Machado de Assis: realista superior, realista enganoso ou antirrealista cervantino?

Nos corredores das escolas e nas páginas dos manuais de literatura, uma certeza parece inabalável: Machado de Assis é o grande mestre do Realismo brasileiro.

No entanto, uma análise mais atenta, como a proposta pelo crítico Gustavo Bernardo em sua obra “O Problema do Realismo de Machado de Assis”, revela que essa classificação é um “problema” que merece ser investigado. Para ele, colocar Machado na caixa do Realismo não apenas simplifica seu gênio literário, mas também cria uma visão monumentalizada e intimidadora que o afasta de seus leitores.

O ponto de partida para essa discussão é uma provocação do próprio Machado, citada por Bernardo:

“A realidade é boa… o realismo é que não presta para nada”.

Como pode o suposto pai do Realismo no Brasil ter uma opinião tão contundente contra o movimento?

A crítica de Bernardo argumenta que a obra machadiana, em sua essência, é um ataque direto às pretensões do Realismo. Enquanto o movimento literário europeu buscava uma representação objetiva e quase científica da realidade, muitas vezes com um tom pessimista e determinista, Machado de Assis fazia o caminho inverso. Ele usava a ficção não para espelhar o mundo, mas para questionar a própria possibilidade de conhecê-lo.

Seus narradores são a prova viva disso. Brás Cubas, um “defunto autor”, narra suas memórias do além, quebrando de saída qualquer pacto de verossimilhança. Dom Casmurro, o narrador mais famoso e menos confiável da nossa literatura, constrói uma acusação baseada em “olhos de ressaca” e ciúmes, nos forçando a duvidar não apenas de Capitu, mas da própria narrativa. Esses personagens não descrevem a realidade; eles a criam, a manipulam e, acima de tudo, expõem a fragilidade de qualquer ponto de vista que se pretenda único e verdadeiro.

A insistência em classificar Machado como realista, segundo Bernardo, tem uma consequência direta no ensino e na percepção pública do autor: a criação de um monumento intimidador.

Machado de Assis é apresentado como o “Bruxo do Cosme Velho”, uma figura de bronze, um gênio inacessível cujo texto denso e complexo é reservado apenas para iniciados.

Essa visão afasta o leitor comum de uma obra que, apesar de certa profundidade filosófica, é marcada pela ironia, pelo humor e por uma conversa amigável com quem lê. Ao rotulá-lo como um realista “sério”, a pedagogia tradicional ignora que Machado estava, na verdade, se divertindo, brincando com os clichês de sua época e desmontando as certezas de seus contemporâneos.

Ele não é um monumento a ser reverenciado à distância, mas um interlocutor a ser descoberto de perto.

Outro ponto problemático, derivado dessa classificação, é a ideia de que a obra de Machado se divide em duas fases: uma primeira, “menor” e romântica, e uma segunda, “madura” e realista. Essa divisão reflete uma noção, herdada do século XIX, de que o Realismo seria uma “evolução” natural e superior ao Romantismo.

O Romantismo, com seus idealismos e sentimentalismos, seria visto como ingênuo, enquanto o Realismo, com sua análise “crua” e “científica”, representaria o progresso e a maturidade intelectual. Para pensadores como o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, no entanto, essa querela é falsa. O realismo, para o autor, é uma mera tentativa de negar que a ficção, fingindo “dizer a verdade” para seduzir o público.

Machado de Assis nunca escondeu o jogo. Sua obra não “evoluiu” do Romantismo para o Realismo; ela sempre esteve em um patamar diferente, criticando ambos. Ele desmontou tanto a idealização romântica quanto a pretensão de verdade realista, mostrando que as duas eram apenas faces diferentes da mesma moeda literária.

Para aprofundar a crítica ao realismo machadiano, é fundamental recorrer à ideia da “tradição de La Mancha”, proposta pelo escritor mexicano Carlos Fuentes e explorada por Vitor Bourguignon Vogas e Wilberth Claython Ferreira Salgueiro em O Antirrealismo Cervantino em Machado de Assis. Fuentes argumenta que Machado de Assis é o único herdeiro direto de Miguel de Cervantes no século XIX, inserindo-o em uma linhagem literária que se opõe frontalmente à “tradição de Waterloo”, ou seja, ao Realismo.

A “tradição de La Mancha”, inaugurada por Dom Quixote, celebra a ficção como ficção. É uma literatura que se sabe invenção e se orgulha disso, utilizando a metalinguagem, as digressões, o jogo com o tempo e a desconstrução da autoridade do narrador como suas principais ferramentas. Em contraste, a “tradição de Waterloo” (o Realismo) pretende ser um espelho da realidade, uma “fatia da vida” que se baseia na observação e na experiência, buscando uma objetividade quase jornalística.

Machado de Assis, ao seguir a trilha de Cervantes, adota plenamente as características da “tradição de La Mancha”:

  • Autocelebração como Ficção: A começar por Memórias Póstumas de Brás Cubas, com seu narrador defunto, Machado não apenas assume o caráter ficcional de sua obra, como o celebra, transformando a própria escrita em tema da narrativa.
  • Jogo com as Formas Narrativas: A estrutura fragmentada, os capítulos curtos e digressivos, e a conversa constante com o leitor são heranças diretas de autores como Cervantes e Laurence Sterne (citado por Brás Cubas), que rompem com a narrativa linear e objetiva do Realismo.
  • Desconstrução da Autoridade do Narrador: Os narradores machadianos são volúveis, parciais e pouco confiáveis. Eles não são observadores isentos da realidade, mas sim criadores de suas próprias versões dos fatos, o que mina a credibilidade e a autoridade que o Realismo buscava conferir à figura do narrador.
  • Sátira e Ironia como Ferramentas Críticas: Assim como Cervantes satirizou os romances de cavalaria, Machado utiliza a ironia para ridicularizar as correntes de pensamento de sua época, como o Positivismo e o cientificismo, que são as bases filosóficas do Realismo. Personagens como Simão Bacamarte, em O Alienista, e o filósofo Quincas Borba, com seu Humanitismo, são caricaturas da pretensa racionalidade e objetividade realistas.

A visão de Gustavo Bernardo, enriquecida pela perspectiva cervantina, dialoga com uma longa tradição crítica que já questionava o enquadramento de Machado no Realismo.

  • Visão Consagrada (Alfredo Bosi): Críticos como Alfredo Bosi, em sua “História Concisa da Literatura Brasileira”, embora reconheçam a singularidade de Machado, ainda o situam como o ponto mais alto de um “realismo de sondagem moral”. Para essa visão, Machado não é um realista comum, mas um “realista superior”, que transcende a mera descrição de costumes para analisar a alma humana.
  • Visão do “Realismo Enganoso” (John Gledson): O crítico inglês John Gledson, por sua vez, fala em um “realismo enganoso”. Para ele, Machado é, sim, realista em seus objetivos de revelar a sociedade, mas o faz de maneira oculta, exigindo um leitor “cuidadoso e perspicaz” para ler nas entrelinhas. A verdade estaria lá, mas escondida sob camadas de ironia.
  • Visão do Antirrealismo (Gustavo Bernardo, Vogas e Salgueiro): Bernardo, Vogas e Salgueiro radicalizam essa interpretação. Para eles, os adjetivos como “superior” ou “enganoso” são apenas tentativas de “salvar” o conceito de realismo, quando na verdade Machado o rejeitava por completo. A finalidade de sua obra não era esconder uma verdade, mas mostrar que toda verdade é uma construção. Sua filosofia é a do ceticismo, da dúvida permanente, herança direta de Cervantes.

Talvez o maior desserviço que se possa fazer a Machado de Assis seja tentar aprisioná-lo em qualquer “ismo”. Chamar Machado de realista é como tentar descrever uma pintura cubista usando apenas as regras da perspectiva renascentista: a ferramenta é inadequada para a obra.

A obra machadiana é um convite para desconfiar das aparências, dos discursos prontos e das verdades absolutas. Ele nos ensina que a literatura não é um mapa da realidade, mas uma bússola que aponta para a complexidade do enigma humano. Ao desmontar o monumento e ler Machado sem o filtro redutor do Realismo, e sim como um herdeiro da tradição de La Mancha, descobrimos um autor muito mais provocador, divertido e, paradoxalmente, muito mais próximo de nós. Um autor que, em sua genialidade, só pode ser definido por si mesmo: puramente machadiano.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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