A Crítica do Humor ao Horror

Há dois contos de Machado de Assis que resumem bem o que eu chamo de “horror machadiano” — que, na verdade, não é um horror propriamente dito, mas uma galhofa do horror, uma tiração de sarro que o autor, com todo respeito, faz ao gênero.

Em 1870, Machado publica o conto “A Vida Eterna”, e em 1875, lança “O Esqueleto”.

Ambos os contos apresentam elementos góticos: cenários sombrios, personagens excêntricos, temática mórbida e aspectos perturbadores.

Comecemos por “A Vida Eterna”, publicado sob o pseudônimo Camilo da Anunciação, no Jornal das Famílias, em 1870. A princípio, a narrativa flerta com o gótico e o fantástico, evocando o mistério, o grotesco e a ameaça, mas termina por mergulhar na ironia, dissolvendo o horror em um anticlímax zombeteiro.

Na trama, o narrador — um homem de setenta anos — descreve um estado de prazer entre o sono e a vigília, especialmente após uma ceia com seu amigo, o Dr. Vaz. Enquanto fumam charutos e conversam, adormecem parcialmente. O torpor que se segue parece preparar o leitor para uma transição do real para o sobrenatural — movimento típico das narrativas que misturam sonho, delírio e realidade.

O narrador é despertado por batidas na porta e se depara com um estranho vestido de modo excêntrico, chamado Tobias, que se apresenta como “formado em matemáticas”. Tobias afirma que morrerá no dia seguinte e exige que o narrador se case com sua filha, Eusébia, oferecendo-lhe riqueza em troca. Caso se recuse, ameaça matá-lo com um revólver. Intimidado, o narrador aceita e é levado para uma casa luxuosa, onde encontra convidados idosos e é recebido com elogios exagerados.

A narrativa se intensifica quando Eusébia revela que ele é o quinto marido, e que todos os anos, no mesmo dia, ocorre um ritual macabro: os maridos são assassinados para que os membros da casa possam alcançar a vida eterna por meio de um banquete canibal. A exposição de um pergaminho antigo, que detalha o ritual, acentua a atmosfera de terror e a sensação de que o narrador caiu numa armadilha.

O clímax ocorre com o anúncio de sua morte iminente. Tobias, furioso com a revelação feita por Eusébia, ordena sua execução. O narrador é levado a uma sala escura e assassinado com um punhal, enquanto os convidados discutem como preparar seu corpo para o banquete ritualístico.

No auge da tensão, o narrador acorda no sofá, percebendo que tudo não passava de um pesadelo. O Dr. Vaz está ao seu lado, zombando da história, e sugere que ele a escreva para o Jornal das Famílias. A revelação não apenas anula o terror vivido, mas reposiciona toda a narrativa dentro de um jogo metaliterário, em que o próprio conto sugere sua origem fictícia dentro da ficção.

Passemos agora ao conto “O Esqueleto”, de 1875.

“O Esqueleto” começa em uma noite escura e tempestuosa — no melhor estilo gótico.

Um grupo de jovens se reúne em uma casa à beira-mar e, para se entreter — como o círculo de amigos na mansão de Lord Byron — decide contar histórias macabras.

Um dos membros do grupo, Alberto, se adianta com uma história sinistra sobre um homem misterioso que conheceu: o Dr. Belém.

Dr. Belém é uma figura extraordinariamente excêntrica: alto, magro, com longos cabelos grisalhos caídos sobre os ombros e um olhar que variava entre meigo e terrivelmente vazio, “como de defunto”. Gabava-se de ter escrito um tratado de teologia e até de ter descoberto um planeta — afirmações que todos consideravam fruto de sua imaginação febril.

Durante uma visita ao Dr. Belém, Alberto tem sua experiência mais assustadora: o velho o leva a um gabinete escuro e, com gesto teatral, remove um pano verde que cobria um móvel, revelando um esqueleto humano perfeitamente preservado em uma urna de vidro. Com voz grave, confessa que se tratava dos restos de sua primeira esposa, que ele mesmo matara num acesso de ciúme — apenas para descobrir, depois, que ela era inocente.

No desenrolar da história, Dr. Belém anuncia sua intenção de se casar novamente, agora com uma jovem viúva chamada Marcelina — e consegue.

Marcelina, a princípio, admira bastante o Dr. Belém, mas, aos poucos, seus comportamentos passam a revelar que algo não está certo. Alberto, desconfiado, começa a investigar o casal. Durante um jantar, Dr. Belém faz algo aterrador: coloca o esqueleto à mesa, entre os convivas vivos, explicando que aquilo servia de aviso à nova esposa. “Se me trair”, diz ele, enquanto acaricia os ossos da primeira mulher, “terá o mesmo destino”.

A tensão aumenta quando o Dr. Belém começa a suspeitar que Alberto e Marcelina nutrem sentimentos um pelo outro.

Mas, em vez de reagir com violência, o velho opta por desaparecer misteriosamente na floresta, levando consigo o esqueleto da primeira esposa.

No final da narrativa, para surpresa de todos, Alberto revela que toda a história fora invenção sua — uma brincadeira para assustar os amigos naquela noite sombria. A reunião termina com risos nervosos, mas a imagem do esqueleto à mesa permanece gravada na mente de todos.

Em ambos os contos, a sugestão do sobrenatural e do oculto — típica dos românticos — é afogada pela sátira realista do autor; o sobrenatural se reduz ao onírico ou a gazopa, fazendo com que a catarse do medo se dissolva em risadas. Machado, como é característico em sua prosa, desmonta as expectativas do leitor com ironia.

Se eu pudesse resumir ambos os contos, diria que eles são uma crítica que o humor faz ao horror. Machado mantém o leitor em suspense e mistério para, no final — no finalzinho — entregar um desfecho que ressignifica tudo. A estrutura de ambas as narrativas é deliberadamente construída para subverter: onde se espera o trágico, irrompe o cômico; onde se pressente a revelação, surge o deboche.

Talvez você, assim como eu, termine o conto frustrado — e até mesmo um pouco ofendido pela audácia do anticlímax. Mas, depois de um tempo, passada a raiva, começa a entender e, possivelmente, assim como Machado de Assis, achar graça. Afinal, mais do que contar uma história, o autor parece brincar com a nossa expectativa de sentido, com nosso desejo de ordem narrativa e com o fascínio humano pelo inexplicável.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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