Jesus é um mito

Como o cristianismo transformou o acontecimento sagrado em realidade histórica

Mircea Eliade, em Mito e Realidade, relata uma tensão particularmente curiosa entre a ideia de mito e o cristianismo, especialmente entre os cristãos dos primeiros séculos.

Essa tensão estava baseada, em grande medida, naquilo que o mundo greco-romano de seu tempo, já no período clássico tardio, entendia por “mito”.

Depois de séculos de racionalização filosófica, crítica e sátira, a ideia de “mito” havia passado por um processo de dessacralização. Para boa parte da elite e do senso comum greco-romano da época, mythos já era praticamente sinônimo de fábula, invenção ou narrativa alegórica. Essa ideia foi tão fortemente difundida e assimilada que, até hoje, tomamos a palavra “mito” como sinônimo de “mentira”.

É evidente, portanto, que os cristãos, que afirmavam a existência real, carnal e histórica de Jesus de Nazaré, não poderiam aceitar que a biografia de seu Salvador fosse reduzida a uma “fábula”.

Jesus era histórico. Havia nascido em um lugar determinado, em um momento determinado, fora crucificado sob o poder de uma autoridade romana real, Pôncio Pilatos, e seus seguidores testemunharam sua morte e sua ressurreição. Negar a realidade histórica de Cristo seria negar o próprio fundamento do cristianismo.

Era urgente para o cristianismo se desvincular das correntes religiosas de sua época, inclusive daquelas que surgiam dentro de suas próprias fileiras. Não é à toa que o docetismo, a ideia de que Cristo não possuía uma verdadeira corporeidade, foi uma das primeiras heresias combatidas pela Igreja.

Eliade, entretanto, defende que, nas sociedades tradicionais, o mito não é, e nunca foi, uma mentira. O mito é simplesmente a História Sagrada por excelência: uma narrativa que relata acontecimentos primordiais e exemplares, ocorridos no tempo das origens, o illud tempus, e que continua a fornecer um modelo para a existência humana.

Se entendermos mito nesse sentido, podemos dizer, sem desagravo da fé, que a história de Cristo é, sim, um mito, justamente porque é uma história sagrada.

A questão é que o cristianismo introduz uma ruptura radical na própria estrutura daquilo que se entendia como mito e daquilo que se entendia como história. Aquilo que, nas religiões tradicionais, pertence ao tempo primordial acontece, no cristianismo, também dentro do tempo histórico.

Ao longo da história, essa aparente contradição foi compreendida de maneira mais sofisticada dentro da própria Igreja.

A partir de autores como Orígenes de Alexandria, encontramos entre os cristãos uma compreensão mais complexa e precisa da relação entre mito e história.

A historicidade de Cristo, material e carnal, não eliminaria necessariamente seu caráter mítico.

Pelo contrário, o cristianismo poderia ser entendido como a realização única e verdadeira do mito na própria História. Não do mito entendido como fábula, invenção, mentira ou alegoria, nem do mito exilado no tempo cósmico, mas do mito como realidade viva, exemplar e presente.

O cristianismo afirmava que o Absoluto havia se encarnado não em um tempo cósmico e indiferenciado, mas em um momento específico da História, em um lugar geográfico determinado. Deus, que habita fora do tempo e fora do lugar, havia entrado no tempo e no lugar.

Havia algo de escandaloso nessa afirmação: o eterno havia se manifestado dentro do contingente; o infinito havia assumido uma forma finita; aquilo que transcende a História havia se submetido às condições concretas do antes e do depois.

Orígenes compreendia que o Mistério da Encarnação não poderia ser reduzido nem ao aspecto mítico nem ao aspecto histórico.

Por isso, ele desenvolve sua compreensão dos múltiplos sentidos da Escritura e da permanência do mistério. Segundo ele, o texto bíblico pode ser simultaneamente literal, simbólico, moral, espiritual e alegórico, pois é, antes de tudo, sagrado.

Cristo atravessa a História sem estar limitado a ela. Ele é, nesse sentido, trans-histórico. E essa trans-historicidade se manifesta também no tempo litúrgico, que recupera periodicamente, no tempo presente, o illud tempus, o tempo primordial das origens.

A experiência religiosa cristã passa, então, pela imitação de Cristo como modelo exemplar, pela repetição litúrgica dos acontecimentos de sua vida, morte e ressurreição e pela participação do fiel em um tempo que torna o acontecimento primordial novamente presente. O cristão não apenas recorda um acontecimento ocorrido dois mil anos atrás. Liturgicamente, ele se torna contemporâneo daquele acontecimento.

A Natividade, a Paixão, a Ressurreição e a Ascensão são acontecimentos históricos únicos, mas também são continuamente atualizados no tempo litúrgico.

Aqui aparece outra característica fundamental do cristianismo: embora o tempo litúrgico possua uma estrutura circular, baseada na repetição e na recuperação do tempo sagrado, o cristianismo, como herdeiro do judaísmo, preserva uma concepção essencialmente linear da História.

O mundo foi criado uma única vez e terá um único fim. A Encarnação aconteceu uma única vez, em um lugar específico e em um momento específico. Cristo morreu uma única vez. Haverá uma única Ressurreição dos mortos e um único Juízo.

O cristianismo articula, portanto, duas concepções aparentemente contraditórias do tempo. De um lado, existe o tempo histórico, linear e irreversível, herdado da tradição judaica. De outro, existe o tempo litúrgico, circular, no qual o acontecimento sagrado é continuamente recuperado e tornado presente.

O que diferencia o cristianismo da maioria das religiões é a articulação direta entre o contingente e o eterno, entre o logos e o mythos. O acontecimento histórico não é descartado em favor do mito, nem o mito é simplesmente descartado em favor da História. O cristianismo afirma que o próprio eterno entrou na História.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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