“Terra Morta”, de Ryūnosuke Akutagawa: a vigília da morte e o desnudamento da natureza humana

Um ensaio sobre o leito de morte de Bashō, no qual Akutagawa expõe o luto, o egoísmo e as contradições morais de seus discípulos

“Terra Morta” é um conto do aclamado autor japonês Ryūnosuke Akutagawa e, talvez, um dos textos mais interessantes que ele escreveu.

Na narrativa, Akutagawa descreve os derradeiros momentos de Matsuo Bashō, poeta do Período Edo, considerado o maior mestre e codificador do haicai (ou haiku). No entanto, o conto é menos sobre Bashō em si e mais sobre as figuras que orbitam o leito do poeta moribundo: discípulos, amigos e cuidadores reunidos para acompanhá-lo em seus últimos instantes.

Cada um deles se aproxima para prestar suas últimas condolências ao mestre. Nesse gesto final de luto, Akutagawa invade os pensamentos e as emoções de cada personagem, revelando aquilo que secretamente pensam ou sentem naquele momento solene, muitas vezes em flagrante contradição com a atitude externa de reverência.

Entre eles está o médico Mokusetsu, que se pergunta, em silêncio, se realmente fez tudo o que estava ao seu alcance para salvar Bashō — e o que diriam os outros caso percebessem que talvez não tivesse feito.

Há também o corpulento Kikaku Shinshi que, ao umedecer os lábios de Bashō com uma pluma, gesto ritual repetido por todos, é tomado por uma “insuportável repugnância” diante da decrepitude do corpo do mestre. Incapaz de disfarçar, vira o rosto e fecha os olhos, perguntando-se se aquela figura morta e horrível era realmente o homem que lhe ensinara a amar a vida e a beleza. Para ele, testemunhar a morte de Bashō soa quase como uma traição à própria poesia que aprendera com o mestre.

Outro personagem é Kyorai, que, ao contemplar o rosto devastado pela doença, sente uma estranha mistura de satisfação e arrependimento. A satisfação vem do fato de não ter negligenciado os cuidados quando soube da gravidade do estado de Bashō. Tomou a iniciativa em tudo: chamou médicos, cuidou dos detalhes e chegou a pedir uma oração ao deus Sumiyoshi por sua recuperação.

O arrependimento surge quando, enquanto umedece os lábios do mestre, sua consciência o confronta com uma verdade incômoda: talvez todo aquele zelo não fosse pura dedicação a Bashō, mas um cuidado voltado ao próprio contentamento. Ao velar o mestre gravemente doente, à beira da morte, estaria realmente preocupado com ele? Ou estaria, na verdade, contemplando com satisfação o desempenho exemplar das tarefas que ele mesmo assumira?

No canto da sala, ouve-se o que parece uma gargalhada desrespeitosa. Na realidade, trata-se de um impulso irreprimível de dor de Seishū. Sua tristeza rasga o peito, sobe até a boca, que ele mantém firmemente fechada, e acaba escapando pelas narinas em um som que se assemelha a uma risada, mas é puro sofrimento. Essa dor involuntária começa a contagiar os presentes.

Ainda assim, Seishū se recorda de que, três ou quatro dias antes, planejava organizar uma compilação dos haicais de Bashō, na qual pretendia solicitar em primeira mão o último poema do mestre, algo que elevaria o prestígio de sua escola.

Em suma, todos ali parecem operar segundo uma lógica de cálculo e benefício pessoal.

Talvez a única exceção, ainda que não seja claro se Akutagawa a reconhece como tal, seja o velho criado Jirobē, um homem de coração simples, que apenas reza para que Buda receba seu mestre na Terra Pura. Não vejo nesse gesto algo mesquinho, mas uma expressão genuína de preocupação religiosa. No entanto, isso talvez não constitua uma virtude aos olhos de Akutagawa, já que, em seus contos cristãos (kirishitanmono), os sentimentos religiosos não parecem ser valorizados pelo fervor da fé, mas antes reconhecidos por sua beleza formal e, ao mesmo tempo, sutilmente ridicularizados em seu sentido último.

Em síntese, o conto apresenta reflexões ficcionalizadas dos discípulos de Bashō reunidos à beira do leito de morte do mestre e revela que, apesar de supostamente imersos em um “pesar ilimitado”, todos permanecem capturados por pensamentos egoístas e mundanos. A história funciona como uma meditação pessoal de Akutagawa sobre a morte e a natureza humana, profundamente marcada por cinismo e pessimismo, e também influenciada pela morte precoce de seu próprio mentor literário, Natsume Sōseki.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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