Ces XC e a convergência entre tradição visual turca e estética global

Eu realmente não sou uma pessoa avessa ao uso de inteligência artificial na produção artística. Sou alguém que acredita que a arte deve ser exaurida em todos os meios possíveis: na remixagem, na colagem, na reprodutibilidade técnica e na reprodutibilidade industrial.

Não é porque eu estime a tecnologia em si, mas porque acredito, de fato, que ela nunca substituirá o ser humano. Tenho motivos religiosos para isso, pois creio no privilégio da alma humana dentro do plano da criação.

Também tenho motivos científicos. Quem acompanhou minha imersão no pensamento de Roger Penrose sabe que é sólida a tese da não computabilidade da consciência.

Rejeitar a IA, para mim, é como rejeitar o pincel.

Superado esse trauma inicial, entendemos que há bons e maus artistas nesse meio e, naturalmente, há um número maior de artistas ruins do que bons. Sempre foi assim.

Um dos bons artistas de IA, para mim, é Ces XC.

Ces XC é artista visual, diretor criativo e DJ radicado em Istambul, cuja produção habita a intersecção entre a herança cultural turca e a estética digital contemporânea. Seu trabalho envolve fotografia, experimentação com imagens geradas por inteligência artificial e documentação da cultura urbana.

Tentei reproduzir os mesmos tipos de imagens que ele cria, mas não obtive sucesso.

O prompt de Ces XC e os retoques que ele realiza não são derivados da máquina; são expressão direta de sua visão de mundo, moldada desde cedo.

Desde a infância, ele demonstra uma relação intensa com a imagem. O interesse inicial por narrativas gráficas, despertado pelo fascínio pelas embalagens de brinquedos, evoluiu na adolescência para o grafite e, mais tarde, para o design gráfico. Essa formação híbrida, que atravessa a cultura popular, a rua e a comunicação visual, constitui a base estética de sua obra e, por consequência, de seus prompts.

Após um período de atuação em agências de publicidade em Istambul, frustrado com a falta de abertura a propostas mais experimentais, Ces XC decidiu se dedicar integralmente à arte visual. A escolha por trabalhar de forma independente, com uma câmera e um computador, consolidou-se ao longo dos anos, até que seu trabalho passou a circular em circuitos mais amplos, incluindo colaborações com marcas como Nike e Mercedes-Benz.

O núcleo conceitual de sua prática está na reflexão sobre a identidade visual turca em um contexto globalizado. Crescendo em Istambul, cidade historicamente situada entre Oriente e Ocidente, ele observa uma tendência de afastamento das referências orientais em direção a modelos ocidentais de modernidade.

Sua obra, porém, propõe o caminho inverso: reinsere elementos culturais locais — tapetes, tecidos e símbolos tradicionais — em diálogo com ícones globais de consumo, como logotipos corporativos e referências à moda esportiva.

Essa justaposição entre o simbólico e o comercial, o vernacular e o cosmopolita, produz uma estética de contraste. Em suas composições, camelos podem portar logotipos da Nike, tapetes ostentam emblemas da Mercedes, scooters cromadas circulam por bairros tradicionais de Istambul. Tais imagens, simultaneamente irônicas e críticas, desestabilizam a hierarquia entre o luxo global e a autenticidade local, expondo a fricção entre identidade e assimilação cultural.

No campo da tecnologia, Ces XC adota uma postura crítica e pragmática diante da inteligência artificial. Assim como eu, ele não a vê como substituta da criação humana, mas como uma ferramenta análoga à câmera ou ao software de edição: um meio de ampliação das possibilidades expressivas. Seu uso da IA busca expandir o vocabulário visual sem eliminar a dimensão autoral e empírica do trabalho de campo, preservando a observação da cidade e o contato com a cultura de rua como componentes fundamentais do processo criativo.

A prática de Ces XC pode ser entendida como um exercício de mediação simbólica: ele transforma a cultura visual turca em discurso global sem dissolver sua singularidade.

Links:

Instagram de Ces XC

‘I Should Proudly Reflect My Roots’. The Story Of Ces, a Visual Wizard

Autos e IA: la fotografía de Ces 

The Cultural Crossover of Ces Digital Art

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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