Zálmoxis seria Drácula?

Zálmoxis é uma figura central e enigmática da mitologia e da história antiga.

Ora é apresentado como um rei ou reformador social dos getas, um povo de origem trácia que habitava a região da atual Romênia e Bulgária; ora é cultuado como um deus. Há ainda tradições segundo as quais teria sido um antigo escravo.

O historiador grego Heródoto é a fonte mais antiga sobre esse mito. Ele relata uma história contada pelos gregos que viviam na região do Helesponto.

Segundo essa narrativa, Zálmoxis teria sido um homem comum e escravo do famoso filósofo Pitágoras, na ilha de Samos.

Após ser libertado e enriquecer, retornou à Trácia. Percebendo que seu povo vivia de forma simples, decidiu civilizá-lo com base nos conhecimentos intelectuais e astronômicos que havia adquirido na Grécia.

Zálmoxis construiu então uma câmara subterrânea (katabasis). Nela desapareceu voluntariamente por três anos, levando seu povo a julgá-lo morto. No quarto ano, reapareceu publicamente, provando aos getas, ainda que de forma encenada, que a morte não era o fim e que a alma continuava viva em um banquete eterno.

É interessante notar as inúmeras semelhanças com a narrativa cristã, segundo a qual Jesus “desceu à mansão dos mortos” e ressuscitou ao terceiro dia.

O número três é a menor unidade necessária para a constituição de um processo completo de transformação. Toda transição exige começo, meio e fim. Na matemática e na filosofia antigas, o número 1 representa a unidade (Deus ou o indivíduo), enquanto o número 2 representa a dualidade (o conflito, a divisão, o bem e o mal). O número 3 é o primeiro a trazer resolução e estabilidade. O triângulo, por sua vez, é a primeira forma geométrica capaz de delimitar um espaço físico.

Números à parte, esse desaparecimento e reaparecimento de Zálmoxis serviu como instrumento didático de sua doutrina mais famosa: a crença na imortalidade da alma e em uma vida após a morte.

No entanto, Mircea Eliade, no segundo volume de História das Crenças e das Ideias Religiosas, faz observações interessantes a respeito dessa crença na imortalidade, baseando-se nos relatos de Heródoto.

Escreve Heródoto, segundo seus tradutores, que os getas “creem que são imortais”, pois, de acordo com a doutrina de Zálmoxis, “pensam que a morte não os atinge e que aquele que perece vai juntar-se a Zálmoxis”.

Entretanto, lembra Eliade, o verbo athanatízein não significa exatamente “crer-se imortal”, mas “tornar-se imortal”. Essa “imortalização” seria obtida por intermédio de uma iniciação.

Nada sabemos sobre as cerimônias propriamente ditas, mas os esclarecimentos transmitidos por Heródoto, segundo Eliade, apontam para um argumento mítico-ritual de “morte” (ocultação) e “retorno à Terra”.

Não vi essa hipótese ser explicitamente comentada em nenhum lugar, mas, considerando que Zálmoxis era cultuado na região da atual Romênia, acredito ser possível estabelecer uma aproximação entre sua história e os mitos vampíricos que, séculos depois, contribuíram para a formação do imaginário que culminaria em Drácula, de Bram Stoker.

Mircea Eliade, em obras sobre o folclore romeno, como De Zalmoxis a Gengis-Khan, analisou como antigos mitos pagãos da Dácia e da Trácia sobreviveram de forma fragmentária nas crenças camponesas medievais e modernas da região. A possibilidade de que elementos desse culto tenham ressoado, ainda que indiretamente, no romance de Stoker parece, ao menos para mim, uma hipótese plausível.

O núcleo do culto de Zálmoxis reside justamente nesse argumento mítico-ritual da morte, do ocultamento e do retorno à vida. Trata-se de um processo de katabasis, uma descida ao mundo dos mortos.

Zálmoxis entra na terra como mortal e emerge transformado em um ser divino e imortal.

Drácula passa por um processo semelhante de sepultamento e retorno do túmulo.

O conceito de athanatízein (“tornar-se imortal”) sugere também que a imortalidade não era concebida como um dado natural, mas como uma conquista obtida por meio de um processo iniciático, algo que encontra ecos no mito do vampiro.

Na narrativa do Conde Drácula, a imortalidade também é adquirida por meio de uma iniciação, representada pela mordida. Drácula “imortaliza” suas vítimas ao inseri-las em uma nova comunidade de mortos-vivos.

Comente aqui

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter Semanal

Categorias

Asssuntos

Posts

Último Episódio

Quem faz

O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

O niilista (ou nem tanto) em Paperback Writer, dos Beatles
“Paperback Writer”, dos Beatles, é uma música surpreendentemente interessante.Ela conta...
A Sacralização do Concreto na Religião Romana
Na imagem, um altar doméstico. Indiferença metafísica, pragmatismo ritual e...
As Fronteiras da Nossa Humanidade
No capítulo onze de seu novo livro, Contra a Máquina,...
Corto Maltese: A Cidade Perdida de Mu – Hugo Pratt
"Nós falamos com palavras, mas Deus fala com palavras e...
Rolar para cima