Imagem: Tetsuo – The Iron Man (Shinya Tsukamoto)
A Ode Triunfal , escrita por Fernando Pessoa (sob o heterônimo de Álvaro de Campos), é um dos poemas mais interessantes e emblemáticos da literatura modernista e um dos que, até hoje, mais me causam sensações. Não é por menos: esse poema se inscreve tanto na tradição futurista quanto inaugura, na literatura, o estilo sensacionista, ou seja, busca a máxima conscientização da sensação por meio dos versos.
Publicado originalmente na primeira edição da influente revista Orpheu, em 1915, o poema configura-se como um canto de louvor e lamento (sim, as duas coisas ao mesmo tempo) à modernidade, à civilização industrial e ao progresso tecnológico do início do século XX. Exalta a força, a velocidade e o dinamismo das máquinas, como engrenagens, motores e fábricas, e expressa um fascínio quase erótico e febril pelo mundo moderno, acompanhado do desejo de fusão física com as máquinas e com o ambiente urbano.
Aqui, o poeta surge em busca de “sentir tudo de todas as maneiras”, sentença última do estilo sensacionista, que busca absorver em si todas as sensações intensas, violentas e caóticas.
O eu lírico da ode assume uma feição dionisíaca por excelência e deseja ser “toda a gente em toda a parte”, entregando-se ao caos, ao excesso e à embriaguez do mundo moderno, sem filtros morais.
Álvaro de Campos apresenta-se como um ser amoral, celebrando tanto os aspectos grandiosos quanto os sórdidos da vida moderna.
Nesse movimento, inclui referências a bordéis e à corrupção, rompendo completamente com a sensibilidade moral da época.
Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno
Pode-se dizer que Campos realiza uma espécie de deslocamento radical dos valores, em diálogo (talvez indireto) com o pensamento de Friedrich Nietzsche. Em sua composição, ele não apenas ignora a distinção entre bem e mal, mas a desfaz ativamente essa fronteira em favor da intensidade da sensação. A intenção de Campos é celebrar a “beleza de tudo”, mesmo das coisas feias e más.
Para ele, um crime, um motor ruidoso ou uma prostituta possuem o mesmo valor estético e vital que uma grande obra de engenharia.
A exaltação das máquinas e da força bruta manifesta a beleza da vitalidade, uma vontade de domínio e de expansão. Não há aqui a busca pela “paz” ou pela “ordem” burguesa, mas a descarga de energia em estado puro.
Essa fase de Campos representa o momento em que a heteronímia de Pessoa mais se aproxima de um vitalismo amoral, no qual o único “pecado” seria a incapacidade de sentir.
Álvaro de Campos utiliza verso livre e longo, com um ritmo acelerado e torrencial. Sua escrita é marcada pelo uso frequente de exclamações, interjeições como “Eia!” e “Há-lá!” e por onomatopeias que mimetizam os ruídos industriais.
As sensações de velocidade e a precisão mecânica do poema podem ser percebidas já em sua própria feitura. Fernando Pessoa afirmou que a Ode Triunfal surgiu “num jacto”, diretamente à máquina de escrever, sem interrupções ou emendas. Isso significa que foi um poema escrito em transe criativo, em fluxo veloz e contínuo, como se eliminasse o freio do pensamento reflexivo.
Pode-se dizer que, nesse processo, há uma espécie de desumanização deliberada. O poeta torna-se semelhante à máquina.
Ate mesmo ao abdicar do manuscrito em favor da máquina de escrever torna-se significativo: Pessoa substitui o fluxo orgânico do corpo pelo impacto mecânico.
Há nesse processo um desejo de transfiguração assumido pelo próprio eu lírico, que busca penetrar fisicamente, até mesmo sexualmente, nas máquinas e tornar-se “calor mecânico” e “eletricidade”.
Nesse processo de algolagnia, isto é, o prazer na dor, emergem impulsos de caráter sadista ou masoquista levados ao limite, associados ao desejo de aniquilação, como na imagem de “morrer triturado por um motor”.
Se o santo buscava a união com Deus através do martírio, o poeta futurista busca a união com o Todo-Máquina. Ele deseja que as correias de transmissão sejam seus nervos e que o óleo funcione como seu sangue.
Ser “triturado por um motor” torna-se, assim, uma forma de comunhão.
O Instante Dinâmico
Esse movimento em busca do Todo-Máquina pode ser compreendido como uma fuga do humano ou, mais precisamente, da subjetividade.
Essa fuga se relaciona à dificuldade de sustentar uma identidade estável. Em Fernando Pessoa, há uma multiplicidade constitutiva, marcada pela fragmentação e pela contradição. O poema busca o instante dinâmico como estratégia de esquecimento, tentando libertar o sujeito do peso da memória e do passado histórico para viver a intensidade do presente.
A máquina não conhece ambiguidade nem conflito interno. Ela possui propósito e função definidos.
Enquanto o eu humano se apresenta como um labirinto de memórias, dúvidas e paralisia intelectual, a máquina é vetorial. O Campos da Ode Triunfal deseja a amnésia do instante. Esse “esquecimento futurista” configura-se como uma tentativa de escapar da dor de pensar.
O drama pessoano é ser múltiplo. A máquina, por sua vez, resolve a fragmentação por meio da função. Pode ser complexa, mas permanece coerente. Ao identificar-se com a máquina, Campos busca uma unidade funcional que lhe escapa como indivíduo social e psicológico.
O homem em Pessoa frequentemente se percebe como inútil e deslocado, tomado por uma forma de tédio existencial. A máquina representa o oposto da inadaptabilidade, pois é feita para operar no mundo, ajustando-se perfeitamente à realidade. Tornar-se simbiótico a ela é, portanto, uma tentativa de finalmente pertencer ao real.
Trata-se, em última instância, de uma fuga para a frente. Se ser humano implica sofrer, ser máquina significa apenas funcionar. O instante dinâmico torna-se o único ponto em que a fragmentação parece adquirir coerência, pois, na velocidade, as partes dispersas permanecem unidas pela força do movimento.
Re-ligare
No entanto, essa busca pela desumanização pode ser compreendida, paradoxalmente, como um caminho para uma supra-humanidade. Ao deixar de ser um indivíduo limitado, o eu lírico aspira tornar-se a própria engrenagem do universo moderno.
Pode-se dizer que há aqui uma tentativa de reativar o sentido etimológico de religião como re-ligare. O “momento dinâmico” pode ser interpretado como um “eterno presente” de natureza mítica. Ao entrar no ritmo frenético da máquina, Álvaro de Campos procura escapar do tempo histórico, linear e desgastante, para ingressar em um tempo cíclico e potencialmente infinito, associado ao funcionamento do motor.
Trata-se da suspensão da história em favor de um presente absoluto, traço característico de experiências de ordem religiosa.
A aspiração de tornar-se “a própria engrenagem do universo” ecoa, sob outra chave, o desejo místico de dissolução da individualidade, semelhante à relação entre Atman e Brahman. No caso de Campos, esse “universo” é o sistema industrial. A supra-humanidade corresponderia a um estado em que ele deixa de ser um sujeito fragmentado para integrar-se a um organismo total.
O elemento masoquista, presente na imagem de “morrer triturado”, assume, nesse contexto, a forma de um sacrifício ritual. Para que o homem novo emerja, o homem antigo, identificado à ordem burguesa, precisa ser simbolicamente destruído no altar da indústria.
Nessa perspectiva, Álvaro de Campos pode ser lido como um “místico da matéria”, alguém que busca, no metal e na velocidade, uma forma de transcendência que outras tradições associam ao silêncio ou à oração. Trata-se de uma religiosidade sem Deus, em que a divindade é substituída pelo próprio dinamismo.