A distopia fabril no conto “Autofab” de Philip K. Dick

Autofab” é um conto de Philip K. Dick escrito em 1955, originalmente publicado na revista “Galaxy Science Fiction” e reimpresso em várias coleções, incluindo “The Variable Man”, de 1957, e “Robots, Androids, and Mechanical Oddities”, de 1984.

Também fez parte da famosa coleção “Electric Dreams”, que deu origem à série de mesmo nome em 2017, promovida pela Amazon Prime.

A história se passa cinco anos após o “Grande Conflito Total”, quando foram construídas as autofabs – uma rede de fábricas programadas para funcionar de forma autônoma, buscando matéria-prima e criando todo tipo de bens de consumo, de quinquilharias a alimentos, enquanto a humanidade concentrava seus esforços na guerra.

Essas máquinas são exemplares máximos de uma inteligência artificial evoluída e uma cibernética orientada para a máxima performance. Trabalham incessantemente, são capazes de autorreparo constante e aprendizagem.

Se uma unidade da fábrica se danifica, outra réplica é prontamente reconstruída no seu lugar, com os devidos reforços.

No entanto, a partir de um acidente durante o conflito, os humanos perderam completamente o controle das fábricas, que continuaram sua produção mesmo após o conflito, esgotando os recursos da Terra em uma aceleração crescente.

O que à primeira vista poderia ser usado como um trunfo máximo da humanidade para potencializar sua capacidade produtiva se torna uma distopia fabril onde os recursos da Terra são consumidos predatoriamente por uma atividade automatizada violenta.

Philip K. Dick é incrivelmente preditivo neste conto “factory-punk“, antevendo em décadas conceitos amplamente conhecidos, como “machine learning” e nanorrobótica (os robôs da autofab possuem unidades de escala nanoscópica que se comunicam na mesma rede de inteligência).

Trata-se de um dos meus contos preferidos de Philip K. Dick e o meu favorito da coleção “Electric Dreams“.”

Episódio 2: Autofac (Electric Dreams, Amazon)

⭐⭐

A versão de Autofac da Amazon, dirigida por Peter Horton e roteirizada por Travis Beacham, embora sustente a mesma história de fundo (a mesma distopia fabril pós-apocalíptica), tem um direcionamento muito diferente do conto original.

Não que isso seja um problema. Está bem claro que a série é baseada nos contos de Philip K. Dick, isso não quer dizer que tenha que ser fiel ou literal. Reivindicar um purismo é bobagem.

Autofac da Amazon e Autofac de Philip K. Dick discutem coisas diferentes. O conto original trabalha como uma metáfora distópica sobre exploração ambiental, obsessão produtiva e uma reflexão sobre o automatismo. A versão da Amazon também tem um background de fundo ambientalista; no entanto, desloca sua discussão para questões de identidade e descartabilidade.

Apesar de mudar radicalmente seus temas focais, Autofac da Amazon continua sendo philip-k-dickiano em suas questões, embora ainda seja superficial.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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