Corrupção e Nobreza no Brasil

Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda dedica parte do capítulo IV (O semeador e o ladrilhador), na seção intitulada “Aversão às virtudes comerciais”, a uma reflexão sobre a forma como a herança ibérica moldou a mentalidade social e econômica brasileira.

Ele parte de uma distinção fundamental entre dois conjuntos de virtudes. As virtudes próprias da vida econômica — como disciplina, confiabilidade, cálculo e capacidade de manter crédito — são diferentes das virtudes próprias da nobreza ibérica, que se orientam para a honra, a glória e os ideais cavalheirescos.

O contraste é claro: enquanto o comerciante precisa ser previsível e confiável no cumprimento de suas obrigações, o nobre busca glória e fama.

Essa oposição explica por que os povos de origem ibérica desenvolveram um ethos no qual as relações pessoais tendem a se sobrepor às relações formais.

Sérgio Buarque observa que, para negociar com portugueses ou espanhóis, não bastava confiar em contratos formais. Comerciantes estrangeiros sabiam que era essencial estabelecer laços diretos, vínculos de amizade e confiança pessoal, pois a palavra empenhada no calor de uma relação tinha mais força que o registro oficial.

Esse padrão de comportamento se reproduziu na América ibérica. André Siegfried, citado por Sérgio Buarque, nota que no Brasil e na Argentina conquistar um cliente exigia primeiro conquistar a sua amizade. Não bastava ser eficiente ou oferecer boas condições de negócio: era preciso envolver o outro em um círculo de afetos.

O mesmo princípio se estendia às relações de trabalho: patrões e empregados interagiam muitas vezes sob a aparência de amizade — que podia ser sincera ou meramente formal.

O autor chama a atenção, porém, para as consequências ambíguas desse traço cultural.

O lado ruim dessa ênfase em vínculos pessoais é que ele pode se desdobrar em práticas de favorecimento e, em última instância, em um tipo muito específico de corrupção.

Corrupção existe em todos os lugares, do norte ao sul, dos ricos aos pobres. A diferença está em como ela se manifesta.

Em sociedades de tradição capitalista, como Estados Unidos, Alemanha ou Inglaterra, a corrupção se manifesta tipicamente por ganhos objetivos, quantificáveis em dinheiro. Já nas sociedades ibéricas, ela aparece como uma distorção das relações de amizade e lealdade.

Assim, muitas vezes o agente envolvido em corrupção não enriquece de forma direta. Pode, inclusive, se prejudicar financeiramente ao favorecer amigos e parentes.

O que está em jogo não é tanto a busca por benefício pessoal imediato, mas a necessidade de manter a honra dentro do círculo de relações próximas. O político que promove familiares ou aliados, por exemplo, age menos para obter vantagem individual do que para reforçar sua posição dentro de uma rede de afetos.

Partindo dessa ideia, considero pouco eficaz investigar a corrupção em países como Brasil, Argentina, Espanha ou Portugal apenas sob a ótica do enriquecimento pessoal. A lógica que sustenta tais práticas, nos países com nossa matriz cultural, não é a do cálculo econômico racional, mas a do vínculo pessoal e da lealdade a “os seus”.

Em resumo, sejam lícitas ou ilícitas, as relações acabam expressando essa mentalidade palaciana herdada da nobreza ibérica, em que os afetos e a proximidade valem mais do que a impessoalidade das regras ou dos contratos.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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