A mulher e choupana incendiada

Existe uma anedota memorável que Machado de Assis narra em Quincas Borba, no capítulo CXVII, pela voz de seu narrador.

Segundo ele, a história lhe fora contada por um padre — e, como é comum entre os bons padres, trazia aquele tom literário e moral das parábolas de Cristo.

Era uma vez uma choupana que ardia em chamas à beira da estrada. Sua dona — uma mulher miserável, vestida em farrapos — chorava sentada no chão, poucos passos adiante, lamentando sua desgraça.

Um homem ébrio, que passava por ali, viu o incêndio e perguntou à mulher se a casa era dela.

Ela respondeu:

“É minha, sim, meu senhor. Era tudo o que eu possuía neste mundo.”

E o bêbado retrucou:

“Então, dai-me licença para acender ali o meu charuto.”

Segundo o padre, a anedota era uma lição moral sobre os perigos da embriaguez. O homem, dominado pelo vício, não tentou socorrer a mulher nem apagar o fogo; limitou-se a pensar em seu charuto diante da tragédia.

Mas o narrador de Machado, com seu humor filosófico característico, propõe outra leitura. Para ele, aquele bêbado demonstrava um rigoroso respeito pelo princípio da propriedade: mesmo diante das ruínas, fez questão de pedir licença à dona antes de acender o charuto.

O ébrio da anedota respeita a propriedade não como um fato material, mas como uma ideia, um princípio quase metafísico. Ainda que a casa tivesse virado cinzas, persistia o “título platônico” da posse. A mulher, despojada de tudo, continuava, em essência, sendo a proprietária daquele lugar.

Comentei certa vez sobre o ethos ibérico, no qual as relações pessoais tendem a se sobrepor às formais — entre portugueses e espanhóis, a confiança raramente se apoia apenas em contratos. O bêbado da anedota vai além disso: ele dispensa não apenas o contrato, mas a própria existência material da propriedade. Reconhece o direito da mulher mesmo quando esse direito não tem mais objeto.

E onde quero chegar com essa reflexão? Sinceramente, não sei. Talvez em lugar nenhum. Às vezes, simplesmente não consigo terminar um texto.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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