castelo deixa de ser apenas um ponto geográfico específico e se converte em um centro simbólico, um eixo a partir do qual o mundo se organiza, algo próximo do que Mircea Eliade descreve como axis mundi.
Nesse movimento, o local não se opõe ao universal; ao contrário, é precisamente por meio dele que o universal se torna visível.
