O Esquecimento dos Deuses: de Mircea Eliade a Neil Gaiman

Vou confessar que minha leitura segue um caminho bastante anárquico e indisciplinado. Começo um livro e, pouco tempo depois, já me vejo atraído por outro. Ao mesmo tempo, uma avalanche de associações surge, levando-me a refletir sobre temas diferentes, embora ainda vagamente conectados àquilo que havia despertado meu interesse inicial. Em algum momento, nasce a vontade de escrever um artigo, como uma tentativa de registrar essas conexões e não perder o fio de raciocínio que surgiu desse primeiro movimento.

É nesse turbilhão de pensamentos que acabo assumindo o papel de um espectador passivo: alguém que observa, acompanha e registra aquilo que consegue apreender desse fluxo.

O texto que segue nasce justamente desse exercício ensaístico, uma tentativa de seguir o caminho dessas associações e transformar em palavras aquilo que emerge desse percurso.

Estava eu lendo o livro Mito e Realidade, de Mircea Eliade, autor que dedicou grande parte de sua obra ao estudo de um tema que, com o tempo, tornou-se uma obsessão pessoal: a religião.

Em determinado momento da leitura, deparei-me com sua análise sobre o conceito de “Deus ocioso” (Deus otiosus), uma ideia presente em diversas tradições religiosas de povos primitivos, especialmente entre aqueles que permaneceram em estágios de subsistência baseados na caça e na coleta.

Esse “Deus ocioso” seria um Ente Supremo que, embora esteja acima de todos os outros deuses, desempenha um papel quase inexistente na vida religiosa cotidiana, permanecendo ausente dos cultos, dos rituais e dos mitos. Como esse Deus Supremo se encontra distante da realidade humana, o homem primitivo passa a direcionar sua devoção para forças mais próximas de sua experiência imediata. Entram em cena os deuses da fertilidade, da agricultura, da guerra e os espíritos dos antepassados.

Acredita-se que esse Ente Supremo tenha criado todo o cosmos, incluindo os demais deuses, mas que, logo após a criação, tenha abandonado sua própria obra e se retirado para uma espécie de exílio sagrado. Ele permanece distante, inalcançável, indiferente e, em alguns casos, até mesmo inominável.

Entre os exemplos que ainda podemos nomear, Mircea Eliade cita Ndjambi, o Deus Supremo dos Hererós, povo pastor que habita regiões da Namíbia e de Angola. Há também Dzingbé, cultuado pelos Ewé, grupo étnico presente principalmente no Togo e em Gana. Ambos não possuem templos dedicados a eles nem recebem sacrifícios. Sua função parece estar limitada à própria ideia de ordem cósmica: eles não governam diretamente o mundo, mas representam o princípio que o sustenta.

Outro exemplo é Mulugu, um Deus Supremo que Eliade considera admiravelmente “fossilizado” nos adágios dos Gyriamas, povo da África Oriental.

Existe, no pensamento religioso primitivo, uma separação bastante interessante entre o Criador e o Cosmocrata. Essa é uma ideia que já vinha pairando na minha cabeça há algum tempo a partir das leituras de Eliade. Em outras palavras, aquele que cria o cosmos não é necessariamente aquele que governa o cosmos.

No judaísmo e no cristianismo, que é a minha própria tradição religiosa, Criador e Cosmocrata correspondem exatamente ao mesmo Deus. Para mim, essa associação sempre pareceu automática: Deus é aquele que cria todas as coisas e, ao mesmo tempo, aquele que permanece soberano sobre elas.

Talvez justamente por isso a ideia de um Deus que cria o universo e depois se afasta dele seja tão estranha para a minha própria formação religiosa. É uma concepção que parece separar duas funções que, dentro da minha tradição, sempre foram compreendidas como inseparáveis.

Descubro, através da leitura de Eliade, que para muitos povos o Criador permanece oculto e distante. Normalmente, ele não possui imagens, templos ou sacerdotes dedicados ao seu culto. É uma divindade lembrada apenas em momentos de extrema calamidade, quando as forças divinas mais próximas já não parecem capazes de oferecer respostas ou auxílio.

Ainda assim, muitas vezes nem mesmo diante das maiores catástrofes esses Deuses Supremos são invocados. Ao longo dos milênios, eles parecem ter perdido quase completamente sua presença na atualidade religiosa desses povos. Não existem mais memórias rituais, representações simbólicas ou manifestações concretas que os tragam novamente para o mundo humano.

Foi justamente nesse ponto da leitura que uma obra da cultura pop atravessou meu pensamento: American Gods, de Neil Gaiman, publicado em 2001. De repente, sem que eu estivesse procurando por ela, a obra surgiu como uma associação inevitável, quase como se já estivesse esperando por esse momento.

A história acompanha Shadow Moon, um homem que deixa a prisão e descobre que sua esposa morreu em um acidente de carro. Sem qualquer direção, ele aceita trabalhar como guarda-costas do misterioso Sr. Wednesday, que se revela ser ninguém menos que Odin, o deus nórdico.

Wednesday percorre os Estados Unidos em busca dos Deuses Antigos, divindades trazidas pelos imigrantes ao longo dos séculos, como Anansi, Chernobog e Bilquis. Esquecidos pelas novas gerações, esses deuses perderam gradualmente seu poder à medida que as pessoas deixaram de acreditar neles. O objetivo de Wednesday é reuni-los para uma guerra contra os Novos Deuses, entidades que representam forças da modernidade, como a Mídia, o Garoto Tecnológico e o Sr. World, cujo domínio se estabelece através da internet, da televisão, do consumo e do dinheiro.

Neil Gaiman tenta, ao longo da obra, emoldurar uma espécie de tese narrativa: os deuses existem enquanto os seres humanos lhes dedicam tempo, energia e fé. Sua existência depende da atenção coletiva que recebem. Em outras palavras, eles poderiam ser interpretados como uma espécie de “tulpas” ou egrégoras, formas simbólicas que ganham uma realidade própria a partir do acúmulo de crenças e devoções humanas.

Ao ler Mito e Realidade, entretanto, percebemos que o esquecimento dos deuses é uma constante na história religiosa humana e que, muitas vezes, ele nasce da própria dinâmica interna da religião. Não como uma simples substituição de uma divindade por outra, mas como uma transformação natural da própria experiência do sagrado.

Acho curioso perceber que, mesmo quando esses Entes Supremos são esquecidos e desaparecem dos ritos, dos cultos e da memória coletiva, raramente existe uma noção clara de que eles deixaram completamente de existir dentro do horizonte simbólico e cosmogônico desses povos.

Mesmo quando o Deus Supremo está “esquecido”, sua presença permanece de forma velada, camuflada nas narrativas da primordialidade e nas recitações dos mitos cosmogônicos. Ele continua habitando as lacunas deixadas pela própria tradição, como uma presença ausente que nunca desapareceu completamente.

Sua sobrevivência costuma ser larvar, manifestando-se no nível do inconsciente, das experiências extáticas e das percepções estéticas individuais. É como uma espécie de impressão digital cósmica que permanece além dos mitos e dos ritos: uma lembrança persistente de um pacto rompido, de uma queda primordial, de algo que talvez possamos chamar de uma “nostalgia do infinito”.

Essa é, talvez, a grande sutileza da tese de Mircea Eliade. O esquecimento do Ser Supremo não representa a destruição de seu conceito, mas justamente sua passagem para um estado de latência. Ele abandona a história e o altar, mas permanece costurado ao próprio tecido da realidade por meio da linguagem mítica. Torna-se uma espécie de “fantasma sintático” da cultura: uma presença que já não é percebida diretamente, mas continua estruturando silenciosamente a forma como o mundo é compreendido.

Talvez seja justamente por permanecerem ocultos que esses deuses sobrevivam mais profundamente do que aqueles que continuam visíveis. Diferentemente do que sugere Neil Gaiman em American Gods, talvez a permanência de uma divindade não dependa apenas da quantidade de pessoas que ainda acreditam nela, mas também da capacidade de permanecer como um símbolo subterrâneo, incorporado às estruturas mais profundas da imaginação humana.

No fim, talvez esse próprio texto seja uma demonstração involuntária do modo como minhas leituras costumam acontecer. Começo seguindo uma linha aparentemente definida, encontro uma ideia, ela me conduz a outra, que por sua vez revela uma conexão inesperada com algo que eu já havia lido ou pensado antes. O livro de Eliade me levou aos deuses esquecidos de American Gods, mas, ao retornar a Eliade, percebi que a própria ausência desses deuses talvez seja uma forma mais profunda de permanência.

Talvez seja essa a razão pela qual continuo retornando aos mitos, às religiões e às antigas narrativas humanas. Elas parecem desaparecer, ser substituídas ou relegadas ao passado, mas continuam habitando as camadas mais profundas da nossa imaginação. Assim como o Deus ocioso, certas ideias não precisam estar presentes para continuar existindo. Elas permanecem em silêncio, ocultas sob a superfície, esperando apenas o momento em que uma nova leitura, uma nova associação ou uma nova pergunta as faça novamente emergir.

 

 

 

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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