O voyeurismo sádico da literatura

“A Causa Secreta” é um conto escrito por Machado de Assis, publicado originalmente em 1885 na Gazeta de Notícias e incluído, em 1896, na coletânea Várias Histórias, a quinta compilação de contos do autor levada ao público.

O conto narra a relação entre três personagens: Garcia, um médico recém-formado; Fortunato, um homem misterioso e frio; e Maria Luísa, esposa de Fortunato. A história tem início quando Garcia conhece Fortunato em um teatro, onde este demonstra um interesse peculiar por cenas de dor e sofrimento. Mais tarde, Fortunato ajuda um homem ferido na rua com uma dedicação aparentemente altruísta, mas que revela traços de frieza e indiferença.

Garcia e Fortunato desenvolvem uma amizade, e o médico passa a frequentar a casa do casal no Catumbi. Lá, Garcia percebe a infelicidade de Maria Luísa, que vive submissa ao marido, temendo-o e resignada à sua condição. Fortunato, por sua vez, revela um comportamento sádico: realiza experiências cruéis com animais e demonstra prazer com o sofrimento alheio.

O ápice da narrativa ocorre quando Garcia testemunha Fortunato torturar um rato com requintes de crueldade, revelando, enfim, sua verdadeira natureza: a de um homem que sente prazer na dor do outro. Maria Luísa, frágil e nervosa, adoece de tuberculose e, durante sua agonia, Fortunato a observa com a mesma frieza de sempre, sem qualquer gesto de compaixão.

Após a morte de Maria Luísa, Garcia — que secretamente a amava — beija seu cadáver e chora desesperadamente. Fortunato, ao surpreendê-lo, não sente ciúmes, mas prazer: contempla com morbidez o sofrimento do amigo, revelando mais uma vez sua natureza profundamente perversa.

Este conto é considerado um dos mais sombrios de Machado de Assis, por abordar com nitidez o tema da psicopatia. O sadismo de Fortunato é apresentado como um diletantismo sui generis, em que a dor alheia se torna fonte de satisfação estética.

Além disso, Machado de Assis — conhecido pela sua metatextualidade, pela forma como conversa com o leitor e o desafia dentro da própria obra — utiliza o conto para expor a literatura como espaço de voyeurismo sádico. Afinal, seguimos a leitura com curiosidade mórbida até o fim. E, talvez, lá no fundo, sejamos todos um pouco semelhantes a Fortunato.

Pessoalmente, sempre considerei as interpretações de “crítica social” em Machado como algo tangencial. Não que sejam inválidas ou inexistentes, mas tampouco resumem a totalidade do autor. Muitas vezes, ele parece mais preocupado com o indivíduo do que com a sociedade, com o singular, não com o plural. A Causa Secreta seria um desses exemplos: não é uma metáfora social, mas uma metáfora sobre o ato de narrar e de ler, em que autor, personagens e leitores compartilham uma cumplicidade sádica com um personagem sombrio.

No fundo, a ironia do conto parece sugerir que “sádicos somos todos”, ao desfrutarmos — na arte e na vida — da dor alheia com fascínio e impunidade.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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