A Emotividade Visceral do Brasil e a Polidez Epidérmica do Japão: Um Encontro à Luz de Sérgio Buarque de Holanda

Como a oposição entre impulso emotivo e ritualidade formal revela contrastes culturais profundos e mostra o que podemos aprender com o Japão sem abandonar nossa própria natureza

Segundo Sérgio Buarque de Holanda, a grande contribuição do Brasil ao mundo seria a figura do homem cordial.

Esse homem cordial expressa ao mundo a lhaneza do trato, a hospitalidade, a generosidade e as virtudes que tanto encantaram viajantes estrangeiros da época em que Sérgio Buarque escrevia. No entanto, ele faz questão de enfatizar que é um equívoco confundir cordialidade com boas maneiras ou civilidade.

Para Sérgio Buarque, nossa cordialidade é uma expressão mais emotiva do que sugere a civilidade. A civilidade traz consigo algo de coercitivo, um conjunto de mandamentos e normas. A cordialidade não. Ela resiste a sistematizações e não se confunde com polidez.

Nesse ponto, Sérgio Buarque recorre ao exemplo dos japoneses como representantes de uma sociedade polida e educada. A educação japonesa, afirma ele, é reflexo do xintoísmo. Funciona como uma reverência religiosa transposta às relações sociais, uma forma cotidiana das antigas práticas de veneração às divindades dos templos. Mesmo o japonês menos religioso age, inadvertidamente, segundo esse molde. Quem quiser entender melhor, pode recorrer ao meu artigo sobre a naturalização do sagrado; embora trate da China, a reflexão se estende a outras culturas do extremo oriente.

Sérgio Buarque sugere ainda que o Japão é uma espécie de espelho invertido para nós. Estamos distantes desse modo ritualista de existir. Nosso convívio social ordinário é, no fundo, contrário à polidez. Entendemos a polidez como mímica deliberada e valorizamos mais as manifestações espontâneas e desregradas. O japonês seria epidérmico; o brasileiro, visceral. Talvez exista, justamente por isso, uma certa admiração mútua.

Para o japonês, a solidão representa um lugar de libertação. Para o brasileiro, ao contrário, a solidão é clausura. Nossa tendência é nos expandir; somos centrífugos. Isso vale mesmo quando acreditamos ser introvertidos. Não são poucos os brasileiros que viajam ao Japão e descobrem ali que são muito menos retraídos do que imaginavam.

Talvez seja útil conhecer-se melhor como brasileiro vivendo alguns meses no Japão, e útil também o inverso. É saudável aprender com os japoneses a civilidade e moderar certos impulsos, sem acalentar qualquer fantasia de alterar nossa natureza. Convém mediar o excesso de intimidade para que ele não se transforme em importunação.

E, para ser sincero, estamos em vantagem. É mais fácil para o homem cordial aprender a polidez do que para o homem polido aprender a cordialidade. Nosso temperamento aceita de bom grado certas fórmulas de reverência, desde que não impliquem tirania sobre o próprio indivíduo e não exijam esforço ou diligência. Afinal, o brasileiro tem certa aversão ao esforço.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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