Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda analisa a formação colonial brasileira, destacando a influência de uma cultura que ele descreve como “açucarada” e “dengosa”, marcada pelo gosto pelo exótico, pela sensualidade brejeira, pelo chichibeísmo (galanteio) e por caprichos sentimentais. Segundo o autor, essa tendência se refletiria até mesmo na violência, que assumiria um caráter passivo, negador de virtudes sociais e narcotizante da energia produtiva.
Holanda associa essa dinâmica à chamada “moral das senzalas” e à influência dos negros, que, somadas ao que ele chama de “mormaço colonial” português — mais aventureiro do que trabalhador —, teriam moldado a administração, a economia e as crenças religiosas da época. Para ele, os colonizadores portugueses entendiam a própria criação do mundo como uma espécie de abandono divino, um “languescimento de Deus” (*).
O autor sugere que a colonização holandesa no Nordeste, embora menos “plástica”, trouxe consigo um espírito empreendedor, metódico e coeso, capaz de fomentar desenvolvimento. Enquanto o Recife holandês ostentava palácios monumentais, parques opulentos, institutos científicos e uma estrutura administrativa avançada, o restante do Brasil permanecia estagnado. No entanto, o projeto holandês de criar uma “extensão tropical da Europa” fracassou.
Holanda rejeita a tese antropológica da época, que atribuía o insucesso à incompatibilidade dos europeus do Norte com o clima tropical. Em vez disso, argumenta que a “Nova Holanda” existia como um enclave isolado — uma civilização batava cercada por um “mar de terra” luso-brasileiro que detinha o controle das riquezas. Esse isolamento foi agravado por fatores como a língua (os idiomas nórdicos eram menos acessíveis aos indígenas que o português ou o espanhol) e a religião (o protestantismo, ao contrário do catolicismo, não oferecia o mesmo apelo sensorial e dramático).
Paradoxalmente, a “sinuosidade” lusitana — sua capacidade de adaptação aos costumes locais, seja pela americanização ou pela africanização — teria garantido o êxito da colonização portuguesa em longo prazo, ainda que à custa de um desenvolvimento lento.
